Quais aspectos de saúde pedem mais atenção antes de engravidar?
Estudo com participação da USP e publicado na revista The Lancet propõe criação de indicadores para monitorar a saúde antes da gravidez

Um estudo internacional publicado na revista The Lancet propõe, pela primeira vez, um conjunto de indicadores que podem orientar o monitoramento da saúde das pessoas que querem engravidar. A pesquisa inovou ao combinar a visão de profissionais de saúde com a perspectiva da sociedade civil na definição desses indicadores.
Baseados na literatura, mas também no ponto de vista das pessoas em idade reprodutiva, os parâmetros propostos na pesquisa se relacionam às medidas individuais e gerais de saúde daqueles envolvidos no processo gestacional. Os indicadores que descrevem os comportamentos e as condições de saúde dos indivíduos são os mais comumente usados ou propostos para vigilância, tendo em vista a facilidade de controle e orientação por um médico.
A saúde mental, por exemplo, foi considerada o aspecto mais importante de uma gestação hipotética entre os entrevistados, apresentando unanimidade entre os rankings, segundo a professora Ana Luiza Vilela Borges, vice-diretora, professora titular da Escola de Enfermagem (EE) da USP e participante da pesquisa.
O uso de ácido fólico, aconselhado para prevenção de malformações congênitas e no fechamento do tubo neural, é um exemplo de medida de caráter individual. Ana Luiza Vilela menciona que existem outras medidas mais gerais que podem ser destinadas à população como um todo – estímulo à atividade física e rótulos nos alimentos com excesso de açúcar e gordura –, mas que também beneficiam quem pretende engravidar.
Algumas dessas medidas podem ser articuladas de maneira complementar, como ocorre no Brasil com a fortificação das farinhas com ferro e ácido fólico, atuando tanto na prevenção da anemia quanto na má formação fetal. A assistência médica, apoio emocional e social e imunização contra doenças são exemplos de ações importantes tanto para a saúde pré-concepcional quanto para a saúde da população geral.
Ao todo, mais de 5 mil pessoas nos 13 países foram consultadas para identificar quais aspectos são considerados relevantes para a saúde das pessoas antes que engravidem. A pesquisa contou com cientistas de outros 13 países e foi coordenada por Judith Stephenson, professora da University College London.
A saúde pré-concepcional envolve cuidados médicos e hábitos saudáveis adotados antes da gravidez para garantir uma gestação segura e um bebê saudável. Esse cuidado é direcionado a todos os envolvidos na gestação e, idealmente, deve ser iniciado três meses antes da concepção, o que inclui consulta médica, exames de rotina, uso de ácido fólico, entre outros. A falta de um conjunto de indicadores consensuados para acompanhar a saúde pré-concepcional dificulta tanto o monitoramento do planejamento da gravidez quanto a efetivação de políticas de saúde pública na área.
Os indicadores
Para mensurar quais indicativos mais influenciam a saúde pré-concepcional, os cientistas aplicaram uma pesquisa em 11 países, incluindo o Brasil. Analisando qualitativamente as informações, os entrevistados foram convidados a responder uma pergunta hipotética: “Imagine que está pensando em engravidar, quais seriam os aspectos mais importantes a considerar antes da gravidez?”. Em seguida, eles foram direcionados a ranquear os aspectos que acreditavam ser mais relevantes em uma eventual gravidez, sendo eles Saúde mental, Saúde física, Dinheiro, Condições de vida, Relacionamentos e família, Trabalho/educação e Mudança climática.

O formulário foi compartilhado com pessoas que nunca tiveram filhos, para aqueles que cogitam e para aqueles que possuem, todos na faixa etária entre 18 e 49 anos e sem distinção de gênero. “O que chama muita atenção, que eu considero bem interessante, é que nesses 11 países, muito diferentes entre si, o que mais apareceu em primeiro lugar foi a questão da saúde mental”, ressalta a pesquisadora.
Para os entrevistados, a saúde mental tem um papel relevante tanto para conseguir lidar com as mudanças que a gravidez acarreta quanto para o bem-estar da família, em especial da mulher. Ana Luiza também destaca que os rankings dos países são muito parecidos, de maneira a prevalecer a saúde mental sobre a saúde física.
