
Controlar a inflamação intestinal nem sempre significa que o paciente voltou a ter qualidade de vida. Para enfrentar esse desafio, pesquisadores da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) desenvolveram um modelo de medicina de precisão que propõe incorporar fatores como saúde mental, qualidade do sono, alimentação e atividade física ao tratamento.
Publicado na revista eClinicalMedicine, do grupo The Lancet, o estudo adapta o conceito de traços tratáveis às doenças inflamatórias intestinais. Em vez de concentrar a atenção apenas na atividade inflamatória, o modelo estabelece que os profissionais devem identificar condições mensuráveis e tratáveis de acordo com as necessidades de cada paciente. A proposta, que ainda é um modelo conceitual, começa a ser incorporada ao Ambulatório de Doenças Inflamatórias Intestinais do Hospital das Clínicas (HC), onde os primeiros resultados têm sido considerados promissores.
Segundo Carolina Graciolli Facanali, doutoranda do programa de Gastroenterologia da FMUSP e primeira autora do artigo, a ideia é ampliar a forma de acompanhamento dos pacientes e olhar além da inflamação intestinal, ao incluir outros domínios e traços que podem ser abordados. “A nossa proposta muda o paradigma de focar apenas na inflamação e passa a enxergar o paciente como um todo”, afirma.
Em trabalho publicado anteriormente, os pesquisadores identificaram que pacientes com doença de Crohn e inflamação intestinal ativa apresentavam pior qualidade do sono, fadiga e maior frequência de sintomas de ansiedade e depressão. As evidências reforçam a influência da inflamação nos aspectos físicos e emocionais da doença, e motivaram a busca por uma abordagem mais abrangente.

“Na prática clínica, percebemos que muitos pacientes continuavam com limitações importantes, mesmo quando a inflamação estava controlada. Isso nos levou a buscar uma forma mais ampla de avaliar a doença” – Carolina Facanali
As doenças inflamatórias intestinais incluem principalmente a doença de Crohn e a retocolite ulcerativa, doenças crônicas que provocam inflamação no sistema digestivo e costumam causar sintomas como diarreia, dor abdominal, presença de sangue ou muco nas fezes e perda de peso. O artigo aponta que essas doenças decorrem da combinação de diferentes fatores, como predisposição genética, alterações no sistema de defesa do organismo e influências ambientais.
Além da inflamação
Para Carlos Sobrado, orientador da tese que deu origem ao artigo e coordenador do Ambulatório de Doenças Inflamatórias Intestinais do HC da FMUSP, a motivação da pesquisa surgiu da prática clínica, ao se observar que alguns aspectos raramente eram abordados na consulta.
“A gente perguntava sobre diarreia, sangramento e dor, mas quase ninguém perguntava se o paciente dormia bem, se tinha depressão ou se fazia atividade física, logo, percebemos que precisávamos fazer muito mais do que tratar a inflamação” – Carlos Sobrado
Segundo Celso Carvalho, coorientador da tese e docente da FMUSP, a doença é ligada a todos os demais aspectos do paciente. Foi dessa percepção que surgiu a proposta de aplicar às doenças inflamatórias intestinais os princípios da medicina de precisão, que busca oferecer o tratamento mais adequado para cada paciente, considerando as características individuais que influenciam a evolução da doença.
Os pesquisadores adaptaram o conceito de traços tratáveis, já utilizado em outras especialidades médicas. Segundo Carolina Facanali, a estratégia consiste em identificar fatores que podem ser medidos e modificados ao longo do tratamento, permitindo que as intervenções sejam direcionadas às necessidades de cada pessoa.
Gráfico conceitual de características tratáveis na doença inflamatória intestinal – Foto: Reprodução do artigo
De acordo com Carvalho, os traços tratáveis não substituem o controle da inflamação intestinal, mas complementam o cuidado. “São questões que aparecem no paciente e que podem ser tratadas em paralelo com a doença.” A proposta é organizar a avaliação de forma mais sistêmica, para atuar sobre os fatores separadamente.
No novo modelo, esses traços foram organizados em três grupos. O primeiro reúne os fatores diretamente ligados à doença intestinal, como atividade inflamatória, alterações estruturais do intestino e resposta aos medicamentos. Nesse conjunto, permanecem as estratégias já utilizadas na prática clínica, como exames laboratoriais, colonoscopia e avaliação da cicatrização da mucosa, fundamentais para controlar a inflamação.
O segundo domínio contempla manifestações que ocorrem fora do intestino e outras comorbidades associadas à doença, como anemia, osteoporose, problemas articulares, lesões de pele, alterações oculares e doenças hepáticas. Segundo os autores, esses fatores compartilham mecanismos inflamatórios com a doença intestinal e exigem acompanhamento multidisciplinar para evitar complicações e melhorar a qualidade de vida.
