Indicação de livros: Utopias e Distopias, parte 1
Começamos com Platão, depois seguiremos nos próximos artigos para clássicos como '1984', "Admirável Mundo Novo" e, é claro, a "Utopia" de Thomas More
Nem toda história que descreve o futuro é uma utopia ou distopia. Se a história se encaixa numa dessas ramificações da ficção científica, a sociedade descrita pode estar no futuro, ou numa ilha distante no tempo presente. Até mesmo no passado, como nos casos da Atlântida de Platão ou da Esquéria de Homero.
Utopia é a descrição, com enredo ou não, de uma sociedade ideal, que resolveria todos os problemas de organização social humana. A nota dominante nas utopias é sempre: aqui, somos todos felizes, porque tudo foi organizado para dar certo, e sabemos os motivos disso, e concordamos com eles.
Distopia é a descrição de uma sociedade que funciona, mas que possui alguma coisa errada. Pode até favorecer toda a sociedade, mas de forma manipulada, inconsciente para quem é explorado. A nota dominante nas distopias é: aqui, somos todos infelizes, conscientes ou não disso, porque alguma coisa deu errado.
Utopias e distopias podem se confundir. O que seria uma sociedade maravilhosa para uns, pode ser um inferno para outros. O livro de Thomas More, que criou o termo “utopia” para descrever sociedades “perfeitas”, já era irônico quanto ao termo, explorando a confusão entre as palavras gregas “utopia” (lugar nenhum) e “eutopia” (lugar bom). Um lugar bom não existiria em lugar algum, seria inexistente, somente seria possível no papel, que aceita qualquer fantasia. Assim como o Brasil mostrado nas propagandas do governo federal em 2026.
Não pretendo nem de longe esgotar o tema, e sim, indicar obras, principalmente as clássicas, que entendo terem sido as mais influentes na cultura ocidental. Por isso, obras como Primavera das Flores de Pêssego (Táohuāyuán) e Datong, do Livro dos Ritos (Liji), clássicos utópicos da literatura oriental, não serão apresentadas aqui.
Não abordo aqui utopias ou distopias religiosas, como o Jardim do Éden, a terra da Cocanha, a Terra Prometida, a era de Maitreya e todas as eras de ouro, assim como os paraísos e Hades das tradições religiosas. E outras, propagandas explícitas de ideologias políticas também não, como Looking Backward, de Edward Bellamy e News from Nowhere, de William Morris. Para não falar das utopias socialistas, anarquistas, ecológicas, feministas. Todas essas serão abordadas – religiosas e políticas –, cada tipo, em dois artigos futuros.
República, de Platão: a mãe de todas as utopias (e distopias também)
A civilização já é velha de milênios, quando aparece a primeira obra em texto que propõe uma sociedade perfeita, ordenada racional e sistematicamente, propondo também os instrumentos para realizá-la. Não é que antes da República de Platão as pessoas não tivessem percebido que havia falhas na organização social de sumérios, assírios, egípcios, persas, etruscos, minoicos e micênicos. Mas as civilizações que duraram mais tempo, como a egípcia, tendiam a fundamentar sua organização em tradições religiosas e instituições rígidas, em troca de estabilidade – o que entre os gregos, parou de funcionar quando deixaram de acreditar seriamente em seus deuses, que já não davam conta da complexidade social de sua época – os séculos entre o V e III antes de Cristo.
Os sonhos de uma sociedade perfeita, especialmente entre os sumérios, e depois, entre hebreus e persas zoroastristas, misturavam a ordem política com uma ordem sobrenatural, em que o rei era um “vice-deus”, um representante do deus supremo, ou no caso dos hebreus, o deus único Yavé Sabaoth – para nós, chamado somente de “Deus”. Assim, temos a promessa de Deus a Abraão de uma descendência tão numerosa quanto as estrelas, e a Terra Prometida, onde corre o leite e o mel – uma promessa sedutora, mas que não tem um plano baseado na razão, com cálculo de uso de recursos econômicos, nem formação educacional, nem um código de ética e sobretudo, de governo e estrutura de Estado.
