Haitianos entre fronteiras, recomeços e ações solidárias
Agravamento da crise no Haiti intensifica fluxo migratório; associações apoiam recém-chegados

Quando 120 haitianos ficaram retidos por mais de dois dias no Aeroporto Internacional de Viracopos, em Campinas, em março deste ano, o doutorando do Instituto de Geociências (IG) Guerby Saintè recebeu um telefonema pedindo ajuda. A maior parte do grupo havia desembarcado no Brasil com documentação irregular e permanecia confinada em uma área do aeroporto, à espera de análise das autoridades migratórias.
“Eles falavam: ‘chegamos aqui e parece que estamos presos’”, relata o pesquisador haitiano, que passou horas em Viracopos atuando como intérprete e articulador junto à Defensoria Pública e a órgãos de imigração. “Muitos estavam assustados, sem entender direito o que estava acontecendo.”
A cena sintetiza uma realidade que se tornou recorrente nos últimos anos: a intensificação do fluxo migratório de haitianos ao Brasil em busca de segurança, trabalho e estabilidade diante do agravamento da crise no Haiti. O Ministério das Relações Exteriores estima que, no Brasil, a comunidade haitiana é de cerca de 200 mil pessoas. Segundo o Itamaraty, entre 1º de janeiro e 9 de abril de 2026, foram emitidos 9.575 vistos para haitianos, entre humanitários e de reunião familiar.
As redes de acolhimento organizadas pelos próprios imigrantes se tornaram fundamentais para receber os recém-chegados. Guerby e outros colegas haitianos criaram, em 2024, a Associação de Integração Social e Cultural (AISC), que reúne atualmente nove membros na comissão organizadora e está em fase final de legalização. Embora ainda não tenha vínculo institucional formal com a Unicamp, conta com a participação de estudantes e pesquisadores da Universidade e pretende ampliar parcerias com áreas ligadas aos direitos humanos e à extensão universitária.

A associação oferece apoio para regularização documental, emissão de CPF, orientação junto à Polícia Federal (PF), encaminhamento profissional e cursos gratuitos de português para estrangeiros. As aulas, ministradas de forma voluntária, atendem atualmente mais de 30 pessoas. “Muita gente chega aqui sem falar a língua e isso dificulta tudo: conseguir trabalho, entender documentos, se localizar”, explica Guerby. “Criamos um curso básico de português para ajudar na inserção dessas pessoas. Passamos por isso quando chegamos, então sabemos a dificuldade que é desembarcar em outro país sem falar a língua, sem entender os documentos e sem saber para onde ir.”
Além das ações de acolhimento, a associação também pretende ampliar os espaços de debate sobre a realidade haitiana. No domingo (17 de maio), a AISC realizará, em Barão Geraldo, a Festa da Bandeira Haitiana, data simbólica para a comunidade do país caribenho, celebrada todo dia 18 de maio. O evento reunirá pesquisadores haitianos para discutir identidade, migração, saúde mental e os impactos sociais da crise humanitária no país. A programação inclui ainda apresentações culturais de música e dança haitianas.
Só ‘bom dia’
A trajetória de Guerby se cruza com a própria história recente do acolhimento de haitianos na Unicamp. Ele chegou ao Brasil em 2011, inicialmente como intercambista em um programa apoiado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), criado após o terremoto que devastou o Haiti em 2010. Na época, falava apenas algumas palavras em português. “Sabia só ‘bom dia’”, lembra, sorrindo. “Cheguei sozinho, mas junto de um grupo grande de haitianos que também vieram estudar.”

Na Unicamp, cursou bacharelado e licenciatura em Geografia, concluiu o mestrado e atualmente desenvolve doutorado no Laboratório de Geografia dos Riscos e Resiliência (Geoplan). Sua pesquisa investiga vulnerabilidade territorial, urbanização e soberania no Haiti, analisando os impactos das intervenções internacionais e das desigualdades históricas.
Ao longo dos anos, muitos dos estudantes haitianos que chegaram à Universidade seguiram trajetórias semelhantes. Alguns tornaram-se pesquisadores e professores universitários; outros migraram para diferentes regiões do Brasil ou para outros países. Hoje, segundo Guerby, oito haitianos seguem vinculados à Unicamp entre estudantes e pesquisadores.
Primeiro país negro independente das Américas, o Haiti, com população estimada em 12 milhões de habitantes, enfrenta há décadas crises políticas, instabilidade institucional, desastres naturais e sucessivas intervenções internacionais. Nos últimos anos, o avanço de grupos armados sobre Porto Príncipe agravou ainda mais a situação. “Hoje vivemos em um território praticamente controlado por gangues”, afirma o pesquisador. “Grande parte da capital está ocupada, as pessoas têm dificuldade para circular, trabalhar e frequentar a escola. Muita gente sai porque sente que a própria vida está ameaçada.”
A questão do Haiti está presente na sua produção acadêmica. Em artigo publicado na revista GeoUSP, da Universidade de São Paulo (USP), o pesquisador argumenta que o país se tornou um exemplo das limitações enfrentadas por Estados vulneráveis diante das grandes potências internacionais e das sucessivas intervenções externas. Segundo Guerby, a Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (Minustah), encerrada em 2017 após 13 anos de atuação, não conseguiu resolver os problemas estruturais do país.

