Estudo piloto testa composto extraído da ibogaína contra dependência do álcool
Resultados foram promissores, mas são preliminares - e a terapia com a substância depende de mais estudos pelos possíveis riscos cardiovasculares apresentados

Substância psicoativa extraída de uma planta nativa da África Central, a ibogaína modificou o padrão de consumo de álcool de nove voluntários, portadores do transtorno por uso de álcool (TUA), que participaram de estudos conduzidos no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (HCFMRP) da USP. Mas os pesquisadores alertam que esses resultados são ainda experimentais e não dispensam cuidados especializados pelos grandes riscos cardiovasculares que o tratamento oferece.
Responsável pela investigação, a pesquisadora Juliana Mendes Rocha conta que decidiu investir nos testes com a ibogaína contra o transtorno por abuso de álcool porque estudos (pré-clínicos, observacionais e clínicos) têm mostrado o potencial da substância na redução do consumo excessivo de drogas, mas ainda não havia sido testado em abuso de álcool. Assim, a pesquisa avaliou segurança, tolerabilidade e eficácia de doses únicas de ibogaína em nove voluntários portadores do transtorno.
Os participantes do estudo foram hospitalizados para receberem o tratamento, que variou de 20 a 400 miligramas (mg) da substância. Como resultados, informa a pesquisadora, a equipe verificou redução leve a moderada no consumo de álcool, com maior efeito nos que receberam doses mais altas de ibogaína. Entre os resultados positivos, estão a abstinência de álcool e outras drogas em dois dos voluntários pelos três meses de acompanhamento realizado.
Mesmo com esses efeitos benéficos, Juliana Rocha ressalta que são resultados insuficientes para garantir a eficácia da substância para o tratamento, necessitando de mais estudos, principalmente quanto à segurança. É que, entre os efeitos colaterais que, segundo ela, foram de leve a moderados, estão alterações cardiovasculares, além de ansiedade e náusea. “O monitoramento do paciente é essencial e deve ser contínuo”, insiste a pesquisadora, afirmando que faltam dados sobre dosagem correta e efeito da ibogaína no transtorno por uso de álcool.
Estudos com a ibogaína se justificam, segundo ela, não somente porque não existem pesquisas com a substância em casos de transtorno por uso de álcool, mas pela prevalência do transtorno na população adulta mundial que, atualmente, chega a 5%, e está associada a 3% das mortes globais. Outro agravante é a limitação das medicações disponíveis, que apresentam muitos efeitos adversos com baixa adesão aos tratamentos.
Experimento exigiu ambiente hospitalar controlado
A ibogaína é um alcaloide alucinógeno, composto natural extraído da planta Tabernanthe iboga, originária de países da África Central, onde a planta é utilizada em rituais religiosos (religião Bwiti). Juliana Rocha informa que a ibogaína atua no sistema nervoso em diferentes vias e sistemas químicos do cérebro. Seus efeitos incluem alterações na sensopercepção (mudanças na forma como a pessoa percebe espaço e tempo), alterações emocionais e “podem trazer lembranças vívidas, sentimento que pode ser comparado a experiências de sonhar acordado”. Os efeitos psicoativos podem atingir o pico entre uma e duas horas após a ingestão e durar até 72 horas.
A extração e exportação da substância é proibida em muitos países, inclusive no Brasil. Em contextos experimentais de pesquisa clínica, no entanto, o uso é autorizado desde que aprovado por um comitê de ética e submetido a rigorosos critérios de segurança. No estudo realizado na USP em Ribeirão Preto, a substância foi importada de laboratório autorizado, confirmando seu grau de pureza e padronização comum em contextos de estudo científico. Após chegar ao Brasil, o material ainda passou por análise e liberação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) antes de ser utilizado na pesquisa. Todo esse processo levou cerca de dois anos e meio.
Só após esse período é que os pesquisadores iniciaram a pesquisa, tomando todos os cuidados de segurança que os testes requerem. O principal deles foi garantir estrutura adequada e monitoramento dos participantes, voluntários com o transtorno por uso de álcool, o que foi obtido com as internações no HCFMRP.
“Foi um estudo piloto, preliminar, aberto e de viabilidade que incluiu nove adultos com diagnóstico de transtorno por uso de álcool grave, sendo que oito também apresentavam uso de cocaína como comorbidade”, conta Juliana. Para garantir um estudo mais seguro, “os participantes passaram por uma avaliação criteriosa tanto clínica quanto psiquiátrica a fim de identificar os critérios de inclusão e de exclusão para garantir a segurança”, acrescenta.
Os três primeiros participantes receberam doses escalonadas da substância, variando de 20 a 320 mg ao longo de três sessões. Os outros seis receberam uma dose única de 400 mg. Todos foram internados no hospital entre 24 e 48 horas antes da administração da ibogaína e permaneceram sob monitoramento contínuo, com avaliação de sinais vitais, eletrocardiogramas e questionários psicológicos pela equipe de pesquisa e de assistência do HC FMRP. O consumo de álcool e cocaína foi avaliado por meio de registros feitos pelos participantes antes da aplicação da substância e durante o acompanhamento por três meses após o tratamento.

Faltam evidências científicas para terapia com ibogaína
Apesar de não ser autorizada no Brasil, a ibogaína tem sido encontrada e oferecida por clínicas e páginas de sites que vendem o produto, muitas vezes por um preço altíssimo. Porém, alerta Juliana, “nem sempre é possível garantir que o que está sendo comercializado realmente é ibogaína e que tem uma pureza e uma padronização, o que acaba gerando uma comercialização indevida”. Por conta da possível ilegalidade, os pesquisadores têm advertido os pacientes pelos altos riscos que esses métodos alternativos oferecem.
Segundo os especialistas, ainda não existem evidências científicas suficientes para sustentar o uso terapêutico da ibogaína, pelos riscos apresentados, mais precisamente, ao sistema cardiovascular. Por isso, a Anvisa incentiva a denúncia de clínicas ou locais (como mercados on-line) que comercializam o produto de forma irregular.
Por isso, com o tratamento dos voluntários com TUA, os pesquisadores procuraram aperfeiçoar dados para futuras pesquisas, avaliando as administrações de ibogaína a partir de protocolos rígidos de aplicação. Ao final, obtiveram modificação no padrão de consumo de álcool que, por sua vez, foi avaliado quanto à frequência e quantidade ingerida nos três meses após o tratamento. Dois dos participantes permaneceram em abstinência de álcool durante todo o período de acompanhamento e, entre aqueles que também utilizavam cocaína, foram observadas modificações gerais no consumo, passando de diário para pontual e/ou em quantidades menores.
Para Juliana Rocha, são resultados promissores, mas, pelo número reduzido de participantes, devem ser avaliados com cautela. “O estudo neste momento ainda não é suficiente para embasar o uso da ibogaína no tratamento de uso de substância”, afirma, adiantando a necessidade de pesquisas com amostras maiores e maior rigor metodológico para estabelecer possíveis conclusões quanto à eficácia.
Os testes com os voluntários foi conduzido por Juliana e equipe de profissionais da FMRP e o HCRP como parte da tese de doutorado da pesquisadora, que trabalhou sob orientação dos professores Rafael Guimarães dos Santos e Jaime Hallak. Testes estes que se encerraram, comenta Juliana, que ainda hoje recebe pedidos de pessoas se voluntariando ao estudo. A defesa da tese foi apresentada à FMRP no ano passado e contou com o apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e dos Institutos Nacionais de Ciência, Tecnologia e Inovação (INCTs).
Matéria: Rafael Cunha | Jornal da USP.