A primeira obra que podemos chamar de utopia, e que é o fundo de todas as obras do gênero, especialmente da “Utopia” de Thomas More – a primeira de seu tipo na modernidade.
Platão usa a figura do seu mestre Sócrates para nos apresentar num diálogo descontraído, entre amigos, suas ideias de como seria um estado ideal. Na sua Cidade, a razão reina soberana, por isso os governantes são reis-filósofos.
A educação deve ser providenciada pelo estado, as crianças recém-nascidas seriam entregues para serem cuidadas e educadas pelo Estado; a família é toda a comunidade, e filhos nunca conhecem seus pais biológicos. Imersos numa coletividade sem laços de famílias, os cidadãos devem seu amor e lealdade à Cidade. Cada um é educado nas virtudes necessárias para cada classe social. A escolha de suas profissões, e modos de vida, são determinadas pela Cidade, identificando-se a classe de cada um de acordo com a sua alma. Não há eleições, porque os governantes também são escolhidos durante o período de formação.
Na República, o indivíduo, conformado em sua classe – exército, artesãos e filósofos – será feliz porque sua formação, e depois sua vida, estará conformada à sua alma de soldado, de artesão, de filósofo.
São os filósofos que planejam tudo - ou melhor, quem planejou tudo foi Platão; digamos que os reis-filósofos somente põem este plano em prática no dia a dia da Cidade. Estes reis são orientados pelo Bem, sendo seu reflexo mais possível, no nosso mundo, do Mundo das Ideias. Por isso, o autor pressupõe que os filósofos nunca errarão, porque a Razão os guia e se espelha em suas virtudes, que garantem a prática do Bem para todos.
Para Platão, os reis-filósofos não tem possibilidade nenhuma de errar, porque são puros, retos, virtuosos, orientados pelo Bem, Verdade, Justiça e Beleza – e talvez aí esteja o seu erro, acreditar na perfeição absoluta de um grupo de seres humanos. Para nós, modernos, soa bastante ingênuo.
O plano traçado pelos filósofos é necessariamente guiado pela Razão. Para nós, diríamos que são razões, que seguem uma lógica baseada em princípios, sendo o maior de todos o Bem Comum prevalecer sobre o bem do indivíduo. Mas nesta ordem platônica, pressupõe-se que o indivíduo não será infeliz, pois está plenamente conformado ao Bem.
Platão-Sócrates advoga o ensino através de fábulas na primeira infância, servindo-se da imaginação como ferramenta para preencher as crianças dos princípios que regem a República. Como Jesus fez com as parábolas, ou o próprio Platão, quando conta o Mito da Caverna. Depois da adolescência, a capacidade de imaginar perde a centralidade. Ser criativo não é uma qualidade esperada em um cidadão de qualquer classe; consumir arte já existente distrairia jovens e os adultos, tirando sua concentração, dispersando-os em prazeres inócuos, sem utilidade. Por isso os poetas e músicos que fazem arte para adultos são banidos da República; o uso das artes é controlado para as pessoas mais jovens, com finalidade restrita à pedagogia, inclusive com censura a Homero e Hesíodo, e proíbe-se de representar os deuses de forma imoral – o que excluiria todo o teatro grego clássico.
Já se disse, mais de uma vez, que o modelo de Platão é bem parecido com o da cidade de Esparta. Em 380 a.C., a democracia ateniense ainda estava se recuperando da Guerra do Peloponeso, ocorrida uma geração antes. Platão é um ateniense desiludido, fruto de uma época amargurada com a democracia que tinha levado sua cidade a uma derrota enorme. Esparta, direta ou indiretamente, inspira-o em sua República, em valores como austeridade, rigidez, disciplina militarizada e severidade – que, como em Esparta, exclui o hedonismo associado às artes miméticas (pintura, escultura, mosaicos etc.).
