Análise contesta consenso e propõe duas espécies humanas convivendo em Dmanisi
Pesquisa sugere nova classificação de espécie para fóssil de sítio europeu usando morfologia dentária; proposta tem implicações que remontam à saída do homem da África

Cientistas brasileiros propõem uma solução para a controvérsia dos fósseis de Dmanisi, o registro mais antigo da linhagem humana fora da África. Embora apresentem uma grande variabilidade morfológica, o conjunto de crânios foi classificado pela comunidade internacional como um tipo primitivo de Homo erectus – espécie com proporções corporais semelhantes às dos humanos modernos. O novo estudo, porém, sugere que essas variações não seriam simples diferenças entre machos e fêmeas, mas um indício de diferentes espécies convivendo no mesmo local.
O trabalho, publicado na revista PLOS One, investigou dados sobre a área visível do dente de mais de 500 hominínios fósseis de diferentes ancestrais humanos – desde espécies mais antigas, como os Australopithecus (“primos” de Lucy), até neandertais. Os resultados foram comparados com as medições dentárias do homem de Dmanisi, de aproximadamente 1,8 milhão de anos, encontrado no sítio arqueológico mais antigo da Europa, na atual República da Geórgia.
Para os pesquisadores da USP e da Ohio State University (EUA), que assinam o artigo, as evidências dentárias apoiam a teoria de que no sítio europeu havia não apenas uma, mas duas espécies do gênero Homo convivendo: Homo georgicus e o Homo caucasi – este último, uma concepção inédita do grupo para categorizar três dos cinco indivíduos encontrados em Dmanisi.
“Nós vamos derrubar a ideia de que seja uma espécie só. Esses indivíduos, que nós classificamos como Homo caucasi, estamos propondo que se trata de uma espécie intermediária entre Homo habilis e Homo erectus”, afirma o paleoantropólogo Walter Neves, coordenador do Núcleo de Pesquisa e Disseminação em Evolução Humana do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP e coautor do estudo.
A nova proposta tem implicações que remontam à dispersão dos ancestrais humanos para além do continente africano e reforça hipóteses já propostas por Neves em 2011 e 2024. “Ou seja, quem teria saído da África seria o Homo habilis. Quando ele chegou ao Cáucaso, começou a se diferenciar, mas ainda não é Homo erectus, ainda é uma forma de transição”, explica à reportagem.
Em 2019, um grupo de pesquisa liderado por Neves já havia descoberto centenas de ferramentas pré-históricas de pedra lascada, com 1,9 milhão a 2,5 milhões de anos de idade, que acreditam ter sido produzidas por mãos humanas – no caso, por Homo habilis. A escavação ocorreu no vale do rio Zarqa, na Jordânia, próximo à capital Amã. Na ocasião, Neves afirmou que a descoberta “retroagiu” a saída do homem da África em 500 mil anos.

