
Dados da Sociedade Brasileira de Hepatologia (SBH) apontam que cerca de 30% da população mundial apresenta esteatose hepática, mais conhecida como acúmulo de gordura no fígado. Essa alta prevalência da condição está relacionada, entre outros fatores, às mudanças nos hábitos de vida, como o maior consumo de alimentos industrializados e ultraprocessados e bebidas adoçadas. É o que explica a doutora Roberta Chaves, do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP.
“A doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica apresenta alta prevalência. Cerca de 30% a 40% da população tem a condição, o que representa aproximadamente um em cada três adultos. Entre grupos específicos, esse número pode ser ainda maior, a prevalência chega a 70% entre pessoas com diabetes e a 80% entre pessoas com obesidade.”
Segundo a especialista, a alta prevalência está relacionada principalmente ao estilo de vida atual, marcado pela redução do movimento no dia a dia e pelo maior acesso a alimentos industrializados e ultraprocessados. “Nós passamos de uma era de mais movimento para uma era de menos movimento, de tudo muito automatizado, robotizado. As pessoas andam menos, passam mais tempo sentadas”, afirma.
Essa combinação entre o menor gasto de energia e o consumo excessivo de determinados alimentos pode favorecer o acúmulo de gordura no organismo e contribuir para doenças metabólicas. “Quando consumidos em excesso, esses alimentos, associados à falta de movimento, podem levar ao acúmulo de gordura no corpo e contribuir para diversas complicações inter-relacionadas, como diabetes, obesidade, doenças cardiovasculares e doença hepática esteatótica”, completa.
Fontes de gordura
A gordura no fígado acontece quando há acúmulo de gordura dentro das células do órgão, e essa gordura pode ter diferentes fontes. A principal delas é a gordura liberada pelo próprio tecido adiposo, especialmente quando existe resistência à insulina. Outra fonte é a própria produção pelo fígado a partir do excesso de nutrientes, principalmente carboidratos. Então, a gordura acumulada no fígado é resultado de um conjunto de alterações no metabolismo e não simplesmente da gordura presente em um determinado alimento. “Ter um alimento com gordura não significa que automaticamente essa gordura será depositada no fígado. A esteatose está relacionada principalmente com o desequilíbrio nesse metabolismo e no processamento de gorduras pelo organismo”, explica Roberta.
Nesse processo, o excesso de calorias, especialmente de açúcar e carboidratos, também pode favorecer a formação de gordura pelo próprio fígado. A especialista explica que nesse mecanismo “pode acontecer um processo chamado de lipogênese, em que fontes como carboidratos podem ser transformadas em gordura. E isso vai acontecer quando existe um excesso de carboidrato e açúcar”.
O consumo elevado de bebidas adoçadas, ricas em frutose, também pode contribuir para esse cenário. Na correria da rotina, esses produtos acabam ganhando espaço pela facilidade e pela praticidade para o consumo, mas, a longo prazo, podem causar problemas. Como explica Roberta, “o problema não é a frutose que está presente na fruta, que está numa quantidade adequada. O problema é quando a gente consome esses produtos industrializados, que artificialmente contêm excesso de frutose. Esse excesso pode fazer mal”.
Além da alimentação, outros fatores também podem aumentar o risco de desenvolver esteatose hepática, como diabetes, alterações no colesterol e nos triglicérides e hipertensão. O consumo de bebidas alcoólicas também pode contribuir para o desenvolvimento da doença, dependendo da predisposição de cada indivíduo. Fatores genéticos também podem aumentar o risco. A esteatose, no entanto, é uma condição silenciosa e assintomática. Por isso, a descoberta muitas vezes acontece durante exames de rotina ou de imagem realizados por outros motivos, especialmente entre pessoas que apresentam fatores de risco, como diabetes, hipertensão, obesidade ou sobrepeso e histórico familiar.
O acompanhamento é fundamental, já que, sem tratamento, a doença pode evoluir para cirrose e câncer de fígado, além de estar associada a complicações cardiovasculares e ao aumento do risco de mortalidade.
“As complicações cardiovasculares estão entre as mais comuns, já que, apesar de começar no fígado, a esteatose hepática está intimamente ligada à síndrome metabólica e pode afetar o organismo de forma sistêmica. A condição está associada a fatores como diabetes, pré-diabetes, obesidade e alterações nos níveis de colesterol, aumentando o risco cardiovascular”, finaliza.
Matéria: Luís Martins | Jornal da USP.