“A soberania não existe na prática”, afirma. “O Haiti segue com os mesmos problemas que existiam antes das intervenções, com novas marcas no espaço e na busca incessante da soberania e do controle de seu próprio território e sua população.”
Guerby acompanha de longe e com apreensão a situação da família que permaneceu no Haiti. Os pais morreram, mas os irmãos continuam lá. Voltar tornou-se cada vez mais difícil, tanto pelas restrições migratórias quanto pelo agravamento da violência. “Ninguém deixa seu país sem motivo.”
Acolhimento humanitário x obstáculos
O antropólogo Omar Ribeiro Thomaz, professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), esteve no Haiti em diversas ocasiões entre o fim dos anos 1990 e 2014, desenvolvendo pesquisas sobre pobreza, violência, desigualdade e organização social.
Em sua avaliação, o ocorrido em Viracopos não foi um mero episódio de irregularidade, e sim resultado de uma política que, ao mesmo tempo em que anuncia acolhimento humanitário, impõe obstáculos quase intransponíveis a quem tenta chegar legalmente ao Brasil, com dificuldade de acesso a vistos humanitários e ausência de políticas mais efetivas de acolhimento. “O Brasil diz que facilita, mas na prática dificulta. Existe uma burocracia enorme para obtenção de vistos e regularização”, diz.

O professor destaca que a experiência construída pela Unicamp após o terremoto de 2010 tornou-se uma das iniciativas mais bem-sucedidas de acolhimento acadêmico no país, em 2011. “Recebemos 48 estudantes haitianos em situação de grande vulnerabilidade social, e 47 concluíram a graduação. Muitos seguiram para o mestrado e doutorado”, ressalta.
Segundo Thomaz, a iniciativa só foi possível graças à mobilização de diferentes setores da Unicamp. Ele cita o apoio do então pró-reitor de Graduação, Marcelo Knobel, e das professoras Eliana Amaral e Silvia Santiago, da Faculdade de Ciências Médicas (FCM), além do envolvimento de docentes e funcionários de várias unidades. “Sem essa articulação institucional, não teria sido possível receber e acompanhar esses estudantes”, diz.
De acordo com o professor, o acolhimento envolveu desde cursos intensivos de português até apoio acadêmico e auxílio para adaptação à vida no Brasil. “Foi um trabalho difícil, mas mostrou que é possível construir políticas concretas de internacionalização e acolhimento”, diz. O professor destaca, porém, que experiências desse tipo ainda permanecem isoladas no Brasil.
Thomaz chama a atenção para o potencial pouco aproveitado dos haitianos que vivem hoje no Brasil. Segundo ele, muitos chegam com formação técnica ou universitária, mas encontram barreiras para validar diplomas e exercer suas profissões. “São pessoas qualificadas, com experiência, que poderiam contribuir muito mais. O Brasil desperdiça conhecimento e mão de obra ao dificultar processos de reconhecimento profissional.”
“Você não ouve falar de criminalidade haitiana ou de redes ligadas ao crime. É uma comunidade extremamente trabalhadora, organizada e comprometida com a própria sobrevivência coletiva”, completa.
Apesar da gravidade da crise na capital, Porto Príncipe, Thomaz ressalta que outras regiões do Haiti continuam funcionando de maneira precária, mas ativa, sustentadas principalmente pelo mundo rural e pelas redes familiares da diáspora haitiana espalhada pelo mundo. “O Haiti segue funcionando porque existe uma enorme capacidade de organização e sobrevivência da própria população”, afirma.
Segundo Thomaz, o enfraquecimento do interesse internacional sobre o Haiti contribui para o isolamento do país. “As tragédias internacionais acabam deixando de mobilizar atenção, mesmo quando o sofrimento continua acontecendo”, diz.
O professor defende que o Brasil avance em políticas mais efetivas de acolhimento, integração profissional e cooperação internacional voltadas ao Haiti. Para ele, a reconstrução do país não passa por grandes intervenções militares, mas pelo fortalecimento gradual de instituições locais, educação e serviços públicos. “A solução não virá do espetáculo ou de grandes operações. Ela passa por reconstrução institucional, formação de pessoas, fortalecimento da saúde, da educação e da própria capacidade de organização da sociedade haitiana”, ressalta.
Matéria: Daniela Prandi | Fotos: Antoninho Perri | Jornal da Unicamp



