Novo microdispositivo pode diminuir custos da fertilização “in vitro”
O microdispositivo auxilia as mulheres a realizarem o sonho de ser mães

Pesquisadores da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos (FZEA) da USP, em Pirassununga, desenvolveram um microdispositivo reutilizável para a produção de embriões in vitro. O microdispositivo tem usabilidades para diferentes áreas, como maturação de gametas e fertilização in vitro, sendo seu principal uso esperado à reprodução assistida para seres humanos. Segundo Franciele Flores, pós-doutoranda do Departamento de Medicina Veterinária da FZEA-USP, “[o microdispositivo] é um produto que não tem um custo elevado e que dá para reutilizar. Então, poderia, além de diminuir os custos do que a gente tem hoje, ajudar muitas pessoas a realizar sonhos, como ser mãe”.
O microdispositivo está envolvido em um projeto do Jovem Pesquisador – uma linha de fomento e auxílio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, a Fapesp, voltada a pesquisadores jovens. O Jovem Pesquisador tem como um dos objetivos estabelecer elos de conexão da ciência dentro do território nacional e internacionalmente. Assim, o projeto contou com a colaboração da Universidade Federal do Ceará e parcerias com a Universidade da Califórnia, em Davis, nos Estados Unidos.
O uso do microdispositivo
O microdispositivo não tinha como ideia inicial o uso voltado a seres humanos. A utilização do objeto estava orientada, primeiramente, para a fertilização in vitro de animais, porém, o professor Juliano Coelho da Silveira, também do Departamento de Medicina Veterinária da FZEA, admite que “a grande aplicação que a gente vislumbra é para a área humana”.
O diferencial do microdispositivo está na possibilidade de ser reutilizável, o que, segundo, Franciele, “consegue diminuir bastante o custo, porque se tem um descartável, para cada ensaio você vai usar um. E aí a gente não tem só um problema de custo, como um problema ambiental, de resíduo. O dispositivo entra nesse ponto. Ele não vai produzir tanto resíduo quanto um outro dispositivo”.
Um microdispositivo dinâmico
Outra qualidade diferente é o sistema dinâmico que ele apresenta: “Geralmente os cultivos normais a gente faz em placas, em que a gente não tem movimento do fluido. Dentro da microfluídica, a gente primeiro tem o espaço menor, então a gente tem esse movimento de fluido que é muito similar ao que acontece em vivo, porque em vivo a gente tem tudo dinâmico. Eu acho importante também ressaltar que na microfluídica é muito mais rápido as reações acontecerem ali, porque são tamanhos menores, ou seja, também observar essas reações em tempo real.”
Silveira explica que esse caráter dinâmico é essencial para uma melhor leitura da qualidade do embrião ou gameta. O dinamismo em um sistema como esse “é muito mais importante para um humano do que para um animal de produção, por exemplo, para um animal de hobby, tipo um equino. Porque por vezes a mulher que vai procurar o auxílio para reproduzir já está em uma idade da vida em que as reservas dela já são muito limitadas. Juntando isso, às vezes, com um parceiro de idade avançada também, com uma baixa qualidade de espermática, tem uma combinação que tem tudo para dar errado”.
O professor complementa: “Uma das coisas que surgiram para mim em 2013 foi essa inquietação de a gente estar fazendo esse cultivo, essa produção de embriões, da mesma forma, há mais de 40 anos. E eu olhava para aquilo e dizia ‘nossa, tu olha para o ambiente in vivo, é tudo dinâmico, está quente, está frio, a pessoa está com fome, está com excesso de energia, tudo isso vai mudando constantemente e dá certo. E por que in vitro não dá, onde tudo é estático?’ E aí, dentre várias coisas que eu tinha em mente, uma delas era tornar esse ambiente mais semelhante ao in vivo”.
Matéria: Fernando Silvestre | Jornal da USP.




