Incêndio na Casa Munhoz catalisou a mobilização pelo Corpo de Bombeiros
Série “Achados do Arquivo” relembra a ocorrência que fez a cidade criar uma campanha pela instalação da corporação na cidade, há 70 anos
A história da segurança pública em Piracicaba guarda marcos que revelam como a cidade se transformou diante de grandes desafios. Um desses episódios ocorreu em 6 de setembro de 1955, quando um incêndio atingiu a chamada “Casa Munhoz”, um supermercado/depósito popular da época, localizado no cruzamento entre a avenida Armando Salles e a rua Moraes Barros. O evento não apenas chocou a população, mas expôs uma carência crítica: a ausência de um serviço local de combate a incêndios, o que obrigava o município a depender do socorro de cidades vizinhas.
O fogo e a carência de meios para combatê-lo virou notícia até mesmo em periódicos estaduais. O jornal “O Estado de São Paulo”, por exemplo, veiculou no dia 8 de setembro de 1955 uma matéria com o seguinte conteúdo:
“Piracicaba, 7 (Do correspondente – Pelo Telefone) – Irrompeu ontem, às 15 horas e 20, um incêndio nos depósitos de inflamáveis da firma Irmãos Munoz Ltda. Diversas empresas comerciais e industriais da cidade prestaram auxílio no combate às chamas, mas o fogo só pode ser extinto às 17 horas e 30, depois de causar prejuízos da ordem dos Cr$ 4.000.000,00. Não se conhecem as causas do incêndio. Como não há em Piracicaba corpo de bombeiros, foi chamada a corporação de Jundiaí, que, no entanto, só chegou a esta cidade às 20 horas, quando nada mais havia a fazer”.
O prejuízo foi grande, mas o fogo foi o catalizador necessário para a mudança. Poucos dias depois do incêndio foi convocada uma reunião e criada uma comissão para combater o problema, como mostra a matéria intitulada “Já está estruturada a campanha para criar um corpo de bombeiros no município de Piracicaba”, publicada pelo mesmo jornal “O Estado de São Paulo”, dias depois, em 25 de setembro de 1955:
“Depois do incêndio há dias ocorrido em Piracicaba, que poderia ter assumido proporções catastróficas, senão fosse a ajuda particular espontânea havida no combate ao fogo, a campanha há muito iniciada para a formação de um Corpo de Bombeiros despertou interesse geral das autoridades e entidades da cidade. Convocada pelo Lions Clube e Associação Comercial, realizou-se no dia 14, na sede da Rádio Difusora Piracicaba, uma reunião na qual foi debatido o problema da criação de um corpo de bombeiros, participando da mesma o sr. João Basílio, prefeito municipal, o sr. José Soubihe Sobrinho, presidente da Câmara, o sr. Andréas Aranha Schnidt, delegado regional de polícia e representantes das entidades locais. As deliberações tomadas foram de caráter prático e de realização imediata, a fim de conseguir para que a cidade venha a ter uma aparelhagem e um grupo de homens adestrados no combate às chamas. Foi nomeada Comissão Central Executiva, de que é presidente o sr. Sebastião Ferraz, secretário, o sr. Benedito de Andrade e tesoureiro, o sr. Aristides Figueiredo, a qual orientará todos os trabalhos a serem realizados. Imediatamente foram constituídas as Comissões de Arrecadação, formadas com elementos das entidades”
As deliberações tiveram “caráter prático e de realização imediata”. Poucos meses após a citada reunião, em fevereiro de 1956, foi protocolado um projeto de lei que versava sobre a criação da corporação, tendo por base a lei nº 658/1950 do Estado de São Paulo, que permitia o Poder Executivo a firmar acordo com municípios para a execução do combate a fogos por parte da Força Pública.
Assim promulgou- se em 8 de março daquele mesmo ano a Lei Ordinária nº 555/56, que autorizava Município a contratar com o Governo do Estado de São Paulo a instalação de um corpo de bombeiros em Piracicaba. E ainda, no mesmo ano, com a Lei nº 603/56, foi aberto um crédito especial destinado à aquisição de materiais para o corpo de bombeiros de Piracicaba.
Apenas onze meses após o incêndio da Casa Munhoz, em 1º de agosto de 1956, data do 189º aniversário de Piracicaba, foi assim oficialmente criado o primeiro Corpo de Bombeiros da cidade, sob o comando do sargento Jodeb Furquim de Moraes.
Em 29 de outubro de 1956, o presidente da Comissão Pró Criação do Corpo de Bombeiros, Sebastião Ferraz, remeteu à Câmara Municipal o balancete da campanha para a criação da corporação. Nele não são apenas descritas as despesas com matérias, mãos de obra, viaturas e viagens, mas também as receitas obtidas, os contribuintes e a importâncias submetidas. A quantidade de doadores demonstra que essa foi sem dúvida uma conquista coletiva, afinal, o fogo que consumiu a Casa Munhoz foi o mesmo que espalhou as brasas da urgência e ateou a chama da colaboração entre os munícipes.
Vale ressaltar que, embora a corporação esteja completando 70 anos de história — um período relativamente recente na cronologia piracicabana — o debate sobre prevenção e combate ao fogo já ocupava as pautas legislativas muito antes. Registros da Câmara Municipal mostram, por exemplo que, em outubro de 1912, o vereador Antônio Correa Ferraz já defendia a aquisição de um “automóvel apropriado” para a extinção de incêndios e a irrigação da cidade. (LIVRO 24 – FL83V). Outra indicação, do mesmo ano, demonstra a mesma preocupação:
“Indicação nº 23 de 1912
Não dispondo a nossa cidade dos recursos próprios para a extinção de incêndios, nem mesmo quando estes estejam em começo, proponho o seguinte:
a) Fica a Câmara Municipal autorizada a adquirir seis ou mais aparelhos extintores de incêndios, preferindo a marca dos que forem usados pela Companhia de Bombeiros da Capital.
b) Sendo a repartição da polícia a única que está sempre aberta durante o dia e a noite e a primeira que deve ter aviso de incêndios, a metade dos aparelhos adquiridos será depositada naquela repartição para mais prontamente atender aos socorros públicos.
c) A outra metade ficará na Prefeitura Municipal para o mesmo fim constante da letra B.”
Essas propostas, no entanto, viraram cinzas. Não prosperaram.
Os registros demonstram que, embora a estrutura profissional tenha levado décadas para se consolidar, o senso de emergência e a busca por recursos já faziam parte da realidade de Piracicaba desde o início do Século 20. Pode-se até dizer que a fundação do Corpo de Bombeiros da cidade não foi apenas uma resposta a um acidente isolado, mas o fechamento de um ciclo de improvisos que há tempos perdurava.
No dia 2 de julho comemora-se o Dia do Bombeiro, e o “Achados do Arquivo” aproveita a data, não apenas para honrar os heróis que arriscam suas vidas em prol da sociedade, mas também para a homenagear o esforço coletivo da sociedade piracicabana que tornou o trabalho desses profissionais possível de ser executado.
Achados do Arquivo — A série “Achados do Arquivo” é uma parceria entre o Setor de Gestão de Documentação e Arquivo, ligado ao Departamento Administrativo, e o Departamento de Comunicação Social da Câmara Municipal de Piracicaba, com o objetivo de divulgar o acervo que está sob a guarda do Legislativo. As matérias são publicadas às sextas-feiras. (Texto e pesquisa: Natália Paiva Simões Marques, estagiária do Setor de Gestão de Documentação e Arquivo da Câmara Municipal de Piracicaba)