O ponto o qual alguns autores elogiam e outros questionam: a República de Platão deixa pouco espaço, ou nenhum, para o livre-arbítrio. Planeja uma república onde um sistema educacional detecta “a forma de sua alma” e a Cidade conforma o indivíduo com o que considera as aptidões afins com essa alma. Por isso, se por alguma fatalidade, o indivíduo mudar sua vontade por alguma razão – deixar de ser um soldado para ser um pastor de ovelhas, ou um filósofo querer deixar o cargo para fazer potes de cerâmica - não podem escolher mudar. Mesmo o que venham a desejar seja errado, do ponto de vista da coletividade. Não podem escolher porque a Cidade é sempre justa (a kallipolis platônica), os reis que governam a Cidade perfeitos guardiões do Bem. Escolhas individuais que prejudicassem a coletividade seriam incabíveis, incocebíveis: como alguém perfeitamente conformado ao Bem iria escolher algo que contrariasse este Bem? Para Platão-Sócrates, é impossível que alguém completamente guiado pela razão possa se enganar, seja governante ou governado.
Tal Cidade pressupõe uma confiança absoluta nos reis-filósofos, o que gera uma obediência absoluta – o sonho de qualquer ditador? Ou de qualquer governante? Mas Platão não admite dúvidas: se governado pelo Bem, o rei-filósofo partirá sempre da Justiça, por isso o cidadão pode confiar nele de olhos fechados.
O Bem Comum não equivale ao Estado; antes, o Estado é um guardião do Bem Comum. O ordenamento pela racionalidade é um desejo tão forte de Platão-Sócrates que ele confia que, uma vez apresentados à Razão, os seres humanos não teriam como dar um passo para trás e recusá-la. A confiança cega do autor, esta sim, em governantes guiados por tão forte luz chega a ofuscá-lo. São espelhos tão maravilhosos do Bem, da Verdade e da Beleza, que nem parecem humanos. Talvez descendentes da raça dos atlantes – formadores de outra sociedade perfeita que Platão descreve, nos diálogos “Timeu” e “Crítias”. Que aliás, parece mais convincente que a sociedade da República, pois teve um apogeu e depois decaiu. Tudo porque seus líderes se corromperam – o que vimos acontecer dezenas de vezes nos últimos seis mil anos de civilização – macedônios, persas, romanos, bizantinos, otomanos – a lista é longa.
Obras utópicas como a série brasileira 3% e o livro “A Cidade e as Estrelas”, de Arthur C. Clarke, partem, inconscientemente, de várias ideias platônicas expostas na República. Com elementos tecnológicos e científicos que Platão não tinha à sua disposição. Mas veremos abaixo o quanto a “República” é o modelo tanto de utopias quanto de distopias.
Atlântida, em Timeu e Crítias, de Platão
As Leis, de Platão
Platão inaugurou o gênero da utopia. Mas de um tipo especial, que é ambíguo, como eu disse acima, que soa como um ideal desejável de Cidade e ao mesmo tempo um lugar horrível de estar. Talvez eu afirme isto, porque não nasci na utopia platônica – talvez fosse da classe dos artesãos, e não teria tido a educação para questionar meu lugar na sociedade.
Por isso mesmo – por ser moderno - a Atlântida me parece lugar mais promissor, em termos literários – ou seja, de exploração mental, numa história, do que é mais característico do ser humano: auge e queda, virtudes em grau elevado corrompidas por vícios, causados por preguiça e lassidão, ambição, desejo de poder e de riquezas. A queda política e existencial de Atlântida se dá porque seus habitantes, descendentes diretos de deuses como Poseidon, cedem à parte humana de sua natureza, desordenada e amiga das paixões, renunciando à parte divina de seus seres, racional e ordenada, o que os leva à extinção.
Platão, depois da “República”, parece perceber que o ser humano é mais dado a falhas e menos propenso a aceitar a Razão acima de tudo, uma vez exposto a ela. O mito da Atlântida é um sinal desse desenvolvimento de raciocínio, talvez calcado em suas próprias experiências na Magna Grécia.
Por fim, em “As Leis”, acaba chegando à conclusão que um ordenamento dado por leis muito bem elaboradas, de acordo com a Razão, seriam uma base sólida para o bom funcionamento da sociedade, um instrumento mais realista, mais próximo de possibilitar uma sociedade se tornar perfeita, ou próximo disso – antecipando a importância das constituições e ordenamento jurídico que marcaria as sociedade modernas.








