
Dizem que escritores com “E” maiúsculo escrevem somente sobre dois temas: a vida e a morte.
Dizem também que Vida e Morte são outros nomes do Bem e do Mal.
VI, nossa coluna de indicações culturais, na qual tentaremos fazer resenhas breves (vamos fazer força), partirá de um tema para indicar livros, filmes e outros conteúdos que vão fazer valer a pena para você, a ponto de ter de sair um pouco da frente do celular. Ou quem sabe, mantê-lo ainda mais tempo grudado nele.
Começamos com um tema fácil, leve e divertido: o mal.
O Mal, parte 1: Pequeno “esquenta” filosófico
O que é o mal?
Aquilo que nos falta ou aquilo que nos sobra, e nos faz cair? Ou tudo aquilo que não temos, mas pelo qual matamos (figurativa ou literalmente)?
As pessoas são más por natureza, ou a sociedade que as torna assim?
Faz parte do coração do ser humano? O coração das trevas?
Ou algo ou alguém “de fora” o injeta na pessoa?
Egoísmo é uma face do mal, ou é autopreservação? Ou empoderamento?
O mal que fazemos às pessoas que amamos é do mesmo tipo que fazemos contra quem odiamos?
Você escolhe entre o Bem e o Mal, como diz Roberto Carlos na música, “é fácil escolher” e basta “saber viver”?
Ou o Destino escreveu o roteiro do seu percurso na Terra?
FILMES e SÉRIES
Coração Satânico (1987), direção de Alan Parker
O Advogado do Diabo (1997), direção de Taylor Hackford
Começamos pelo mais básico: se você faz algo errado, vai querer culpar alguém, que, lógico, não é você. Culpar o Diabo? Ótimo! Como disse Eva, empurrando a culpa: “a serpente me tentou e eu comi”. Adão, por sua vez: “ela me deu o fruto, e eu comi”. Então culpemos o Diabo, por nos tentar. Se caímos na tentação, podemos dizer que a decisão não é nossa, pois o Destino, ou melhor, Deus ou o Diabo, nos predispuseram a fazer aquela escolha.
Não dá o braço a torcer? Como diz o diabo em um dos filmes acima: “orgulho, meu pecado favorito”.
E em outro dos dois, a frase “você está certo, mas vai preso do mesmo jeito” nos faz vestir a carapuça. Da Prada ou da Shoppee, não importa, você vai pagar a taxa da blusinha do mesmo jeito.
Breaking Bad (2008-2013) e Better Call Saul (2015-2022), de Vince Gilligan
Qual é o empurrãozinho que você precisa para fazer algo bom para você, mas ruim para muita, muita gente? Um dos motivos pode ser que você tem câncer e irá morrer muito em breve. Tem a ideia, conhecimento e capacidade de fabricar uma droga ilegal, com um grau de pureza maior que todas as outras no mercado, e por isso irá alcançar um ótimo preço e terá vendas astronômicas. E com tudo isso, vai garantir um pé-de-meia para seus entes queridos. No processo, descobre que vai ter que mentir, roubar e até matar. Diverte-se fazendo tudo isto. Gosta da adrelina da coisa toda. Fazer o pé-de-meia, no fim das contas, não é tão importante assim. Nem urgente. Nada importante. O vício de uns é a metaanfetamina, de outros é a adrelina. Eis Walter White.
E do outro lado do ringue, está Jimmy McGill. Na verdade, do mesmo lado de White. O empurrãozinho, para Jimmy, é o fato de nunca lhe terem dado uma chance de provar que ele era bom. Mesmo que não seja. Então ele vai simular que é bom, para fazer um bem. Somente para si. Mas “simular”, em alguns territórios, também é chamado de mentir, trapacear e outros verbos, a maioria deles tipificados no Código Penal.
Dogville (2004), direção de Lars von Triers
Os filmes de Lars von Triers sempre debatem o mal que pessoas comuns são capazes de fazer. O mal está no homem, ou ele vem de fora e a ele apenas reagimos?, é uma pergunta central em sua obra. A resposta do dinamarquês não vai agradar a todos. Quem acredita que cachorro é melhor que ser humano vai se identificar. Uma das possíveis interpretações do nome “Dogville”. As histórias do cineasta sempre são provocativas, cutucam em pontos que com certeza vão te incomodar.
LIVROS
Os Irmãos Karamazóvi (1880), de Fiodor Dostoievski
A ideia de que “família é pra se cuidar”, formulação própria de filmes da Disney, é necessária para a coesão social e incentivo de sentimentos construtivos, embora melosa e ingênua quando formulada pela Disney. Mas quando se trata de analisar a maldade presente no cotidiano, na forma como tratamos as crianças, filhos ou não, os familiares, amigos, vizinhos, conhecidos, sem pensar no ideal mas na realidade nua e crua, é no romance “Os Irmãos Karamazóvi” que vamos encontrar representações convincentes da maldade do dia a dia.
Por ter sido escrito no século XIX, é claro que todo o livro abrange o debate sobre Deus permitir o mal, quais seriam Seus propósitos neste quesito, e como os seres humanos devem se portar a respeito. Vistos com uma lupa cruel, todos os personagens do livro têm defeitos gritantes e do ponto de vista dos próprios meliantes, são pecadores “óbvios e ululantes”, como diria Nelson Rodrigues. Até mesmo o ancião Zózima, considerado um santo por todos. O único personagem verdadeiramente bondoso, Aliocha, se acusa de ter pecados e defeitos, mas ninguém se convence disto, nem o leitor, pois Dostoievski o retrata como fonte de alegria para todos, surpreendente inspiração para homicidas e pilantras de todos os tipos, incluindo mocinhas mimadas, alpinistas sociais e, claro, seus irmãos e o pai asqueroso.
O Morro dos Ventos Uivantes (1847), de Emily Brontë
O amor pode ser destrutivo? Este é o ponto de partida do romance da autora inglesa. Vale dizer que está completamente dentro do espírito do romantismo, e não estou falando da forma ilustrada nas músicas de Roberto Carlos. E sim, do movimento artístico, cujo maior ídolo, Lord Byron, se suspeita ter tido um relacionamento carnal com a irmã.
Brontë mostra o quanto o amor se torna uma obsessão doentia e destruidora, pois envenena mais de uma geração. E como gostam os autores românticos, buscam alívio e realização na sepultura.
Heathcliff e Cathy são “os amantes que nunca foram”, impossibilitados de viver sua história não somente por causa da posição social desigual – o que acaba se tornando algo menor - mas muito mais por caprichos e decisões equivocadas de ambos os apaixonados. Livre arbítrio ou destino? O leitor que decida.
(E a propósito, esqueça o filme-bobagem deste ano, com o mesmo título. Dizem que é baseado no romance. Está mais para um clickbait.)
Semana que vem temos mais. E maus também.


