
“Nós, professores, temos uma tendência de sermos conservadores, de preservarmos as coisas como elas são em sala de aula. Mas, no mundo da inteligência artificial, não podemos nos dar a esse luxo.” O comentário é do professor Marco Aurélio Pinheiro Lima, do Instituto de Física Gleb Wataghin (IFGW) da Unicamp.
No primeiro semestre de 2026, ele elaborou um projeto de incorporação de ferramentas de inteligência artificial (IA) gratuitas comuns no cotidiano (como ChatGPT, DeepSeek, Gemini e Claude) ao processo de aprendizagem da disciplina de Mecânica Quântica. Combinando métodos tradicionais de avaliação com momentos em que os estudantes exploram as ferramentas para questionar seu próprio aprendizado, o projeto Espelho Quântico mostra aos estudantes que, no mundo da IA, é necessário que o saber humano opere como auditor frente aos resultados que os recursos apresentam. “Minha meta é que as IAs não sejam usadas como oráculos, mas sirvam como ferramentas de diálogo.”
Lima argumenta que sua atenção à forma como as ferramentas de IA passam a fazer parte da aprendizagem vai além de cenários hipotéticos, em que a tecnologia substitui a ação humana. Para o docente, o risco mais preocupante é a erosão do pensamento crítico por causa dessas ferramentas. “As IAs vieram para ficar e vão melhorar muito. Mas hoje elas cometem erros, alucinam. Se as tratarmos como oráculos, sem contar com essa possibilidade de erros, provavelmente vamos nos equivocar”, observa ele. Por isso, defende que professores não atuem como fiscais do uso ou da recusa das ferramentas, mas como facilitadores para que os estudantes atuem como auditores da validade do que é informado. “Desconfiar de nossas fontes faz parte do ser humano. O uso das IAs é simplesmente um novo passo para esse assunto.”

Não tem mais volta
O uso de IA como ferramenta para facilitar pesquisas científicas não é uma tendência, mas uma realidade. Um estudo da revista Nature, feito em 2025 com 5.229 pesquisadores de todo o mundo, avaliou as impressões em torno do uso de IA em trabalhos científicos. A taxa dos que consideram aceitável o uso das ferramentas para editar e redigir textos foi de 90% e 65%, respectivamente. Já a proporção que declara efetivamente usar a ferramenta é menor: apenas 28% afirmam usar a IA para edições e apenas 8% para redação de textos — ainda que 43% dos entrevistados manifestem interesse em usá-la.
A aceitação também é maior entre os jovens. Enquanto 42% de pós-graduandos declaram utilizar a IA, apenas 22% de acadêmicos em carreira avançada admitem o mesmo. Em todos os segmentos, chama a atenção que a maior parte dos entrevistados considere aceitável o uso da IA desde que isso seja informado, seja apenas a menção ao uso ou a divulgação dos prompts (instruções) utilizados.
Nesse sentido, seu emprego na disciplina foi planejado de forma a servir como recurso para que os estudantes avaliem seu próprio aprendizado, sempre com a ideia de submeter as questões às IAs e observar seus pontos de concordância e suas contradições. Nesse processo, os alunos eram incentivados a registrar os erros cometidos pelos sistemas e confrontar os algoritmos com seus conhecimentos. Outra regra do projeto foi a transparência: os prompts eram padronizados para todos, e os procedimentos de confronto de ideias nas quatro ferramentas deveriam ser relatados de forma detalhada.
Para garantir a aprendizagem, o desempenho dos alunos foi avaliado da seguinte forma: 70% da nota foi composta por uma avaliação tradicional e sem consulta. Mediante o resultado nessa prova, os outros 30% da nota foram compostos por outras duas avaliações, denominadas C1 e C2. Na primeira, os alunos podiam corrigir seus erros na prova com auxílio das IAs, relatando a contribuição de cada ferramenta na solução dos problemas –procedimento que já era adotado por Lima anteriormente, mas com outros recursos. Já a C2, pensada principalmente para os estudantes com bons resultados na prova, foi uma espécie de desafio, no qual eles poderiam utilizar as IAs para resolver questões ainda mais difíceis. “Com essa avaliação, eles [os estudantes] atingem a fronteira dos conteúdos e podem adentrar assuntos mais complexos”, detalha.
Desconfiados
Entre os estudantes, houve quem encarasse a iniciativa com certa desconfiança. “No começo, achei que a matéria seria ministrada pela IA e que o uso dela seria nossa principal fonte de conhecimento. Mas, logo nas primeiras aulas, fiquei muito feliz de estar errado”, lembra Misael Mateus, aluno do curso. Ele reconhece que a forma como as ferramentas foram introduzidas tornou o processo de aprendizagem mais instigante, com incentivos para que as IAs não fossem apenas questionadas, mas provocadas. “Cada ferramenta tinha um jeito diferente de analisar os problemas: algumas eram mais verborrágicas, abusando de textos longos, e outras mais algébricas. O fato era que devíamos usá-las nessas ditas ‘provocações’ sobre a sabedoria e o domínio delas no assunto.”
O jovem recorda, inclusive, um episódio em que, frente a uma questão intrigante, confrontou cada uma das quatro IAs com as respostas das outras, para checar em que ponto elas chegariam a um consenso. Elas de fato acabaram concordando, mas estavam erradas. “Nessa história, tive minha nota reduzida e aprendi a não confiar cegamente nas respostas delas. Mesmo que todas concordem, a resposta ainda pode estar errada.”
Experiências como a de Misael corroboram o objetivo principal do projeto, que é conscientizar os estudantes do seu papel como legitimadores do conhecimento. “Fico feliz com essa desconfiança dos alunos. Eles tinham uma confiança muito maior nas IAs no começo da disciplina, e passaram a desconfiar no final”, resume o professor. Outros estudantes compartilham dessa visão: “Antes eu pensava mais nela como uma ferramenta para encontrar informações ou obter uma resposta rápida. Depois dessa experiência, passei a enxergá-la mais como uma espécie de tutor de apoio”, reflete Maurício Villalba.
Já para Maria Briani Lima, a experiência a tornou mais madura para utilizar recursos de pesquisa. “Sinto que era algo que eu já fazia por conta própria, mas sem um direcionamento certo e sempre com receio. Acho que o método agregou muito aos meus estudos, principalmente no sentido de permitir que eu pergunte e questione quantas vezes eu quiser, até o assunto fazer sentido para mim.”
Matéria: | Jornal da Unicamp.



