O celular é um aparelho muito complicado.
Mesmo quando é de modelo mais simples.
Tiro esta frase como um resumo de várias reclamações de clientes, senhoras da “melhor idade” com as quais viajei por quase dez anos, em excursões culturais que eu organizava. Muitas vezes, durante a viagem, elas me pediram socorro para resolver problemas dos mais cabeludos em seus aparelhos: da simples tela totalmente escura (bateria descarregada) até ícones 500% maiores, o que impossibilitava a navegação (esse foi mais difícil, era um iphone, cujo sistema não conheço, e tive que recorrer à ajuda das outras passageiras, que abriram vídeos no Youtube para me orientar).
Eu gosto quando a Inteligência Artificial alucina, como nesta imagem. Crédito: Me, myself and Microsoft Designer Image Creator.
Mas esses são problemas que podem acontecer com qualquer um. Muitas dessas pessoas, e outras ainda, têm dificuldades com o que chamaríamos de “letramento digital”: não sabem como funciona o aparelho, onde têm que clicar para alternar entre telas, onde clicam para achar um arquivo que baixaram, como acessam o vídeo legal que viram ontem, que foi enviado pelo Whatsapp mas que abriu no Youtube.
Mas isso não é tudo…
Piora quando se trata de compras, vendas, pagamentos. Falou em dinheiro, bate um pânico instintivo. Algumas pessoas são bem honestas quanto às suas limitações e decidiram que não irão, jamais, usar nem cartão de crédito, nem Pix, nem no celular, nem no computador. Pagamentos só no banco ou pessoalmente.
Peço paciência a Deus para me colocar no lugar dessas gentis senhoras. Pois imagine só, alguém que penou durante anos para aprender como funciona o Windows, suas janelas, bolinhas, quadrados e xizes (x), como fazer para deletar um arquivo, copiar e colar, abrir um programa para fazer uma simples carta e o catatau a quatro. Depois, tudo isso muda no aparelhinho que, dizem, é muito mais moderno e possuidor de milhões de recursos adicionais.
E os pagamentos, então? Peço mais paciência, acabo compreendendo. É muito normal eu ir ao banco e ter um funcionário por lá incumbido somente de ajudar as pessoas a operarem o caixa eletrônico. Que não é só uma ajuda, é todo o processo, do começo ao fim, feito pelo funcionário.
Imaginem o que é a Inteligência Artificial para essa turma. Representa todos os pesadelos com os quais foram educados desde a década de 1950: Cérebros Eletrônicos escravizando as pessoas. Computadores escravizando mulheres e inseminando espermatozóides eletrônicos nelas, gerando bebês meio humanos, meio máquinas (o filme é “Geração Proteus”, de 1977). O terror, o terror.
Julie Christie em “Geração Proteus” (Demon Seed), filme que me aterrorizava na Sessão Coruja. E lá era hora de criança estar acordada?
Eu não me vejo como um analfabeto digital, já programei websites e me viro razoavelmente bem na internet. Não sou um nativo digital dos smartphones, porém: sou daquela geração que ainda se lembra vagamente como era a vida sem celulares, notebooks, SmarTVs e caixas eletrônicos.
Antigamente, nada era smart, tudo era dumbie. Ou seja, nenhum aparelho era metidinho a esperto, eram todos burrinhos mesmo. Qualquer geladeira que tivesse alguma função automática já era vista como um avanço, nada diferente dos discos movidos a raio laser (os CDs, quiá quiá quiá).
No entanto, sou um pouco mais avançadinho que minhas queridas passageiras, sou bicho dos computadores de mesa, os desktops, onde venho batucando nas teclas e fazendo das minhas (tudo lícito, tá, gente) desde a década de 1990.
Por isso mesmo, às vezes engripo com a lógica do meu Android. Que em vários momentos é tão ilógica quanto o Windows Vista. Você simplesmente aprende como faz, indo contra toda a orientação da educação moderna, que é contra a decoreba, e decora como fazer a operação.
Uma das leis de Murphy, escritas no Universo especialmente para computadores, continua valendo para os celulares: “Quando você mais precisar fazer algo no seu aparelho, menos os tutoriais irão te ajudar”. E o complemento, que considero ainda mais importante “Um mês depois, quando não for mais necessário, seu filho de um ano fará acidentalmente o que você precisava, ao apertar um monte de teclas a esmo”.
Acho muito engraçado quando vejo pessoas defendendo que os smartphones são “intuitivos”. Eles querem dizer com isso que qualquer um aprende a usá-los, de forma muito veloz, é a tal de “curva de aprendizado”.
Fácil para o meu filho de dois anos, para mim não. O iphone foi projetado para um pirralho que ainda não sabe ler. Eu sei ler, muito bem, aliás, e arrogantemente berro para a tela touchscreen do meu Xiaoling: “eu já li Shakespeare, seu energúmeno”. Não adianta, ele só entende chinês. Deve preferir Confúcio, sei lá.
Eu acabo conseguindo, mas eu peno. Meu pai com setenta e sete anos já desistiu há uns dez. Ele verdadeiramente é sábio, conhece suas próprias limitações, convive com elas e é feliz.
Fácil mesmo era usar o despertador de corda.
Tipo este.





