Continuo nesta semana indicando livros, filmes e séries sobre o Mal.
Há quem argumente que absolutamente TODAS estas formas artísticas, além de músicas, teatro, dança, discos de vinil e jogos de computador tem como assunto, no fim das contas, o Mal que mora no coração humano. Ou mesmo nossas obras de engenharia, ciência e religião, além do mais importante, nossos comentários no Facebook e no twitter.
Não vou discordar nem concordar, ficando em cima do Muro das Lamentações quanto a este assunto.
livro: O Livro de Jó (Bíblia, Antigo Testamento)
Música: Sobre todas as coisas, de Chico Buarque e Edu Lobo
Ia o Diabo passando pela Corte Celeste, quando acontece o seguinte diálogo:
DEUS, casualmente:
- Como estão as coisas? Por onde tem andado?”
DIABO, jogando o verde:
- Andei por aí, pela terra.
Notem que parecem ser Deus e o Diabo velhos camaradas.
DEUS, se gabando:
“E notou o meu servo Jó? Ele é o meu servo mais fiel”.
DIABO:
“Ele só bendiz ao Senhor Deus porque tem tudo e mais um pouco. Tire tudo o que ele tem, e ele passará a amaldiçoá-Lo.”
Vale dizer que Jó tinha mesmo de tudo: propriedades, dinheiro, escravos, posição social, esposa fiel, bonita e carinhosa, além de muitos filhos, todos obedientes e amorosos.
DEUS:
“Sei o que você pensando, pois Eu sei tudo. Pode tirar tudo o que ele tem, só não lhe tire a vida. Ele vai se manter firme, e vai Me louvar até fim”.
DIABO:
“Duvido, mas é o Senhor é quem manda”. Não, não, ele não diria isso. Mas foi algo nesse espírito.
Fico pensando em que diabos, ou melhor, em que anjos o Senhor pensou quando aceitou essa “aposta”. Educar o Diabo? Mas ele não pode mais mudar, assim como Deus. Educar a Jó? Sim, isso é mais plausível, mas à custa de tanta provação? E no final do livro (vou dar um spoiler, mas vale a pena ler pela forma como a história é contada, e não tanto pelo enredo), Deus, e não o Diabo, submete Jó pessoalmente a uma provação final.
Depois de ter suas doenças pioradas pelo Demo, com permissão do Senhor, além de todas as tentações para maldizê-lo, vindas de sua própria esposa e também de um grupo de amigos muito próximos, Jó se mantém firme e profere as palavras famosas, repetidas por todo cristão da Renovação Carismática: “Deus dá, Deus tira, bendito é o nome do Senhor”. Mas ainda assim, com toda essa fidelidade, o Senhor não parece satisfeito. Ele dá um baita sermão em Jó, que se estende por páginas, onde Deus se mostra como o Iavé-Sabbaoth terrível do Antigo Testamento, severo, enfurecido e aterrador, colocando Jó moralmente no rés do chão.
Uma prova, entendemos, mas seria muito humano se Jó pensasse: “Pôxa, estou do Teu lado desde o começo, não precisa me humilhar”. Mas é justamente isso que Deus faz. Jó não pensa nem fala muita coisa, a não ser que está à disposição e que qualquer julgamento de Iavé é aceitável, mesmo os injustos, pois se nos parece injusto, é “porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos, os meus caminhos, diz o Senhor”, como dito em Isaías, 55-8-9.
Ao fim e ao cabo, Jó recebe tudo o que tinha de volta em dobro, porque não abriu mão de sua fé. Uma confiança inabalável em Deus.
Mas não é assim que entende Edu Lobo e Chico Buarque em sua canção “Sobre todas as coisas”: ali, o questionamento se manifesta um tanto distante do espírito do livro de Jó. Os dois compositores olham para Deus como se fosse um latifundiário, proprietário de terras que não quer dividir com ninguém. É um Jó preocupado mais em reforma agrária do que em agradar a Deus:
Ou será que o deus / Que criou nosso desejo é tão cruel / Mostra os vales onde jorra o leite e o mel / E esses vales são de Deus
Ou seja, os vales “onde jorra o leite e o mel” são “de Deus”, e ele nos faz sofrer, não querendo dividí-los conosco. A música tem melodia muito bonita, mas à letra falta uma compreensão melhor do que significa o sofrimento humano em face da Vontade Divina - seja qual deus estivermos falando: Iavé, Alá, Zeus, Hera ou Atena, o Destino ou as Parcas.
Pergunta que o Livro de Jó não resolve, complicando ainda mais o mistério de como funciona a Mente de Deus. Este livro me repele e ao mesmo tempo me atrai com uma aura de estranheza, aquela sensação esquisita que sentimos quando o lemos, um eterno enigma além das nossas capacidades de resolvê-lo. É a estranheza que o crítico americano Harold Bloom dizia que todo clássico possui. O Livro de Jó parece unir o drama do Povo Eleito de Israel e seu Deus Único com as tragédias gregas. Quase poderíamos dizer como o faz Macbeth, se não fosse o final feliz: “Assim como moscas para meninos travessos, nós somos para os deuses. Eles nos matam por esporte.”
Poema épico: Paraíso Perdido, de John Milton
Peça teatral: Macbeth, de William Shakespeare
Filme: Macbeth, dirigido e interpretado por Orson Welles
Série: House of Cards, de Beau Willimon (Netflix)
Ambicionar o poder a qualquer custo torna o que já é encarado como algo maléfico em uma postura digna do próprio Demônio. Em Paraíso Perdido, é justamente a história do Criador do Mal, o Pai da ambição sem limites e do orgulho infinito, dois vícios-modelo para todos os vilões da História, e também da literatura.
Dá para ser mais ambicioso que desejar tomar o lugar de Deus? Acho que não.
O Satanás de “Paraíso Perdido” passa uma sensação tão estranha quanto a do Deus do Livro de Jó, aquela sensação de incapacidade de que qualquer humano possa entender as dimensões do que se passa ali, mas mesmo assim Milton faz questão de nos colocar como espectadores privilegiados. Mas é como se estivéssemos assistindo a transmissão ao vivo do Fim do Mundo, confortavelmente sentados em nossas poltronas, enquanto rios de lava circundam a nossa sala de estar.
Macbeth é muito menor que Satanás, mas o tamanho da sua ambição, e como a expressa, concorre com a do seu modelo. Descrever sua ambição somente como “fazer de tudo para obter o trono da Escócia” é reduzir muito sua capacidade maléfica. Pior que ele, somente sua esposa, Lady Macbeth. Como dizem os Beatles: “She’s got the devil in her heart” (ela tem o diabo no coração). Uma lady, mas de forma alguma um anjo. Somente se lembrarmos que os demônios eram anjos da Queda. Para terem uma pequena ideia, ela diz que esmagar os miolos de um bebê é algo válido, desde que ao final ela e seu marido sejam coroados rei e rainha da Escócia. As bruxas que profetizam o destino de Macbeth são até boazinhas, se comparadas a esse casal macabro.
Aqui está a inspiração direta e declarada de Frank e Claire Underwood, protagonistas, mas não “mocinhos”, da série “House of Cards”.

Não há bem que sempre dure, nem mal que nunca acabe, por isso hoje vamos ficando por aqui. Semana que vem tem mais.



