Mais um prédio histórico sofre incêndio em São Paulo. Desta vez, no Largo São Francisco
Incendiou-se ontem a antiga Escola Prática de Comércio "Alvares Penteado", que hoje pertence à USP

O edifício histórico da antiga sede da Escola Prática de Comércio “Álvares Penteado”, conhecido como “Palácio do Comércio”, incendiou-se ontem, quinta (26), na cidade de São Paulo.
O fogo começou por volta das 22h, foi controlado por volta da meia-noite. O incêndio atingiu o terceiro andar do edifício da rua Benjamin Constant 170. Pelo menos dez viaturas foram acionadas para atender à ocorrência O Corpo de Bombeiro informou que o incêndio provavelmente foi causado por uma falha em um ar condicionado. O terceiro andar, onde começou o incêndio, não tinha atividades, contendo somente cadeiras.
A Defesa Civil Municipal realizou vistoria no local. O incêndio queimou cerca de 50 metros quadrados do prédio e a área foi interditada preventivamente. Não houve vítimas.

Reignição
Por volta das 2h da madrugada desta sexta-feira (27), houve reignição, quando o incêndio volta a acontecer, mesmo parecendo apagado. O fogo intensificou-se e atingiu o segundo andar. Até o momento, não há notícias se o fogo foi controlado durante a madrugada, ou se continua no local.
A SSP (Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo) e a USP, até o momento, não se pronunciaram sobre o ocorrido.
História e cultura
O prédio está localizado no Largo São Francisco, ao lado da sede da Faculdade de Direito (construído em 1934), e próximo às duas igrejas seculares da Ordem Franciscana. Em 2024, foi desapropriado pelo governo do estado e hoje pertence à USP. A desapropriação foi paga com recursos da universidade e custou cerca de R$ 18 milhões, num dos locais mais valorizados da capital.

O “Palácio do Comércio” foi construído e inaugurado em 1908 para ser a sede da escola de comércio fundada em 1902 pelo Conde Álvares Penteado, grande produtor de café do interior paulista. O projeto é de Carlos Eckman, arquiteto do famoso escritório de Ramos de Azevedo, e destaca-se por ser um dos poucos exemplares do estilo Art Nouveau na capital. Sua construção foi feita com mármores e decoração trazida diretamente da Europa para ornamentar o prédio que abrigaria exclusivamente a escola.
Desde sua fundação até 2024, a Escola Prática de Comércio funcionou ali, primeiro como seu ponto central, depois como um anexo onde havia aulas da pós-graduação.
No local, funcionou também, de 1933 a 1954, a antiga Escola Livre de Sociologia e Política de São Paulo (núcleo original da atual FESPSP). Também foram ministradas disciplinas do curso de Medicina da USP na década de 1920.
Em 1992, o prédio foi tombado pelo Patrimônio Histórico da cidade de São Paulo (Conpresp). A Fecap (Fundação Escola de Comércio Alvares Penteado), já tinha transferido suas atividades para um prédio novo no bairro da Liberdade desde 1969, utilizando o prédio da rua Benjamin Constant, 170, para aulas da pós-graduação, mas desde 2022 não era utilizado.
Atualmente, o prédio estava subutilizado, sendo local somente de ensaio de grupos de teatro da Faculdade de Direito, e monitoria de algumas disciplinas da graduação.
Necessidade de restauro urgente
Portanto, o prédio estava semiabandonado desde 2022; a necessidade de restauro era evidente para qualquer um que se colocasse em frente à fachada. O autor deste artigo esteve no local no dia 21 de fevereiro e constatou o estado do prédio.
Assim como as oficinas do Liceu de Artes e Ofício, o prédio da Cinemateca Brasileira, o auditório Simon Bolívar do Memorial da América Latina, todos patrimônios históricos tombados que tiveram perdas irrecuperáveis, e todos na cidade de São Paulo, não foram protegidos nem tiveram preocupação de se efetuar conservação preventiva devida. É mais um edifício de uma triste lista, parcialmente destruído por descaso daqueles que deviam ser os guardiães de nosso memória.