O robusto e os pequenos
O sítio de Dmanisi é único no mundo por ter preservado cinco crânios no mesmo estrato geológico. Um dos cinco indivíduos foi encontrado sem os dentes, mas sobreviveu até a velhice, o que pode indicar que ele viveu apoiado pelos cuidados de uma comunidade. “Você não tem nenhuma outra coisa igual na paleontologia humana”, aponta Neves. No entanto, algumas características dos crânios e dos dentes são muito diferentes entre os fósseis.
Para testar a hipótese da espécie intermediária, os pesquisadores usaram dimensões mesiodistal (MD) e bucolingual (BL) dos dentes pós-caninos (pré-molares e molares) de apenas três dos cinco indivíduos de Dmanisi, já que um era velho demais, e o outro, jovem demais. Foram consideradas, então, a largura dos dentes da frente para trás (MD) e a largura dos dentes da bochecha para a língua (BL). Esses valores foram multiplicados para se obter o tamanho total do dente; ou seja, a área da coroa dental. De acordo com os pesquisadores, não foram utilizadas medidas da altura do dente, a principal área de desgastes causados pela dieta, pela idade e por atrito entre os próprios dentes. O estudo também não calculou a idade dos indivíduos analisados.
Posteriormente, uma análise estatística foi formulada calculando funções discriminantes para os 583 dentes de diferentes espécimes. As análises mostraram uma forte associação do espécime D4500-D2600 com o Australopithecus africanus (78,6%), uma vez que o indivíduo tinha terceiros molares (dentes do siso) particularmente grandes e diferentes dos demais indivíduos.
“O 4500 é estranho, é robusto. Está completamente fora do nosso gênero Homo, mas o registro fóssil mostra que ele conviveu com os outros dois espécimes D2282-D211 e D2700-D2735”, detalha Victor Nery, mestrando do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP e primeiro autor do artigo. Nery também integra o Núcleo de Pesquisa e Disseminação em Evolução Humana do IEA.
Em um grupo distinto do 4500 estavam estes outros dois indivíduos, D2282-D211 e D2700-D2735, espécimes bem menores. De acordo com a análise estatística, eles pareciam ser espécies primitivas de Homo, com 83,4% e 59% de confiança, respectivamente. Os resultados apontam que eles poderiam ser agrupados em Homo habilis e até mesmo Homo sapiens.
As proporções também foram comparadas com as de chimpanzés e gorilas – alguns de nossos parentes vivos mais próximos – para testar a hipótese do dimorfismo sexual. As análises do grupo mostraram que os espécimes de Dmanisi estavam dentro da faixa observada nesses grandes símios, indicando que ambos estariam próximos. No entanto, essa proximidade só seria confirmada se ambas as espécies tivessem o mesmo tamanho. “A diferença dos dentes é grande, próxima a essas diferenças entre grandes primatas, e isso poderia indicar que é uma diferença só entre sexos. Mas não temos como saber olhando apenas para crânios e mandíbulas”, diz Nery. Ainda assim, o pesquisador lembra que para serem categorizados como H. erectus, esses indivíduos deveriam apresentar muito menos dimorfismo sexual do que os gorilas.
“Eu acho que esse estudo é uma grande reiteração. Uma reiteração robusta de evidências que já vinham dos crânios, mas a combinação das métricas dentárias, de um grande banco de dados e das estatísticas dá força para a afirmação de que são espécies diferentes” – Victor Nery

Sem fósseis em mãos, com dados na tela
A pesquisa teve início há três anos com uma base de dados craniométricos e de métricas dentárias de hominínios fósseis, criada pelos próprios pesquisadores. O banco de dados vem sendo alimentado com informações que datam do final do século 19, desde as primeiras pesquisas em paleoantropologia. Segundo Neves, um verdadeiro “trabalho de escavação na literatura”, que precisou passar por um processo de análise e compatibilização das informações.
“Felizmente, isso está bem definido desde o século 19; todo mundo mede igual. Mas em 1973, o William Howells propôs um novo standard de medidas, então deu um trabalho imenso fazer esse pareamento”, conta Neves. “Eu e a Letícia [coautora] tivemos um supertrabalho na primeira etapa, olhando dado por dado, corrigindo dado por dado, vendo que um autor publicou em centímetro, o outro, em milímetro e adequar as unidades de medida”, relata Nery.
Outro desafio foi superar possíveis variações ou falta de concordância entre dados obtidos por dois ou mais especialistas – o chamado erro interobservador -, uma vez que o banco compilou dados de 22 publicações diferentes. Este efeito não foi quantificado pelo trabalho, mas os pesquisadores argumentam que as diferenças encontradas entre os gêneros acabam por minimizar eventuais problemas de medição e amostragem – uma aposta no princípio da parcimônia. “A gente não tem dados genéticos, moleculares e imagéticos como temos de métricas. São 50 anos de história de métricas cranianas”, defende Nery.
Para Walter Neves, a criação do banco de dados foi uma virada de jogo, uma vez que jamais conseguiriam fazer as próprias medições em cada fóssil estudado. “Porque os caras vão dizer: ‘Mas quem é esse ilustre desconhecido aqui?’. Justamente por falta de tradição, se eu pedir licença para estudar o material na Etiópia, por exemplo, eu não vou ter nunca essa possibilidade.”
O grupo deve continuar trabalhando no novo banco de dados, dedicando-se também às métricas mandibulares de hominínios fósseis que possam dar à luz novas interpretações sobre a diversidade humana.
O artigo Testing the taxonomy of Dmanisi hominin fossils through dental crown area está disponível on-line e pode ser lido aqui.
Matéria: Tabita Said | Jornal da USP





