Exposição conta a história esquecida de indígenas do interior paulista
No Museu de Arte Contemporânea (MAC) da USP, o artista Irineu N’je Terena mostra como o avanço das ferrovias e das cidades na região de Bauru provocou a morte de indígenas e a destruição do ambiente

“Meu pai diz que somos da cor da cerâmica. Então eu relacionei pela arte a argila, a história e a tradição ancestral do meu povo Terena”, afirma Irineu N’je Terena, artista indígena que assina a exposição Boca do Sertão, em cartaz até 28 de junho no Museu de Arte Contemporânea (MAC) da USP. Na mostra, ele explora as contradições entre as narrativas sobre o progresso promovido pelo homem branco e a morte de indígenas no interior de São Paulo, ao mesmo tempo em que constrói arte como forma de expressão da identidade do povo Terena, do qual é originário. “Estou usando a arte para divulgar a história indígena esquecida”, disse Irineu à reportagem.
A curadora Fernanda Pitta explica que a exposição conta um pouco do que representaram para o sertão paulista, a partir da segunda metade do século 19, a chegada do progresso e o avanço das ferrovias, das cidades e das fazendas de gado, sempre na perspectiva indígena – incluindo a morte de indígenas, o envenenamento de rios e a derrubada de florestas. “É a partir da presença do trem, da linha, do barro e das estradas de ferro que o artista amarra esses elementos para contar essa história invisibilizada”, afirma Pitta. A ideia da exposição surgiu depois que ela se sensibilizou com uma performance em vídeo de Irineu – exibida numa televisão na exposição -, que mostra o corpo do indígena jogado sobre dormentes empilhados.
Uma instalação da mostra, intitulada Corpos-Dor-Mente, traz pedaços de dormentes da antiga ferrovia que corta a região de Bauru (SP) – onde habita a comunidade Terena a que Irineu pertence –, atravessados por linhas vermelhas trançadas e posicionados do maior para o menor. Fernanda Pitta interpreta a peça como um retrato das mortes de indígenas ao longo de gerações, desde o bisavô até o bisneto. “Na narrativa de Irineu, os dormentes são os corpos que serviram para assentar o progresso. Assim como se derrubaram as árvores para a construção dos dormentes, foi em cima de corpos indígenas que aquela ferrovia, antes vista como progresso e hoje desativada, foi construída”, reflete a curadora, enfatizando a “retórica vazia do discurso desenvolvimentista” e o desuso das ferrovias. “Nada justifica toda essa violência”, acrescenta.
Um ponto central da exposição são as cerâmicas de Irineu, três cabeças indígenas expostas lado a lado. As duas primeiras carregam buracos de bala nos rostos e à terceira falta uma orelha, que ilustram o poema também chamado Corpos-Dor-Mente, impresso na parede atrás das cabeças de cerâmica.
Irineu diz que o povo Terena carrega uma tradição de artesanato e tecelagem, mantida especialmente por mulheres ceramistas. Em busca de fortalecer essa identidade terena em sua arte, ele foi ao Mato Grosso estudar a técnica ancestral e verificar como as mulheres Terena faziam a pintura e trabalhavam a argila. “Eu entendi a importância desse legado: despertar nas mulheres aquilo que elas já sabiam sobre a tradição ancestral da cerâmica. Então fiz vários projetos e dei cursos na nossa aldeia”, explica Irineu, destacando a educação artística como forma de compreensão e vivência da identidade. “Eu falo para elas que a cerâmica tem mais valor nas mãos delas do que nas minhas. Eu ensino, mas uma hora eu vou embora, e elas vão ficar lá, andando com as próprias pernas.”
Irineu se aproximou da arte da cerâmica através da mitologia terena, que inclui uma narrativa ancestral sobre a criação do mundo. Segundo essa narrativa, Orekayuvacai, figura central naquela mitologia, encontra pessoas num brejo da floresta, coberto por capim, que se transforma numa grande fogueira. “Um pensamento meu, conversando com meu pai, é que esse brejo é a própria argila, que precisava do fogo para passar por uma transmutação. É o mesmo processo que acontece com a argila para se transformar em cerâmica.”

Outro projeto de Irineu exibido em Boca do Sertão é um painel cartográfico, colocado numa das paredes da exposição, com desenhos que formam uma linha do tempo não cronológica da presença indígena no Estado de São Paulo. Fernanda Pitta explica que a obra surgiu numa oficina ministrada pelo artista, durante uma conversa com alunos, quando ele percebeu a necessidade de criar um mapa das aldeias existentes em São Paulo, numa contranarrativa à ideia de que os indígenas estariam concentrados no Norte e no Centro-Oeste do País.
Sobre seu processo espiritual de conexão com a arte, Irineu conta: “Minha avó colocou a mão sobre meu ombro e disse que, onde eu colocasse os pés e as mãos, ela estaria comigo. Ela colocou uma pelota de barro em minha mão, e só depois entendi que era uma pelota de argila. E foi um legado deixado para mim, como Terena”.
O nome Boca do Sertão – como indica a exposição – evoca a ideia de entender as origens profundas daquilo que está à beira, quase lá, ainda sem atravessar por completo, como a divisa subjetiva entre o mundo urbano construído por colonizadores e a vida indígena que existe e resiste no interior de São Paulo. A mostra foi realizada com recursos do governo do Estado de São Paulo (Fomento Cult SP ProAc Editais), por meio da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas.
A exposição Boca do Sertão, de Irineu N’je Terena, fica em cartaz até 28 de junho de 2026, de terça-feira a domingo, das 10 às 21 horas, no Museu de Arte Contemporânea (MAC) da USP (Avenida Pedro Álvares Cabral, 1.301, Ibirapuera, em São Paulo). Entrada grátis. Mais informações estão disponíveis no site do MAC.
Matéria: Nina Nassar | Jornal da USP.





