Imunidade materna protege fetos contra danos do Oropouche
Experimentos com animais mostram importância dos cuidados com a saúde na gestação e do monitoramento de epidemias
Amor de mãe é uma muralha e, ao que parece, seu sistema imunológico também. É isso que sugere uma pesquisa da Unicamp que acaba de ser publicada no periódico iScience, do grupo Cell. O estudo, conduzido por pesquisadores do Instituto de Biologia (IB), investigou os possíveis efeitos da infecção congênita — de mãe para filho — pelo vírus Oropouche (Orov), constatando que, quando a gestante tem um bom sistema de defesa, a infecção chega a seu sistema reprodutivo, mas quase não causa danos ao feto.
De acordo com o estudo, essa proteção acontece porque, ao entrar em contato com o patógeno, as células do sistema reprodutivo produzem diferentes citocinas, incluindo interferons do tipo I e III, proteínas sinalizadoras que constituem um dos principais componentes da resposta imunológica inata. Ao serem liberadas, essas citocinas se ligam a receptores de interferons presentes nas outras células e desencadeiam uma via de sinalização que culmina na expressão de genes com atividade antiviral, contribuindo para controlar a replicação do vírus.

Em contrapartida, caso a sinalização dos interferons maternos esteja prejudicada, o vírus passa em maior quantidade para o feto, gerando mais danos ao filho, mesmo que este esteja com seu sistema de defesa intacto. As motivações desse efeito não foram avaliadas pelo estudo, mas é possível que, mesmo que possua um arcabouço genético para responder ao vírus, a falta de maturidade dessa resposta impeça uma atuação mais efetiva do feto. “Já o corpo da mãe é o habitat, a barreira que controla o que passa. Então, quando ela controla a infecção, consegue proteger o bebê”, considera o docente do IB José Luiz Módena, orientador da tese que originou a publicação.
O artigo é resultado de uma pesquisa conduzida pela biomédica Stéfanie Primon Muraro. Em seu doutorado no IB, a autora investigou os mecanismos por trás da transmissão do Oropouche entre mãe e filho, buscando preencher uma lacuna de pesquisas experimentais sobre essa temática. Desde a década de 1980, relatos e estudos observacionais já apontavam uma associação entre gestantes infectadas pelo Orov e casos de aborto espontâneo e malformação fetal, mas nenhuma análise havia sido feita para detectar o vírus nos fetos.
Comum em regiões de mata, o Oropouche é conhecido no Brasil desde a década de 1960 e tem grande circulação entre animais silvestres, como preguiças, primatas, roedores e aves. Em humanos, ele costuma ser transmitido pelo Culicoides paraensis, um mosquito da família do borrachudo popularmente conhecido como maruim ou “porvinha”. De tempos em tempos, ocorrem casos de transmissão entre humanos pelo inseto vetor em áreas urbanas, mas, por ser uma doença associada a regiões economicamente vulneráveis, especialmente no Norte do país, seu estudo se manteve historicamente negligenciado.
Os principais sintomas do Oropouche são febre, dores nas articulações e erupções cutâneas que desaparecem após uma semana. Porém, alguns pacientes desenvolvem complicações graves, como sequelas neurológicas e hemorragia, chegando a resultar em óbito. No entanto, a “similaridade clínica entre a infecção por Orov e aquela causada por outros arbovírus, como dengue, zika e chikungunya, gera dificuldades diagnósticas e faz com que os casos de Orov sejam subnotificados”, afirma Muraro em sua tese.
O experimento
Para chegar aos resultados, Muraro desenvolveu, com o apoio da equipe do Laboratório de Estudos de Vírus Emergentes (Leve), liderado pelo professor Módena, ensaios em células e em camundongos gestantes. No primeiro caso, a autora avaliou se o patógeno era capaz de se multiplicar em células de placenta de humanos e de camundongos — o que foi confirmado — e quais tipos de resposta imunológica essas células eventualmente desencadeariam — no caso, a liberação dos interferons. Além disso, usando camundongas que não estavam grávidas, ela observou que o vírus pode alcançar os órgãos reprodutores femininos, como útero e ovários.
Já no segundo ensaio, a pesquisadora trabalhou com um modelo de cruzamento e de infecção em camundongas gestantes. Nessa etapa, o objetivo do experimento foi avaliar se o vírus consegue infectar as fêmeas grávidas e se, em caso positivo, ele é capaz de atravessar a placenta e causar danos ao feto. “Isso não é garantido, porque, quando está grávida, a fêmea passa por várias alterações em sua fisiologia e em seus níveis hormonais que poderiam afetar a capacidade de infecção e transmissão do vírus”, afirma o docente.
Para tanto, foram feitos experimentos com três modelos de camundongo: o selvagem, que possui duas cópias, materna e paterna, do gene responsável por expressar o receptor de interferon — homozigoto positivo — e que, portanto, responde a essa citocina de maneira integral; o homozigoto negativo, que não possui cópias desse gene e, dessa forma, não responde à sinalização do interferon; e um heterozigoto, que possui apenas uma cópia do gene, mas também expressa o receptor de interferon.