O terceiro domínio engloba fatores psicológicos e comportamentais que influenciam diretamente a evolução da doença. Entre eles estão alimentação, estado nutricional, tabagismo, fadiga, qualidade do sono, atividade física, adesão ao tratamento, apoio familiar, ansiedade e depressão. Esses aspectos, muitas vezes tratados como secundários, podem interferir tanto na resposta ao tratamento quanto na percepção de bem-estar do paciente.
Para transformar esse conceito em uma ferramenta prática, os pesquisadores desenvolveram um fluxograma que orienta a tomada de decisão clínica. O processo começa pela identificação dos traços tratáveis de cada paciente. Em seguida, esses fatores são priorizados de acordo com sua relevância clínica e potencial de modificação.

A partir dessa avaliação, a equipe define intervenções específicas para cada necessidade, mantendo o controle da inflamação intestinal como base do tratamento, mas incorporando ações voltadas aos demais aspectos identificados. “Você identifica cada traço, faz uma priorização e aborda cada um deles de acordo com a necessidade daquele paciente. É uma organização”, explica Carvalho.
O artigo aponta que, com os tratamentos atuais, apenas 40% a 50% dos pacientes alcançam uma remissão sustentada, que ocorre quando o controle da doença é mantido ao longo do tempo, sem o retorno da atividade inflamatória e dos sintomas. Por isso, o objetivo deixou de ser apenas controlar os sintomas e passou a buscar uma remissão mais profunda e duradoura, que considera diferentes aspectos da doença e também a experiência do paciente.
A médica explica que alcançar a remissão da doença não significa recuperar todos os aspectos da qualidade de vida do paciente. “A remissão de doença quer dizer que o paciente está sem sintomas do trato gastrointestinal”, afirma. Mas, segundo ela, o cuidado precisa ir além: não é só cicatrizar a mucosa, é ir além da inflamação intestinal, e tratar o paciente de forma integral.
Fluxograma clínico para a implementação de características tratáveis na doença inflamatória intestinal – Foto: Reprodução do artigo
Conexão entre intestino e cérebro
A relação entre a inflamação intestinal e a saúde mental passa pelo eixo intestino-cérebro, uma comunicação de mão dupla entre os sistemas digestivo e nervoso. O artigo aponta que mediadores inflamatórios, como as citocinas, podem circular pelo organismo e influenciar a atividade do sistema nervoso.
Os pesquisadores ressaltam que essa conexão não deve ser interpretada apenas como uma reação emocional do paciente à doença. Carvalho explica que processos inflamatórios podem estar relacionados tanto às doenças inflamatórias intestinais quanto a alterações de saúde mental. “Elas compartilham processos e vias imunoinflamatórias comuns”, afirma.
As vias imunoinflamatórias compartilhadas são mecanismos biológicos que podem participar tanto da inflamação intestinal quanto de alterações relacionadas à saúde mental. Segundo Carolina Facanali, estudos realizados pelo grupo encontraram associação entre a intensidade da inflamação e esses sintomas.
Essa mudança também aparece nos estudos clínicos, que passaram a incorporar medidas relatadas pelos próprios pacientes. Entre elas está o IBDQ (Inflammatory Bowel Disease Questionnaire), questionário que avalia o impacto da doença na qualidade de vida. A ferramenta complementa os resultados de exames clínicos, laboratoriais e endoscópicos ao registrar como o paciente percebe sua própria condição.
Os autores reiteram que o artigo apresenta um modelo conceitual, e que impactos clínicos em larga escala ainda não foram investigados. Mas com a proposta adotada no Ambulatório de Doenças Inflamatórias Intestinais do HC, os primeiros resultados se mostram promissores.
De acordo com Sobrado, a equipe pretende acompanhar os pacientes por cerca de um ano para avaliar, na prática, se a abordagem melhora indicadores como adesão ao tratamento, qualidade de vida e evolução clínica. “A curto prazo, em nossa visão, tem sido excelente, mas precisamos acompanhar os pacientes para avaliar os resultados de forma mais consistente”, afirma.
Além de Carolina Graciolli Facanali, primeira autora do artigo, de Carlos Sobrado Jr., e de Celso Carvalho, o estudo contou com a participação do gastroenterologista Márcio Roberto Facanali Jr., do Departamento de Gastroenterologia da FMUSP, e do pesquisador Charles N. Bernstein, da Universidade de Manitoba, no Canadá. A pesquisa foi desenvolvida como parte do projeto de doutorado de Carolina Facanali, no Programa de Gastroenterologia da FMUSP.
Matéria: Amanda Yoshizaki | Jornal da USP.






