Por ora, está certo, se não for sobre o metrô, que carrega X passageiros por hora. Muitas vezes penso que a hora de relógio não poderia ser diferente. Ora eu acerto, se me descuido e tiro o H, mas se eu definir o período de tempo, é a ora que eu erro, porque, nesse caso, tem que pôr H.
Tem leitor que diz ficar confuso com meus textos, mas neste serei mais claro. Gramaticalmente, sou semialfabetizado. Enquanto meus amigos do Jaçanã Altair Pereira Guerrini estavam aprendendo tudo certinho, onde colocar as concordâncias nas frases e escrever ascensão sem sofrer, eu estava de olho no Saci de João Chiarini, um dos meus professores na escola mestre e exemplar.
Posso ser mais claro ainda. Enquanto seu José Rossi, um grande professor de português, colocava ordem na cabeça da criançada, eu estava com a cabeça em João Chiarini, que nos ensinava que a vida era um teatro. Por isso, hoje sou uma mula-sem-cabeça, uma vez que o teatro do mestre pouco vale para a gramática se não somos um Campos de Carvalho, um Guimarães Rosa, um Joyce...
Como eu nasci para ser eu mesmo, sem megalomania, a gramática ruim que eu fabrico me persegue. Minha sorte é persistir e ter um Fábio San Juan na equipe do Viletim, que me corrige e me salva das furadas. Invejo o Fábio, que sabe tudo sobre Saci e sobre concordâncias. Além de não errar a forma como as palavras são escritas. Eu erro barbaridade.
Meu amigo Francisco do Carmo Araújo me disse uma vez que esse tipo de conhecimento se acumula na fase branca da vida. Depois disso, só com o abençoado Houaiss. Ele queria dizer branca, como sendo aquela fase em que a gente grava tudo, como numa tabula rasa de John Locke.
Na minha fase branca, além do Saci e da Mula, aprendi a fórmula da Cibalena, que eu reproduzo em qualquer momento, sem ter que pensar nela: “Dimetilominofenildimetilpirazolona”. O que me salva dos micos é o meu senso de humor, um misto de teatro do Saci com as deficiências de uma Mula-sem-cabeça. Sou um pouco de teatro.
Uma vez li uma entrevista com o dramaturgo Nelson Rodrigues. Não recordo quem fez. Só sei que, quando a li, o escritor era um jovem jornalista. Eu nem jornalista era ainda. E o que ele trouxe de grandioso?
Uma das perguntas que fez tratava da fase em que o dramaturgo vivia, qual era seus próximos projetos, algo assim. E o maior cronista de todos os tempos, do jornal Última Hora, foi sincero. Não me lembro as palavras que ele usou, mas foi nessa linha: “Meu jovem, já estou velho e intelectualmente brocha, tanto é que nem sei mais se brocha escreve com X ou com CH”.
Antecipei a minha velhice, pois aos 20 anos eu descobri que jamais saberia escrever brocha sem consultar o Google. Com o Google nem havia nascido, eu escrevia tudo errado mesmo quando não tinha o velho Aurélio ao meu lado. Hoje eu escrevo errado com a ajuda do Google. E já avanço em minhas limitações gramaticais com a ajuda da IA. Me considero a vanguarda da fase branca da minha vida.
Jamais haveria este texto se não houvesse o Google, bem como ele jamais seria escrito por uma IA, pois se trata da minha vida, que ela desconhece.




