Sistema usa IA para identificar sinais de compulsão em telas
Tecnologia criada na USP utiliza inteligência artificial com foco na prevenção de vícios e perda de controle durante a navegação

Enquanto as plataformas digitais investem cada vez mais em mecanismos para prolongar o tempo de permanência dos usuários, uma tecnologia desenvolvida por pesquisador formado pela USP propõe fazer o caminho inverso: identificar, em tempo real, sinais de compulsão, impulsividade e perda de controle no ambiente digital.
O sistema, criado por Cláudio Luiz da Silva, mestre em Saúde Mental pela Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto (EERP) da USP, utiliza inteligência artificial para analisar padrões de interação e criar intervenções preventivas voltadas à saúde mental.
A proposta da tecnologia, que recebeu o nome de Mindbet, parte de uma lógica diferente da adotada pela maioria das ferramentas voltadas ao uso saudável de telas. Em vez de limitar ou contabilizar o tempo de uso, o sistema analisa a forma como o usuário interage com o dispositivo. “Não monitoramos o tempo, mas a qualidade da atenção e a capacidade de tomada de decisão. O foco está no comportamento”, explica Silva.
A ideia surgiu a partir da experiência profissional do pesquisador na rede municipal de ensino de Ribeirão Preto, onde atuou na educação infantil e no atendimento educacional especializado (AEE), com foco em crianças autistas e outros perfis neurodivergentes. O trabalho resultou em centenas de páginas de observações comportamentais que, posteriormente, serviram de base para o desenvolvimento do projeto.
Segundo o pesquisador, a análise desse material revelou padrões ligados ao que define como entropia comportamental, um conceito utilizado para descrever estados de desorganização das funções executivas, associados à perda de noção de tempo, esforço e consequência durante o uso de telas. A partir disso, o pesquisador passou a estruturar o Mindbet como uma espécie de infraestrutura de segurança cognitiva aplicada ao ambiente digital.

Desenvolvimento e intervenções em tempo real
O sistema foi desenvolvido a partir da integração entre conhecimentos em tecnologia, neurociência, psicofísica, pedagogia e saúde mental. Na prática, a proposta é que o Mindbet funcione conectado ao celular e a outros dispositivos previamente autorizados pelo usuário, monitorando dados relacionados à intensidade, velocidade e frequência dos toques realizados na tela.
Essas informações alimentam um sistema de análise baseado em inteligência artificial, responsável por calcular um indicador chamado Índice de Vulnerabilidade Comportamental (IVC), que mede sinais de fadiga cognitiva, impulsividade e perda de controle durante a navegação.
Quando o sistema identifica níveis moderados de risco, o Mindbet pode interromper temporariamente a navegação e propor atividades cognitivas ou jogos voltados à recuperação da atenção e do raciocínio lógico. Segundo o pesquisador, “a ideia é intervir no momento em que o comportamento começa a sair do controle, antes que ele gere consequências mais graves”.
Em situações consideradas críticas, a plataforma prevê o acionamento de uma rede de apoio previamente cadastrada pelo usuário, que pode incluir familiares, profissionais de saúde, clínicas, empresas ou serviços públicos. Também existe a possibilidade de bloqueio temporário do dispositivo em cenários extremos de vulnerabilidade.
De acordo com o desenvolvedor do Mindbet, todo o funcionamento do sistema depende de acordos prévios entre o usuário e as instituições conectadas à plataforma. “A coleta de dados é opcional e o projeto prevê mecanismos alinhados à legislação brasileira de proteção de dados.”

Foco na saúde digital
Outro diferencial do Mindbet apontado por Silva está no fato da tecnologia não ser voltada a um tipo específico de aplicativo ou usuário, mas nos padrões comportamentais associados ao uso excessivo ou compulsivo de telas, independentemente da plataforma utilizada. “O algoritmo generaliza a tela e atua sobre a entropia comportamental no ambiente digital. Para isso, o sistema utiliza referências da psicofísica moderna, incorporando escalas de percepção e esforço para calibrar as respostas e tornar as intervenções mais precisas.”
Ainda em fase de desenvolvimento, o projeto vem sendo apresentado a instituições e potenciais parceiros ligados às áreas de inovação, saúde e tecnologia. O Mindbet participou da primeira etapa de seleção de projetos inovadores do Supera Parque de Inovação e e avançou para a próxima fase do processo.
A iniciativa também foi encaminhada para organizações ligadas ao jogo responsável e para órgãos públicos federais, como o Ministério da Saúde e a Casa Civil, em busca de apoio institucional e possibilidades de aplicação em políticas públicas relacionadas à saúde digital e prevenção de comportamentos compulsivos.
Para Silva, a principal contribuição da tecnologia está na possibilidade de atuar preventivamente em situações de vulnerabilidade associadas ao ambiente digital. “A ideia é ajudar no combate ao vício em telas e preservar famílias expostas aos riscos de comportamentos compulsivos relacionados às plataformas digitais, como a ludopatia, um transtorno mental caracterizado pela incapacidade de controlar o impulso de jogar, persistindo mesmo com graves prejuízos financeiros, familiares e sociais.”
Matéria: Felipe Medeiros | Jornal da USP.



