Rir é um ato espontâneo. Se você acha algo engraçado, é porque esse riso veio do fundo da sua barriga, do seu estômago, e diriam alguns, do fundo da alma.
O reconhecimento imediato de algo surpreendente nos choca, nos pega de surpresa. E nossa reação pode ser o medo ou o riso.
Reconhecer algo depois de longa meditação, reflexão ou pensamento pode até gerar riso. Mas você me entende quando digo que rir da miséria humana é diferente, em vários graus, de dar risada de um palhaço escorregando numa casca de banana.
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O riso em sua face, talvez, mais “raiz”, é o riso espontâneo das crianças, a quem tudo surpreende, pois tudo se lhes apresenta pela primeiríssima vez.
Outra forma de riso, de quem nós, adultos, cidadãos respeitáveis com um lugar na sociedade, responsáveis pagadores de impostos e contribuidores da construção da nação brasileira, nos permitimos rir algumas vezes, é o das pessoas à margem, que estão ferrados, não tem como pagar as contas, não têm um emprego. às vezes são criminosos. Contraventores, sempre são, pois sempre estão burlando alguma regra, por pura ignorância. Como não estudaram nem leram grandes livros, desconhecem a filosofia, arte, ciência e religião, e por isso, suas explicações sobre as pessoas e o mundo nos causam riso, especialmente quando zombam de si mesmas.
A figura do palhaço, no mundo inteiro, é uma síntese dessas duas figuras, a da criança, e a do miserável, ambos pobres, ingênuos e ignorantes das coisas desse mundo e do outro.
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Rir pode ser uma benção, pelo alívio que causa. Mas também pode ser uma maldição, se a pessoa de quem riem é você.
“Levar na esportiva” pode ser uma saída para não ficar mal na frente dos amigos, mas internamente, não tem jeito: fica sempre uma sensação de ser diminuído.
Pois um dos pressupostos mais antigos do humor é este: é engraçado rir da desgraça do outro. Desde a pessoa que escorrega na casca de banana, passando pela videocassetada, que, quando a vemos, não nos perguntamos se a pessoa se machucou ou não, até o riso de puro escárnio de quem “sente prazer em ver os outros se ferrando”, o melhor lugar desde sempre é o de quem ri, e não o de quem é o alvo da piada.
É por isso também que nos causa riso o grotesco, o feio, o desordenado, o confuso. Por essa razão, as caricaturas são engraçadas, pois deformam o que normalmente se quer mostrar como mais perfeito possível. Veja a caricatura de mulheres bonitas, como …, ou de políticos que se pretendem salvadores da pátria: a caricatura revela que são seres humanos com defeitos como nós.
Quando o miserável percebeu que causar riso podia lhe garantir a pena e esmolas de quem dele ria, garantindo-lhe o sustento, nasceu o primeiro palhaço ou a primeira palhaça, pai ou mãe de todos os humoristas, comediantes e stand up comedies de todo os tempos.
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O problema do palhaço é que, quando ele quer variar a piada, estendendo mais o show. Nesse ponto ele começa a apontar para outros além dele. (Problema para os outros, e não para ele, nem para quem ri, claro.)
E aí começam problemas verdadeiros. Pode haver quem não goste da brincadeira. Não consegue rir junto, pois tem muito a perder, principalmente sua dignidade. Ser alvo de zombaria dos outros não é pra todo mundo.
Quando a troça chega a essas pessoas, o palhaço pode ser perseguido, ameaçado, preso e até morto por quem detém o poder de silenciar o riso.
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O ódio ao bom humor, às piadas, ao que é engraçado e pode causar risos, não distingue ideologias políticas, nem posicionamentos existenciais, nem religiosos. Humoristas foram perseguidos por poderosos de esquerda ou de direita em todo o mundo, em todas as épocas.
Ao contrário do que pensam os esquerdistas brasileiros, que acreditam que só houve perseguição a cartunistas e comediantes durante o regime militar de direita, que hoje, são aqueles que perseguem comediantes, como Leo Lins, por eles tachado de “direitista”, “fascista” e até nazista. E chegando ao ponto de dizerem: “humor bom mesmo é o do Fábio Porchat”.
Por que? Porque Porchat é de esquerda, e por isso faz “humor do bem”. E “humor do bem”, entre outras coisas, não procura defeitos em uma lista aprovada por pessoas do bem como intocáveis: minorias, ambientalistas, defensores das causas de esquerda e afins. Seus alvos são as pessoas “do mal”: direitistas ou pessoas “em cima do muro”, que não assumem claramente sua filiação… à esquerda.
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Chegamos a esse ponto: rir de humoristas de acordo com sua posição política: assim, pessoas que se alinham à direita vão preferir comediantes zombando dos petistas, psolistas, esquerdistas; os que se alinham à esquerda vão rir de quem zomba dos “fascistinhas” de direita.
Vejo uma solução em breve, se os humoristas chamarem aquele imenso grupo de pessoas cansadas dessa polarização inconsequente e que só causou confusão, desagregação social, violência, perseguição e punições desproporcionais e até mortes. E apelarem para as raízes do bom humor, das velhas piadas, aquelas construídas sobre o riso espontâneo de quem vê as coisas do mundo pela primeira vez, pelo espanto da surpresa com tudo o que pode ser renovado, somente pela maneira com que se olha.
Não é à toa que Chaplin fazia o seu Carlitos com tanta graça e leveza, falando de temas pesados: abandono infantil, exploração do trabalho, brigas familiares. Tudo se mostrava ao vagabundo como se fosse para uma criança: com riso e poesia.
Esse, talvez, será o humor da Terceira Via.