O experimento demonstrou que, para a camundonga selvagem — que cruzou com um camundongo selvagem e gerou apenas fetos selvagens —, o vírus chega à placenta e ao feto em níveis baixos, mas sem causar grandes alterações de tamanho ou de neurodesenvolvimento. Por outro lado, as camundongas negativas desenvolveram uma infecção por Oropouche muito grave e morreram até três dias após a infecção. Isso demonstrou a importância dos interferons para a defesa contra o vírus, mas impossibilitou o acompanhamento da gestação e dos efeitos da doença nos fetos, devido a sua morte prematura.
Diante desse resultado, o experimento voltou sua atenção para as fêmeas heterozigotas. A sua única cópia do gene permite que ela sobreviva à infecção pelo vírus, mas, ao cruzar com um macho negativo, este não transmitirá uma cópia do gene para os filhotes. Com isso, a camundonga pode gerar filhotes responsivos ao receptor (heterozigotos), caso o feto receba o gene positivo dela, e não responsivos (homozigotos negativos), caso o filhote não o receba. Isso permitiu acompanhar a infecção nos fetos duplo-negativos.

Com essa etapa, o estudo constatou a importância do sistema de defesa materno, pois, apesar de os fetos apresentarem peso e tamanho menores, tal diferença não teve significância estatística quando comparado com os do grupo controle — que não foram infectados. Vale ressaltar que a análise das placentas desse cruzamento revelou múltiplas áreas de calcificação, o que os autores acreditam indicar locais com replicação ativa do vírus. Esse é um fenômeno observado em outros tipos de infecção viral e parasitária, como rubéola e toxoplasmose, e que afeta funções como a troca de nutrientes entre a mãe e o feto — o que impactaria o crescimento do filhote —, mas tal relação não foi confirmada pelo estudo.
Como último passo para comprovar a dependência de interferon materno para a via de defesa, os pesquisadores trataram as camundongas selvagens com diferentes doses de um anticorpo que “desliga” o receptor de interferon e impede a resposta antiviral mediada por essa citocina. Com isso, foi possível diminuir a resposta de defesa da mãe para observar o vírus chegar aos fetos duplo-positivos e se multiplicar com maior facilidade. “A carga viral na placenta aumenta muito, mesmo com doses muito baixas do anticorpo, e a gente vê aumento da carga viral fetal e uma tendência de absorção do feto pela mãe, mostrando que nesse cenário pode, eventualmente, ocorrer um aborto ou restrição de crescimento”, afirma Módena.
Desdobramentos
Os resultados do estudo confirmam que o vírus do Oropouche tem potencial de causar infecção congênita e atravessar a barreira placentária para atingir o feto, mas que os desfechos negativos devem ocorrer apenas em uma pequena quantidade de gestantes, possivelmente aquelas com alguma deficiência na resposta ao interferon. No entanto, como as análises foram conduzidas em células e em modelos animais, bem como em uma janela de infecção muito específica, não é possível concluir que o efeito em mulheres seria igual, especialmente porque o vírus possui mecanismos para contrabalançar a resposta antiviral mediada por interferons que funcionam ainda melhor em humanos.
Para fazer tal afirmação, seria necessário um estudo clínico em um cenário de epidemia de Oropouche com grande volume de gestantes infectadas, bem como o estabelecimento de parcerias com hospitais que atendem essas mulheres para a construção de um sistema de vigilância e detecção da doença. “Esse é um vírus pouco letal, mas que apresenta quadros neurológicos graves e alteração de crescimento fetal em algumas gestantes. É um número pequeno, mas, para quem teve, é uma consequência terrível”, afirma Módena.
Por esse motivo, há mais de dez anos o Leve desenvolve uma linha de pesquisa voltada ao estudo do vírus Oropouche. No momento, a equipe tenta compreender os fatores associados à gravidade da doença e o seu real impacto na região. Um estudo de 2017 estimou que mais de meio milhão de pessoas já foram infectadas pelo Orov nas Américas, mas uma nova análise do Leve, que será publicada em breve, sugere uma incidência superior. Outra linha de pesquisa também envolve as possíveis sequelas da doença no longo prazo. Como exemplo, experimentos em neurônios demonstraram que o vírus age em proteínas associadas a quadros neurodegenerativos, indicando a possibilidade de efeitos negativos décadas após a infecção.
Além disso, outra preocupação do grupo são as possíveis transformações que o patógeno pode sofrer. Uma nova cepa do Oropouche, fruto de um rearranjo durante uma infecção por dois vírus Orov diferentes, surgiu em 2023, causando surtos em várias cidades da Amazônia e se disseminando para o restante do Brasil. A maior parte das pessoas infectadas apresentou sintomas parecidos com o que já se conhecia da doença, como febre, vermelhidão e indisposição, mas novos relatos também apontaram casos de aborto espontâneo e nascimentos de crianças com microcefalia em pacientes grávidas.
Como a pesquisa de Muraro teve início antes desse novo surto, os ensaios foram realizados com a cepa antiga do Oropouche. Entretanto, análises laboratoriais demonstraram que esse novo patógeno tem maior capacidade replicativa em células de mamíferos, podendo infectar quem já havia tido a doença. Isso se tornou uma vantagem para o vírus porque facilitou sua dinâmica de transmissão dentro do ambiente amazônico, permitindo que ele saísse da região. “O genoma do Orov é composto por três segmentos e, quando uma célula é infectada por vírus diferentes, pode haver um rearranjo e o surgimento de um vírus novo. Então é preciso fazer esse monitoramento constante para o caso de surgir um vírus com patogenicidade maior”, alerta o docente.




