
Uma parceria entre o Instituto Perdizes e o Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) está recrutando adolescentes de 12 a 17 anos para participar de uma pesquisa sobre o uso problemático de internet, celulares, jogos on-line e redes sociais. O estudo prevê uma avaliação inicial e o acompanhamento dos participantes durante seis meses.
De acordo com a pesquisa TIC Kids Online Brasil, produzida pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), vinculado ao Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), 92% dos brasileiros de 9 a 17 anos eram usuários de internet em 2025, o que corresponde a cerca de 24 milhões de crianças e adolescentes.

Quando o uso se torna um problema
Carla Cavalheiro Moura, psicóloga clínica e coordenadora do grupo de dependências tecnológicas do Programa Ambulatorial Integrado dos Transtornos do Impulso (Pró-Amiti), explica que os problemas relacionados ao uso da tecnologia não surgem de uma hora para outra. Segundo ela, o que pode causar prejuízos são determinadas atividades realizadas na internet, principalmente jogos eletrônicos e redes sociais.
Ainda não há dados conclusivos que indiquem se o problema é mais frequente entre meninos ou meninas. A especialista observa, porém, que os meninos podem apresentar maior predisposição a problemas associados ao excesso de jogos eletrônicos, enquanto entre as meninas os prejuízos podem estar mais relacionados ao uso excessivo de redes sociais.
Moura ressalta que a expressão “dependência tecnológica” não corresponde a um diagnóstico formal nos principais manuais de classificação de transtornos mentais. O tema é estudado internacionalmente sob a perspectiva do uso problemático da tecnologia. Entre os quadros reconhecidos está o transtorno do jogo eletrônico (gaming disorder).
“O diagnóstico não é feito apenas com base no tempo de uso, mas também no contexto, na qualidade, na forma e na função desse uso, inclusive quando a tecnologia é utilizada para regular o humor”, explica a psicóloga. A avaliação também considera os prejuízos em diferentes áreas da vida, como o desempenho acadêmico, as relações sociais e os relacionamentos, além do sofrimento psíquico. Entre as condições que podem estar associadas ao uso problemático estão a depressão e a ansiedade.
Impactos no desenvolvimento
Nicolas Kohatsu Matakas, psiquiatra da infância e adolescência, coordenador da pesquisa e médico assistente do Instituto Perdizes, destaca que o uso excessivo de tecnologia pode comprometer o desenvolvimento de habilidades durante essa fase da vida. “A tecnologia vai ocupando um espaço que antes era mais livre”, afirma.
Para o médico, ainda são necessárias mais pesquisas científicas para compreender os efeitos desse comportamento a longo prazo, especialmente sobre a aprendizagem, o raciocínio lógico e a capacidade de organizar o pensamento. A questão ganha relevância diante da crescente utilização da inteligência artificial.
Matakas também ressalta a importância do acompanhamento dos adolescentes e da participação dos pais na construção de hábitos mais saudáveis. “Uma parte central do nosso acompanhamento é realmente estar sempre muito próximo dos pais, acompanhar e dar orientações a respeito de hábitos mais saudáveis em relação ao uso da tecnologia”, explica.
Como participar
A participação na pesquisa começa com o preenchimento de um formulário eletrônico, no link:
https://redcap.hc.fm.usp.br/surveys/?s=T9E99N7X9LN7AL9L
Podem se inscrever adolescentes de 12 a 17 anos, que passarão por uma avaliação inicial e serão acompanhados pela equipe durante seis meses.
Desenvolvida em parceria com o Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP, a iniciativa busca ampliar o conhecimento sobre o uso problemático da tecnologia na adolescência, identificar possíveis prejuízos e contribuir para a orientação dos jovens e de suas famílias.
Fonte: Jornal da USP.




