Esta história que segue está envolta também pelo sinistro. É baseada em um “fato real” da minha infância. Meu amigo Kako Braga se lembra dela. É o caso do Menino Estranho – vou chamá-lo assim – que ocorreu no meu bairro.
Eu tinha menos de 10 anos, suponho. Talvez ele fosse um pouco mais velho que eu, mas não muito. Seu comportamento era diferente e destoava das demais crianças. Ria pouco, estava sempre zangado e não tinha o entusiasmo que nos alimentava a vida.
Brincávamos muito, sim. Mesmo se comportando de forma avessa, ele sempre estava nos pegas-pegas, mães-da-rua, esconde-escondes. Até que, em uma certa ocasião, ele me encontrou de frente, no meio do asfalto quente, e me cuspiu pela fresta dos dentes dianteiros levemente separados.
Era fim de tarde e a noite já se anunciava. O cuspe em esguicho caiu dentro da minha boca. Fiquei enojado e fugi para a minha casa, após tentar me limpar de todo jeito.
Recordo que no final de semana seguinte seria minha formatura de Primeira Comunhão. Minha mãe havia comprado um par de sapatos para mim, marrom e brilhante. Eu nunca tive um igual e tão bonito até então. Comprou também uma gravata borboleta, que daria o acabamento na camisa branca de mangas compridas. Fiquei arrumadinho e recebi a bênção do padre, ao lado de outros amigos do bairro.
Só que no final da semana seguinte seria a formatura do Menino Estranho, na mesma igreja. A mãe dele veio ao socorro da minha em busca de um sapato, que ele não tinha. Minha mãe, solidária como sempre, emprestou também a minha gravata borboleta.
Não sei quantos dias se passaram depois dessa data, mas em minha mente tudo aconteceu muito rápido. Só sei que acordei em uma determinada manhã e senti que em minha casa o clima não estava legal. Até que fiquei sabendo que o Menino Estranho havia se enforcado com a mangueirinha do chuveiro, em sua casa.
Os adultos tentavam me poupar de mais informações. Tentaram inclusive evitar que eu fosse ver o corpo. Mas não teve jeito. Na primeira escapadela, consegui entrar na casa do Menino Estranho. Ele estava sobre a mesa fria da cozinha, muito bem vestido, com o meu par de sapatos novos e minha gravata borboleta. E assim ele foi enterrado.