Além disso, entre os fatores listados, as mudanças climáticas não foram priorizadas ao cogitar uma futura gravidez. “No Brasil, com alguns relatos, temos como hipótese que algumas questões parecem estar mais sob o controle do indivíduo. Eu individualmente tenho mais controle sobre a minha saúde mental e física, podendo fazer uma terapia, consultar um médico ou aumentar minha hora de lazer e diminuir minha hora de trabalho”, aponta a pesquisadora. “Parece que isso está mais sob controle individual do que as mudanças climáticas.”
As pessoas agora entendem que há várias outras dimensões que devem ser consideradas importantes em detrimento da saúde puramente física. Elas compreendem que as questões mentais podem influenciar também na sua condição física na gravidez e até mesmo dos seus filhos – Ana Luiza Vilela Borges
A Aliança Internacional de Indicadores Essenciais para a Saúde e Equidade na Pré-Concepção (iCIPHE), que inclui os autores do artigo, propõe um conjunto de parâmetros básicos para monitorar a saúde pré-concepcional nas mais diversas áreas do globo. “Ainda não existe um conjunto de indicadores consensuados para monitorar a saúde pré-concepcional, não só de mulheres, mas de todas as pessoas que podem engravidar ou ter filhos”, explica Ana Luiza.
Para isso, a lista consensuada proposta surge como alternativa de facilitar a padronização de parâmetros, com a finalidade de melhorar a qualidade da saúde pública ofertada e o conhecimento do público como um todo.
Para que o monitoramento seja eficiente, é necessário que estes indicadores sejam facilmente alimentados e comparáveis entre os países, independentemente da renda. A professora explica que alguns sistemas de informações já contemplam os critérios indicados pelo estudo. Contudo, outros não são tão simples de serem coletados e dependem de inquéritos de saúde em âmbito nacional, o que nem sempre acontece com a periodicidade necessária.
Nesse sentido, um sistema de informação consolidado poderia ser uma alternativa para manter a periodicidade das informações coletadas, unindo pesquisas já existentes no País, como a Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde da Criança e da Mulher (PNDS), inquérito que não é feito há 20 anos.
Considerar as ações de indicadores na população geral é de extrema relevância, pois nem sempre é possível preparar e acompanhar a saúde pré-concepcional dos casais. “Não podemos esquecer que cerca de metade das gestações no Brasil não são intencionais, ou seja, elas aconteceram num momento indesejado ou as pessoas não queriam engravidar de forma alguma”, afirma a pesquisadora.
Ana Luiza pontua que entre os países do estudo o Brasil está numa posição intermediária, já que possui muitos dados disponíveis, contudo alguns mais desatualizados ou incipientes. “Entendo que o Brasil, assim como muitos outros países, ainda não prioriza o cuidado pré-gravidez”, frisa. “Avançamos bastante na questão do pré-natal, ainda não suficientemente, mas a prioridade continua sendo essa mulher que engravida.”
A compreensão da relevância da saúde pré-concepcional pela comunidade é uma das barreiras que as cientistas enfrentam, pois muitas vezes esse foco não está inserido nem na formação dos profissionais nem na rotina das equipes de saúde. Assimilar a importância do tema não é necessariamente esperar que todos planejem com antecedência a gravidez, mas sim ter o conhecimento de procurar o sistema de saúde nessas situações e que o próprio serviço de saúde possa ter um olhar mais atento a esses casos.
É claro que o maior foco [dos indicadores] são as mulheres, mas quaisquer pessoas que vão estar presentes na concepção, sejam homens, pessoas transgênero, não binárias precisam também ter uma condição de saúde melhor, porque a literatura já mostrou o efeito da concepção nos desfechos obstétricos e neonatais – Ana Luiza Vilela Borges
Agora, na etapa seguinte do estudo, os pesquisadores da Aliança estão em busca do consenso entre especialistas, agentes de políticas públicas e pessoas em idade reprodutiva no geral. Para isso, um questionário está sendo aplicado com foco nos profissionais de saúde e na comunidade entre 18 a 49 anos de idade. O formulário pode ser acessado neste link.
O artigo Measuring progress in pregnancy planning and preconception health foi publicado na revista The Lancet.
Matéria: Luana Mendes | Jornal da USP




