A porta do carro bateu, pelo pisado macio já dava pra perceber que era nego da cidade. E de cidade grande.
Era um homem magro, embora barrigudo, e um moleque de uns sete, oito anos.
Pediu o de comer, não tinha mais salgados na estufa – nem coxinha, nem pastel, nem nada. O torresmo já tinha acabado, que o time de futebol do bar já tinha passado por ali fazia umas duas horas e acabado com tudo.
O dono da venda puxou prosa, enquanto a mulher dele preparava os lanches de linguiça, que eram a única coisa que podiam oferecer, fora a pinga, a cerveja e os refresquinhos pro moleque.
- Vi que tem petrecho de pesca na perua, se mal lhe pergunte...
- Tem, viemos procurar um lugar pra pescar, ouvi dizer que é bom...
- Então o senhor gosta de pescá... no rio Feio pega muita piava, traíra... ensino o caminho dispoi. Sabe batê traíra? Traíra no linhão? Tem que jogá o linhão com uma chumbada pesada, e na corredeira. Cê isca um lambarizinho e deixa corrê, traíra não pega no parado.
“A não sê que teje procurando pesque-pague... tem um aqui pertico, tem tilápia, tem pacu, pra divertí é bão, é limpo, mai eu, pra falá verdade, não acho graça. Cê qué refresco já, meninão? Tem gengibirra, tubaína, caçulinha...
“E caçá, gosta? Eu gosto mais de caçá, meu pai era mateiro. Aqui até uma época tinha de caçá senão não tinha carne, num tinha açougue nem supermercado, e era caro comprá carne. Era uma galinha carijó de quando em veis, um galo véio, um porco dividido entre os vizinho, e quem sozinho tinha uma vaca era rico. Milho, mandioca, era o que tinha, arroiz e feijão nóis comprava com o dinheiro da cana que nóis vendia pra usina.
“Então a caça era boa pra ponhá na mesa uma paca, um tatuzinho... Já comeu tatu? É bão, ói, é bão. Lembra carne de lebre... mai tem que sê do tatu-bola, que o tatu-açu, o vermeião, é carne ruim. A carne do tatu-bola é branquinha...
“E tem muita capivara hoje, tamém... mai até um tempo atráis num tinha, era só no Mato Grosso, e de um tempo prá cá nóis comecemos a i prá lá, pescá e caçá no Mato Grosso, mai pra caçá. Capivara, jacaré, quexada... onça tamém. Lá dentro tem a pele de um suçuarana, a bichona quase que comeu nóis, a bicha tava com fome... é, ela ataca só quando tá com muita fome.
“Capivara é comida de onça, jacaré, mai jacaré véio, açu... sucuri gosta tamém, quando ela come uma leva um mêis pra digeri tudo...
“A carne da capivara é boa, mai tem que sê da capivara nova, meio fiotão. Sabe como caça? Cê tem que saí de barco, pois que elas andam de bando na beira do rio. E tem que sê de noite, elas tão dormindo na beira do rio. Cê chega co´as luz apagada e percebe onde elas tão, aí taca o facho no zóio... que nem jacaré... ela assusta e paralisa, aí o outro (tem que sê de dupra) dá um tiro. Só que a capivara não cai morta onde cê deu o tiro nela, ela desce pra água. Aí ocê segue ela de barco até ela cansá e morrê, e bóia. Aí ocê recóie ela pro bote.
“Matei muito bicho desses. É gostoso, ói, é gostoso. Chegô seus lanche. Minha muié faz os lanche, mai quem faz a linguiça sô eu.
“Cê mói a carne, e tempera com cebola, áio, chêro verde, arfavaca, pimenta comari ou dedo-de-moça fica bão.
“Gostô?”
- É linguiça de porco ou de vaca? - perguntou o citadino, impressionado com o papo do dono da venda, e também com o fato da linguiça ser caseira. Na hora, veio certo asco de pensar do dono, com as mãos rachadas, talvez de anos de lavoura de cana, ter feito uma linguiça tão boa, mas o sabor sobrepôs-se à impressão. O menino nem pestanejou: o sanduíche estava com o gosto da fome.
- É boa, muito saborosa. Fazia tempo que eu não comia uma linguiça tão boa.
- ´Brigado... a linguiça é feita de um jeito que eu vou contar uma história pro senhor... posso contá? Pois então. Nóis fomo caçá capivara, nóis ia tê que caçá bastante pois um político bão da boca daqui da cidade tinha encomendado uma leva grande prum churrasco pros padrinhado dele da prefeitura e do partido dele lá. Era encomenda metade de carne, metade de linguiça.
- Churrasco de capivara é bom?
