Publicado originalmente em Viletim, edição impressa, número 12, abril de 2002
Toma que o filho é teu
Mário estava no primário. Tinham acabado as aulas e ele voltava para a casa, morto de fome. De repente, encontrou o Dinir, um rapaz magricelo que gostava de uma briga. Nessa manhã, Dinir resolveu desafiar Mário para se vingar do fato de ter perdido todas as suas bolinhas de gude na tarde anterior, em partidas incansáveis que disputávamos no quintal da minha casa. Como Mário era um molenga e não sabia brigar, Dinir achou que ia levar vantagem. Quando partiu para cima do ex-colega, agredindo-o com socos e pontapés, Mário não teve dúvida de que deveria tomar uma providência. Meio sem jeito, deu um murro na nuca do rapaz que caiu duro no chão, desmaiado. Nervoso e sem saber direito o que tinha acontecido, Mário carregou Dinir no colo e levou-o à sua casa. Depois de alguns gritos, sua mãe apareceu no portão e Mário disse a ela:
“Olha, dona, cuide desse rapaz, porque ele estava dormindo lá na frente da escola. Fiquei com dó e resolvi trazê-lo pra casa. Da próxima vez ele não vai ter esse boi não.”
E entregou à mãe o menino desmaiado.
Um presente para o Luizinho
Luizinho era um rapaz meio lelé da cuca, meio fora do cabo. Apesar de sua família saber disso, pouco ou nada se podia fazer, porque, afinal de contas, eram pobres e o rapaz, inofensivo. Só precisava ser vigiado para não fazer nenhuma besteira. Mas uma vez dona Rosa se distraiu e o menino foi fazer seu passeio sozinho pelo bairro. No meio do caminho ele achou uma lata, dessas grandes de biscoito, embrulhada para presente, encostada em um poste, na calçada. Não teve dúvida de que o presente era para ele. Pegou com muito carinho a lata e levou para sua casa. Chegando em seu quarto, não falou nada para ninguém e guardou o presente embaixo da sua cama. Até que, no dia seguinte, dona Rosa percebeu que a casa estava com um cheiro diferente. Não sabia o porquê, uma vez que a faxina ali era diária. Limpa que limpa a casa e nada de descobrir de onde vinha o cheiro de merda que estava tomando conta de tudo. Até que ela resolveu dar uma geral no quarto de Luizinho e acabou achando aquele pacote esquisito. Não teve dúvida de que havia algo de errado naquilo. Na batata. Desembrulhou o presente, abriu a tampa da lata, que estava até a boca de bosta.
O roubo dos filhotes
João “tava puto da vida” por ter sido roubado por duas vezes em seguida. Na primeira vez, tinha acabado de lavar seu único par de tênis e colocado sobre o muro para secar. Foi só se distrair, quando voltou, não tinha mais nem sinal de tênis.
Da outra vez foi um par de chinelos e nas mesmas condições. Ele tinha se esquecido de que a onda de assalto estava brava ali no bairro. Um certo dia sua cachorra deu cria. Nasceu mais de meia dúzia de cachorrinhos. Só que dois deles não vingaram. Depois de pensar um pouco como daria fim aos natimortos, lembrou-se do roubo do tênis e dos chinelos e resolveu embrulhar os dois cachorrinhos com papel de presente e colocou-os sobre o mesmo muro. Não deu outra. Foi só virar as costas e levaram os dois cachorrinhos mortos.
Na marmita
Essa o Zé Elias se lembra. A nossa turma tinha uma mania de sair pela rua chutando tudo que encontrava na frente. Pedra, tampinha de garrafa, até saco de lixo jogado na calçada acabava virando bola em nossas brincadeiras.
Um dia Zé Perecin levou a pior. Estávamos próximo de um ponto de ônibus, onde um homem bravo aguardava a chegada do “cata-corno”, como dizia o Lau, personagem folclórica do nosso bairro. Louco de pedra, Perecin deu um bicudo em um embrulho que estava próximo do pé do homem.
Foi um “forfé”, porque aquele embrulho era a marmita daquele digníssimo cidadão, que estava indo para o trabalho. Voou ovo frito pra tudo quanto é lado.
No olho da rua
Um mendigo ficava no centro da cidade. Dona Maria, sempre dava esmola àquele pobre homem, mas nunca teve tempo suficiente para ler a mensagem, escrita em letras miudinhas, que estava escrita na tabuleta que ele trazia consigo.
Até que um dia ela resolveu saber o que aquele homem tinha para dizer ao mundo. Levou um choque ao ler o seguinte despautério: “vá tomar no c...”.
Morreu de bode
O rapaz não conhecia direito os segredos dos morros cariocas. Um dia resolveu soltar sua pipa em um terreno baldio. De repente, um bode aparece correndo em sua direção. Desesperado, sem ter muito o que fazer, saiu correndo do bicho. Sua sorte foi ter encontrado logo adiante uma muretinha para se esconder. Seu azar foi não saber que do outro lado havia um abismo.




