Histórias em quadrinhos atingem diferentes públicos e ganham força na era digital
Para Roberto Elísio dos Santos, histórias em quadrinhos estão chegando a todos os públicos e estão sendo apreciadas por uma diversidade de leitores
As histórias em quadrinhos (HQs), conhecidas popularmente no Brasil como gibis, são um modo de narrar histórias através da sequência entre textos e imagens. As HQs possuem temas diversos e abordam desde a vida de super-heróis até crescimento pessoal, o que faz com que esse produto cultural conecte-se com diferentes públicos.
Segundo o professor Roberto Elísio dos Santos, vice-coordenador do Observatório de Histórias em Quadrinhos da Escola de Comunicações e Artes da USP, existe uma determinação de que as as histórias em quadrinhos são um produto cultural midiático que precisa ser reproduzido em grande quantidade para atender às necessidades do mercado.
A história das HQs

As HQs são publicadas nos jornais desde o século 18 na Inglaterra e eram voltadas para o público adulto. Com o passar do tempo, essas histórias avançaram para Europa, EUA, chegando até o Brasil. “Quem lia jornal naquela época eram pessoas adultas. Mais tarde, com a publicação dos Sundays [cadernos de domingo], que eram os suplementos dominicais dos jornais, coloridos, com muitas tiras e às vezes uma história de uma página inteira, o leitor infantil passou a consumir esse tipo de produto.”
Na década de 1930, surgem os comic books: o formato de gibis e HQs conhecidos hoje em dia. “Aqui no Brasil, a revista O Tico-Tico foi a pioneira em publicar quadrinhos infantis, era uma revista dirigida ao público infantil, e depois foi seguida pela Gazetinha, pela Gibi e outras publicações. Eu acredito que hoje nós temos uma mescla de leitores infantis, adolescentes e adultos, porque o mercado editorial comporta publicações das mais diferentes.”
A introdução do público infantil é um fator importante que não excluiu as faixas etárias mais velhas do público-alvo. “Você vai encontrar nas comic shops, principalmente, quadrinhos que são voltados para todos os públicos, do gênero super-herói até os quadrinhos alternativos. Um fenômeno que ajudou a popularizar as histórias em quadrinhos com o público mais jovem foi o mangá, que começou a ser publicado no Brasil na década de 90 e hoje tem uma infinidade de títulos com editoras que se dedicam à publicação desse tipo de material, como a JBC, e tem também artistas brasileiros fazendo quadrinhos no estilo mangá, até mesmo o Maurício de Sousa.”
No cenário brasileiro, A Turma da Mônica e suas variações feitas pela Maurício de Sousa Produções (MSP) é a história em quadrinhos mais marcante, como afirma o pesquisador. “A gente tem que lembrar que o mercado editorial brasileiro comporta [além d]os quadrinhos infantis do Maurício de Sousa, que, aliás, diversificou a sua produção para adolescentes, com a Turma da Mônica Jovem, e com as gráficas MSP, que buscam um leitor antigo que gosta de ver esses personagens sendo explorados de uma maneira diferente. Maurício de Sousa, inclusive, é um dos maiores produtores de histórias em quadrinhos. São milhões de exemplares vendidos todos os meses e são muitos títulos que fazem parte da MSP.”
O público hoje
Os consumidores de histórias em quadrinho são diversos. Com a evolução dos produtos culturais multimídias, as HQs passaram a estar em outras mídias, o que o professor chama de “sinergia entre histórias em quadrinhos e outras mídias, como cinema e videogames, séries de TV, e essa sinergia dá um impulso muito grande para as histórias em quadrinhos”. A diversificação de produtos sobre quadrinhos fez com que um público que não era acostumado a ler começasse a procurar por essas histórias nas HQs originais.
As histórias em quadrinhos ganharam força na era digital e algumas passaram a contar com adaptação para essa mídia, como as chamadas de webcomics. “Além das histórias em quadrinhos impressas, nós temos também hoje em dia as histórias em quadrinhos que estão na mídia digital. É possível encontrar sites dedicados a histórias em quadrinhos com a mesma linguagem, a mesma ideia de sequencialidade das histórias publicadas em papel, no suporte papel, só que elas estão disponíveis na internet e muitas delas fazem sucesso na internet e depois são impressas para chegarem a um público maior. Algumas dessas webcomics agregam imagem, som e movimento. É um meio termo entre histórias em quadrinhos e desenho animado, que mantém a linguagem específica dos quadrinhos, balão, onomatopeia.”
O tema das HQs ganha destaque também dentro do mundo acadêmico. “Há muitos trabalhos acadêmicos que focam nas histórias em quadrinhos. São desde iniciação científica, TCCs, até teses de pós-doutorado. Há muitos professores e orientandos no Brasil inteiro que analisam as histórias em quadrinhos sobre vários aspectos da história da sociologia, das letras, da linguística, com objetos diferentes. Do quadrinho feito por mulheres, sobre mulheres, quadrinhos da comunidade LGBT, quadrinhos de humor, quadrinhos políticos, quadrinhos regionais que a gente normalmente não conhece e passa a conhecer a partir desses trabalhos de pesquisa.”




