Inverno, chuvas e El Niño e a influência sobre a produção de grãos em julho
Especialistas alertam para a necessidade de acompanhamento agrometeorológico, mas não implica impactos uniformes ou automáticos, pois os efeitos dos fenômenos dependem de vários fatores

A região Sul do País foi que mais sofreu com o regime de chuvas no mês de julho, de acordo com o Sistema TempoCampo, um produto de diversos projetos de pesquisa na área de modelagem agrícola e agrometeorologia da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP em Piracicaba. Rio Grande do Sul e Santa Catarina foram os que registraram valores mais elevados, com extensas áreas entre 150 mm e 210 mm e pontos superiores a 240 mm no território gaúcho, enquanto o Paraná apresentou acumulados predominantemente entre 60 mm e 120 mm. A região Norte também foi bastante afetada (acumulados entre 120 mm e 180 mm, com áreas entre 180 mm e 240 mm e registros pontuais superiores a 240 mm, especialmente no oeste da Amazônia e em setores do extremo norte). Já no Nordeste houve variação entre 30 mm e 90 mm, com acumulados mais elevados em áreas do norte e da faixa litorânea. Quanto ao Centro-Oeste e Sudeste, apresentaram totais inferiores a 60 mm, embora tenham ocorrido áreas isoladas entre 60 mm e 90 mm.
Em relação às temperaturas máximas, permaneceram elevadas em grande parte do território brasileiro, com valores entre 29º C e 31º C na região Norte, com áreas entre 31º C e 33º C no sul da região. As maiores temperaturas, no entanto, foram observadas no Nordeste e em setores do Brasil Central (valores frequentes entre 31°C e 35°C e registros pontuais superiores a 35°C, especialmente em áreas interiores). No Centro-Oeste, as máximas variaram predominantemente entre 29°C e 33°C, enquanto no Sudeste prevaleceram temperaturas entre 25°C e 29°C, com valores mais elevados no norte de Minas Gerais e em áreas interiores. Na região Sul, as condições foram mais amenas, com máximas entre 25°C e 29°C no Paraná, valores próximos ou inferiores a 25°C em parte de Santa Catarina e temperaturas inferiores a 25°C em grande parte do Rio Grande do Sul.
Já as temperaturas mínimas evidenciaram o contraste térmico entre o Norte e o Centro-Sul do País. A região Norte apresentou valores entre 23°C e 25°C, com registros pontuais superiores a 25°C. No Nordeste, as mínimas situaram-se principalmente entre 21°C e 23°C, diminuindo para 17°C a 21°C em áreas do interior e de maior altitude. No Centro-Oeste, prevaleceram temperaturas entre 17°C e 21°C, com valores mais elevados no norte de Mato Grosso. No Sudeste, as mínimas variaram, em geral, entre 15°C e 19°C, com áreas inferiores a 15°C em setores de Minas Gerais e nas regiões serranas. Na região Sul, como é típico nesta época do ano, predominaram temperaturas inferiores a 15°C, especialmente no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, caracterizando condições típicas do inverno no centro-sul brasileiro.
Tempo e agricultura
Como de hábito, o Sistema TempoCampo monitorou o comportamento de safras de grãos como trigo, feijão (2ª e 3ª safras), milho (1ª e 2ª safras) e algodão nos Estados do País. A semeadura do trigo encontra-se próxima da conclusão no País. Até 27 de julho, 98,8% da área nacional destinada à cultura já havia sido implantada. Em São Paulo, o enchimento de grãos está próximo da conclusão, com disponibilidade hídrica adequada e ausência de danos significativos por geadas. Por sua vez, a colheita do feijão segunda safra está concluída no Paraná e em Minas Gerais, enquanto o feijão terceira safra encontra-se entre o enchimento de grãos, a maturação e o início da colheita nas principais regiões produtoras.
A colheita do milho primeira safra está praticamente concluída no País. Os trabalhos estavam finalizados em Santa Catarina, São Paulo, Paraná, Rio Grande do Sul, Goiás, Minas Gerais e Pará, enquanto na Bahia, no Maranhão e no Piauí as operações se aproximavam da conclusão. No Rio Grande do Sul, o plantio da safra 2026/27 já foi iniciado pontualmente. Em relação ao milho segunda safra, encontra-se predominantemente em maturação e colheita. Conforme a Conab, 58,3% da área nacional estava colhida até 27 de julho. Em São Paulo, as chuvas provocaram atrasos.
A colheita do algodão avança nas principais regiões produtoras e alcançava 16,5% da área nacional até 27 de julho. Em São Paulo, a colheita está concluída. Embora não tenham sido observadas perdas expressivas de produtividade por conta das chuvas ocorridas em meados de junho, foram relatadas alterações na qualidade da fibra em algumas áreas de Mato Grosso. A tendência é de intensificação das operações com o avanço da colheita do algodão de segunda safra, que representa mais de 85% da área estadual destinada à cultura.
Os dados acima foram colocados em disponibilidade pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab); Associação Rio-Grandense de Empreendimentos de Assistência Técnica e Extensão Rural/Associação Sulina de Crédito e Extensão Rural (Emater/RS-Ascar); Departamento de Economia Rural da Secretaria da Agricultura e do Abastecimento do Paraná (Deral/Seab-PR); Departamento de Economia Rural da Secretaria da Agricultura e do Abastecimento do Paraná (Deral/Seab-PR); Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina, por meio do Centro de Socioeconomia e Planejamento Agrícola (Epagri/Cepa); Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (Imea); e pelo Sistema Famasul e da Associação dos Produtores de Soja de Mato Grosso do Sul (Aprosoja/MS).
El Niño e possíveis impactos sobre as culturas
O Centro de Previsão Climática da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA/CPC) indica que o El Niño permanece ativo e deverá se intensificar até o final de 2026, com 97% de probabilidade de persistir até o início da primavera de 2027 no Hemisfério Norte. As projeções do Climate Forecast System Version 2 (CFSv2) também apontam fortalecimento das anomalias de temperatura da superfície do mar na região Niño 3.4 durante a primavera e o início do verão, seguido por enfraquecimento gradual. Esse cenário amplia a necessidade de acompanhamento agrometeorológico, mas não implica impactos uniformes ou automáticos, pois os efeitos do El Niño–Oscilação Sul (ENOS) dependem da época de ocorrência, da região e da interação com outros sistemas atmosféricos.

Para o trigo no Sul, chuvas frequentes durante o espigamento, o enchimento de grãos e a maturação podem elevar a pressão de doenças, favorecer o acamamento e prejudicar a qualidade dos grãos. Para o feijão, temperaturas elevadas e restrições hídricas durante a floração e a formação das vagens podem reduzir o pegamento e o enchimento dos grãos, enquanto o excesso de chuva na maturação pode comprometer a qualidade e dificultar a colheita. No milho, calor e deficiência hídrica nos estádios reprodutivos podem afetar a polinização e o enchimento de grãos, além de eventuais atrasos na implantação das culturas de verão poderem reduzir a janela disponível para o milho segunda safra. No algodão, chuvas durante a abertura dos capulhos e a colheita aumentam o risco de deterioração da fibra, presença de impurezas e atraso operacional, enquanto períodos quentes e secos nas fases reprodutivas podem limitar a retenção e o desenvolvimento das maçãs. Esses efeitos representam riscos potenciais e devem ser avaliados de acordo com a evolução efetiva das condições meteorológicas em cada região produtora.
Com informações de Caio Albuquerque, da Assessoria de Comunicação da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz
Fonte: Jornal da USP.




