Homem, um ser maleável e ajustável externamente
Dos gregos ao cidadão moderno, na leitura de Leo Strauss
Tenho apresentado aqui como entendo as mudanças da filosofia política ocorrida ao longo do tempo, segundo o pensador Leo Strauss.
Sua análise parte do pensamento grego, em que o homem é o responsável pela formação dos seus valores, em busca do sumo bem.
O bem comum é, portanto, uma responsabilidade humana e individual, que repercute no bem coletivo, seguindo a premissa de que a sociedade é o homem com H maiúsculo.
Com essa visão, Platão elaborou quase toda sua obra filosófica e política, dando a devida dimensão da dialética socrática, ensinada em praça pública.
Todo homem, para Sócrates, era capaz de diferenciar o bem do mal, bem como era capaz de chegar à verdade por si próprio, apenas utilizando-se da dialética, uma vez que a verdade estava na alma de cada um.
Um mergulho em si mesmo era o suficiente para alcançar a essência que levaria ao entendimento das relações humanas e o que poderia ou não ser feito em prol de uma sociedade ideal.
O cristianismo segue esses princípios, em ampla medida.
Mas o embrião das mudanças dessa base moral estava nas ruas de Atenas, na lábia dos sofistas, que buscavam soluções diversas, de interesses diversos, apenas com a retórica, sem o lastro do sumo bem.
Sócrates era o contraponto aos retóricos, apesar de ser considerado também por alguns como um sofista. Tanto é que Platão teve que considerar a existência de sofistas e sofistas, de retóricos e retóricos, a depender da capacidade lógica de cada um e do propósito em direção ao bem maior: a verdade.
Parmênides e Heráclito foram resgatados por Platão dentre os sofistas e retóricos para fundamentar sua tese sobre o logos e o mecanismo humano para se chegar à verdade. Sócrates foi seu professor.
Para dar um salto temporal, Leo Strauss aponta Maquiavel como o avesso do pensador grego, uma vez que ele vê a formação do homem moral como um processo maleável, não mais absoluto, como os gregos.
A virtude, para o italiano, seria uma construção de homens sem virtudes, algo impensável, segundo ele, seguindo os parâmetros gregos. Ele supunha que o homem primitivo não era virtuoso.
Sendo assim, a virtude poderia ser um ajuste de conduta do coletivo segundo os interesses do príncipe, de operar o controle social. Seria uma virtude imposta e sem uma referência absoluta. O comportamento coletivo seria, portanto, uma submissão dos integrantes da sociedade ao grande líder por algum interesse coletivo.
A tese de Maquiavel é repensada pelos ingleses e Thomas Hobbes (1588–1679) concluiu que o homem se comporta como tal devido ao medo da morte, que o coloca na condição de submisso ao estado, que lhe dá alguma segurança para a vida.
Esta segurança para a vida passa ainda por uma nova janela de interpretação nas mãos de John Locke (1632–1704) e ganha o sentido de direito à propriedade. O direito à propriedade dá a segurança que o homem precisa para o desenvolvimento de sua vida.
Aos poucos, o homem e sua essência moral perdem o sentido, tornando-se um joguete de interesses nas mãos dos grandes líderes, ou preso a processos que lhe garantam a terra e o que mais construir sobre ela, gerando sua própria riqueza e a riqueza da sociedade.
Outra camada interpretativa, para tirar completamente o homem de sua essência moral, vem de Rousseau, que vê o pacto civil ou contrato social como uma espécie de aprisionamento do bom selvagem, idealizado como sendo o homem puro, se entregue à natureza. E esse homem se torna vítima da sociedade.
O resultado é que o homem foi perdendo sua essência humana e ganhando uma essência jurídica, como se ele não respondesse mais pelos seus atos. E nem tivesse mais que apresentar provas sobre seus próprios crimes. Um homem sem responsabilidade moral.
Chegamos assim ao homem moderno, um ser superficial e sem alma, com valores adaptados artificialmente conforme as conveniências. Ajustado, muitas vezes, externamente, por movimentos ideológicos, que podem fazer dele um revolucionário ou um conservador, sem ele precisar desenvolver sua essência moral, já bem longe da sua compreensão, mas tão perto dos seus sentimentos.