- Se é bão? Ô se é! Tire a gordura e é mai gostoso que porco! Dêxe de moio de um dia pro outro no áio e no limão, que ocê vai vê só... nunca mai qué otra coisa... mai nóis fomo caçá e descemo o rio Miranda, uns par de bote, e nada de capivara... matamo um jacaré, que um companhêro ia levá e fazê, que ele era bão de cozinhá... até que nói vimo um bicho na beira... de noite, cê vê só o vurto do bicho, e se acendê a lanterna assusta e e ele sai correndo, ou entra n´água. Mai nói vimo aquele e não assemeiava com nenhum que eu conhecia... tinha quatro perna, pensei que era um viado, mai era mai arto ainda... sem mintira nenhuma, era uns treis metro de bicho, de artura... será que era um jacaré de pé? Uma onça? Mai onde que esses bicho ia se apoiá, que num tinha arve nenhuma perto? Só mato!
“Falei pro companhêro: “se é bicho, nóis mata, senão ele mata nóis”. Nóis tava num trecho estreito do rio, ou a gente liga o motor do barco, e assusta o bicho, ou nóis sai nadando, e morre tamém. Cê já pensou? Um bicho de uns treis, quatro metro de artura, com quatro perna? E se aquele bicho pega nóis?
“Mirei minha espingarda no zóio, na cabeça... essa arma estóra os miolo, se acerta na cabeça o bicho já era... mai bem na hora que eu apertei o gatio, me acende um monte de luz na beira do rio? Nóis no reflexo se jogamo no fundo do bote, e parecia que tinha um monte de viatura na margem. Eu pensei na hora que era guarda florestal, fazendo ronda. Ouvi uns tar falando, mai parecia ingrês, ou japonei, sei que língua esquisita era aquela, nem parecia língua de gente...
“Aí eu desconfiei que num era guarda florestal... Nóis ficamo no fundo do bote, bem quietinho, que nói era tonto tamém... mai que nói tava co´ cu na mão, nói tava... Aí o pessoar parô de falá, e meio que diminuiu as luz, nói tivemos corage e oiamo pra fora... Juro por Deus que eu e o companhêro vimo um avião, um ´licotero, um negócio desse que voa, piscando as luz, virando, rodando... mai era muito colorido as luz...
“O troço foi embora, e subiu arto, arto, arto... passô as nuve, juro! Nem sabia que tinha avião que voava tão arto... Aí eu e o companhêro vimo que ficô tudo escuro de novo, e oiamo pro chão, pra beira do rio onde eu tinha atirado no bicho esquisito...
“Vimo o bicho e parecia um viado... cortamo os quarto trasero dele e a cabeça, pois eu queria vê que troço era aquele. No escuro parecia uma mistura de um monte de bicho, no craro nói vimo que o animar era mais esquisito ainda...
“Nóis experimentamo a carne no outro dia, um pedaço, na churrasquera, depois que nóis trinchamo e despelamo ele. Sabe que era bão? Bem temperado, no mêmo moio da capivara, ficô uma delícia de gostoso. Era sequinho, sem gordura, parecia um franguinho bem seco, mai um pôco mai forte.
“Aí nói experimentamo fazê linguiça do bicho tamém, e ficô boa! Bateu a linguiça de porco, de vaca, misturada, de frango... ficô uma linguiça do outro mundo! Até guardei um pôco pra oferecê pros colega...
- Que coisa... - disse o da cidade, lambendo os beiços com o lanche. Já estava limpando o prato com o pão, e decidindo se pedia outro. - E o bicho, vocês descobriram o que era?
- Não... a cabeça sabe que apodreceu? Nói empaiamo, como eu já fiz com outras cabeça de bicho, tem um viado, um jacaré inteiro, até uma capivara eu já empaiei prum doutor da cidade... mai esse bicho num deu jeito, dispoi de um mêis ela foi disfazeno...
- Nossa... quanto tempo faz isso? - perguntou o homem.
- Faz uns dois mêis...
- Então faz pouco tempo! O senhor ainda tem aí, pra provar?
- Se tenho... Mas é pra coisa especiar, se o senhor se interessa, até posso vendê...
- Não sei se me apetece, vai saber que bicho é esse, não? Se é verdade o que senhor tá falando...
- Mas é... juro pela minha mãe que é morta, se Deus quisé, lá no céu co´ele...
- Se é verdade o que senhor tá falando, o bicho era de... outro planeta...
- Num falei isso, o senhor que concruiu... mai que era boa a linguiça, ah, isso era...
E o homem da cidade, já zombando completamente do caipira, que dava um risinho de canto atrás do balcão:
- Então que gosto será o dessa linguiça maravilhosa, que não tem para nenhuma outra...
E o dono da venda, com o sorriso já completamente aberto:
- Pois é o gosto da vossa, que ocê comeu lambendo os beiço...



