O País importa cerca de 85% dos fertilizantes utilizados na agricultura, segundo o professor Paulo Sérgio Pavinato, da Esalq-USP – Imagem: Freepik
A combinação entre conflitos internacionais, aumento dos preços dos fertilizantes e mudanças climáticas pode trazer uma nova onda de instabilidade para o sistema alimentar global. Os impactos das guerras não se limitam aos países diretamente envolvidos e podem comprometer tanto o fornecimento de alimentos quanto o acesso aos insumos necessários para produzi-los.
Um exemplo é a guerra entre Rússia e Ucrânia. A Ucrânia é uma importante produtora de grãos, especialmente de trigo, destinado a mercados da Europa e da África. Segundo o professor Paulo Sérgio Pavinato, do Departamento de Ciência do Solo da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP, alterações na distribuição desses produtos podem afetar diretamente países que dependem dessas importações e elevar os preços para os consumidores.
No Brasil, entretanto, um dos principais impactos dos conflitos internacionais ocorre antes mesmo de o alimento chegar ao consumidor: na obtenção dos insumos utilizados pela agricultura. O País é um dos grandes produtores e exportadores agrícolas do mundo, mas depende fortemente do mercado externo para obter fertilizantes. De acordo com Pavinato, aproximadamente 85% dos fertilizantes utilizados no Brasil são importados.
Essa dependência ficou evidente durante a guerra entre Rússia e Ucrânia, em 2022, quando dificuldades logísticas e sanções internacionais contribuíram para a elevação dos preços dos fertilizantes. A situação mostra que a capacidade brasileira de produzir e exportar alimentos também está ligada às condições do mercado internacional de matérias-primas.
Dependência de matérias-primas
O problema não está apenas na importação de fertilizantes prontos. Mesmo aqueles produzidos no Brasil podem depender de matérias-primas importadas. Entre os principais gargalos está o enxofre elementar, utilizado na fabricação de ácido sulfúrico e, posteriormente, na produção de fertilizantes fosfatados.
Segundo Pavinato, o enxofre elementar é obtido principalmente durante processos de refino do petróleo. O material é utilizado para produzir ácido sulfúrico, que permite solubilizar o fosfato das rochas e fabricar fertilizantes como superfosfato simples, MAP, DAP e superfosfato triplo.
A instabilidade internacional provocou forte alta no preço dessa matéria-prima. De acordo com o professor, o enxofre, que anteriormente custava entre US$ 120 e US$ 180 por tonelada, passou a superar US$ 1.100 por tonelada. O aumento encarece a fabricação dos fertilizantes fosfatados e cria dificuldades para a indústria nacional.
Ele cita como exemplo a situação da Mosaic, uma das principais produtoras de fertilizantes do País. Segundo Pavinato, algumas unidades da empresa já teriam sido colocadas em situação de hibernação, e a unidade de Uberaba poderá passar pelo mesmo processo caso não haja uma mudança no mercado do enxofre.
O aumento dos custos dos fertilizantes pode chegar também aos preços dos alimentos. Isso acontece porque o fertilizante é um dos principais insumos utilizados para garantir a produtividade das lavouras. Se o produtor precisa pagar mais pelos insumos, o custo de produção aumenta e pode haver impactos ao longo de toda a cadeia.
Busca por menor dependência externa
Para tentar reduzir essa vulnerabilidade, o Brasil lançou, em 2022, o Plano Nacional de Fertilizantes. A iniciativa estabelece, como uma de suas metas, reduzir a dependência externa para 50% até 2050, ampliando a produção nacional.
Existem projetos para aumentar a fabricação de fertilizantes nitrogenados, fosfatados e potássicos. No caso dos nitrogenados, a produção depende principalmente de fontes de energia, como o gás natural. Já a expansão dos fertilizantes fosfatados enfrenta limitações relacionadas à disponibilidade de rochas fosfatadas de alta qualidade no território nacional.
Atualmente, segundo o especialista, o Brasil produz aproximadamente 35% dos fertilizantes fosfatados que utiliza, enquanto o restante é obtido no exterior. Entre os fornecedores internacionais estão países como Marrocos e Arábia Saudita, o que mantém o País exposto a instabilidades geopolíticas e logísticas.
Também existem projetos para ampliar a produção de potássio no Brasil. O professor cita um empreendimento na região amazônica que poderia aumentar significativamente a oferta nacional, mas que enfrenta questões relacionadas ao licenciamento e aos impactos ambientais. Mesmo que os projetos avancem, a produção nacional não seria suficiente para eliminar completamente a dependência externa.
Para Pavinato, isso significa que a autossuficiência total em fertilizantes não é uma perspectiva realista diante das características da agricultura brasileira e das reservas nacionais de algumas matérias-primas. Ao mesmo tempo, aumentar a produção interna poderia tornar o País menos vulnerável às oscilações do mercado internacional.
A preocupação se soma aos efeitos das mudanças climáticas. Eventos climáticos extremos podem afetar tanto a produtividade das lavouras quanto a disponibilidade de água e as condições de produção. Assim, conflitos internacionais, problemas logísticos, aumento dos custos dos insumos e alterações no clima passam a atuar simultaneamente sobre uma mesma cadeia.
O cenário mostra que a segurança alimentar não depende apenas da quantidade de alimentos produzidos. Ela também está relacionada à capacidade de garantir, de forma contínua, os insumos necessários para que essa produção aconteça. Para um país com uma agricultura de grande escala como o Brasil, a dependência de matérias-primas importadas cria um ponto de vulnerabilidade que pode se tornar ainda mais evidente em períodos de instabilidade internacional.
Fonte: Jornal da USP





