Revisitando o jacaré da oficina.
Uma certa oficina mecânica do interior paulista, na década de 80.

Meu pai foi mecânico de carros a vida inteira. Como ele mesmo corrigia, “mecânico de autos”. Minha mãe, orgulhosa, dizia: “o pai é o melhor mecânico da cidade”. Acho que era mesmo, mas a cidade não era muito grande: na época, não havia tantos profissionais da área, e mais importante, a manutenção de carros não era dominada pelas concessionárias, como é hoje.
Quando criança, ele levava a mim e ao meu irmão, um ano e meio mais novo que eu, para “ajudá-lo”, na época de férias escolares. Era uma tentativa de nos ensinar o valor do trabalho, numa época em que ainda não tinham começado as restrições ao trabalho das crianças. Para ele e minha mãe, que tinham começado a trabalhar com 9 anos, não permitir que uma criança ajudasse no orçamento doméstico, e ainda não valorizar o que tinha, pelo próprio trabalho e o trabalho dos pais, era um absurdo: repetiam sempre “somos pobres, precisamos trabalhar”.
Mesmo o meu pai tendo uma oficina mecânica só dele, que garantia duas coisas: o pagamento de dívidas e muita dor de cabeça, pois meu pai tinha a cabeça de um funcionário, e não de patrão. Perdeu muito dinheiro e acabou fechando a maior oficina dentre outras que teve. Esta, com mais dois sócios, fechou pelo fato dos sócios não saberem administrar tanta prosperidade.
Verdade seja dita, ele sempre nos sustentou, e bem. Jamais deixou faltar nada em casa, fora o arroz, feijão e bife de todos os dias. Eu e meus irmãos tínhamos muitos doces e gibis, videogame Atari na época, bicicleta, fora brinquedos nas datas comemorativas.
Não segui a carreira profissional do meu pai, nem meu irmão. Meu pai é frustrado com esse fato da vida até hoje. Mesmo assim, aprendi com ele, na oficina, muitas coisas que apliquei no ateliê artístico e nas aulas de Artes: limpeza (meu pai era um mecânico absolutamente limpo, fazia questão disso, ainda contrapunha seu exemplo ao de outros mecânicos de oficinas “boca de porco”, ele não, havia se formado em cursos certificados pela Volkswagen, em São Bernardo do Campo), ordem (meus pinceis, tintas e material precisam estar arrumados como as ferramentas nos painéis da oficina do meu pai), apuro técnico (plena consciência das técnicas, e constante aperfeiçoamento) e capricho (fazer tudo bem feito, para sua própria satisfação e a do cliente, para serví-lo: isso dá a sensação de dever cumprido e permite colocar a cabeça no travesseiro à noite com tranquilidade, dizia o meu pai).
Fora estas lições, nós aproveitávamos o ambiente da oficina, diferente de casa e da escola. Havia a oportunidade de mexer com gasolina – na época, a limpeza de carburadores, blocos de motor e qualquer peça do carro era feita com gasolina ou querosene -, além de estopa, graxa, aplicadores de óleo que lembravam uma lâmpada do Aladim. As embalagens de papelão, em que vinham as peças novas, viravam brinquedos. Lembro-me bem das embalagens da Cofap, minhas preferidas, em que vinham uma peça da suspensão - como filho de mecânico, confesso uma vergonha: uma ignorância quase invencível a respeito de peças de automóveis; não me lembro o nome da peça em que vinha minha embalagem de papelão preferida. As latas de óleo serviram, durante muito tempo, como peças de pirâmides, colocadas sobre muros ou tambores, com alvo de bolinhas de meia arremessadas à distância.
Ferramentas eram menos divertidas, mas havia um alicate de pressão em que eu gostava de mexer por conta do barulho que fazia, na despressurização – tssssss...
Mas uma das ferramentas era imbatível para as brincadeiras, o jacaré de oficina. O nome correto é “macaco jacaré”, pois é uma variação do macaco de erguer o carro para trocar pneus, muito menor, portátil. Para quem não conhece, segue uma imagem.
Que engraçado, os jacarés do tempo do meu pai tinham essa peça que levantava mais longa. Não achei uma única foto miserável de um jacaré daquele tempo.
A função do jacaré é a mesma do macaco, mas a ideia é sustentar o carro erguido pelo tempo necessário para que o mecânico possa olhar embaixo – suspensão, rodas, partes do motor que eram acessíveis somente por baixo. Era utilizado na maioria das vezes para se verificar o problema e gerar um orçamento. Mas também possibilitava fazer alguns reparos, na ausência de um elevador. Já na época os elevadores substituíam os jacarés. Em algumas épocas prósperas, meu pai teve oficinas com elevadores, mas nunca deixou de ter jacarés.
O jacaré basicamente é uma alavanca, e volta à posição de repouso acionando-se a despressurização hidráulica. É uma ferramenta muito divertida para crianças pequenas. E por isso mesmo, meu pai começou a proibir as brincadeiras nele. Entendo perfeitamente, e hoje concordo.
Mas na época, quando meu pai tinha que sair, por alguns minutos, e nos deixava sozinhos na oficina, você sabe para onde corríamos.
Um de nós subia na ponta do jacaré, o outro bombava o jacaré - com o cabão, movido pelos braços, ou com a peça menor embaixo, com um pé -, o irmão na ponta ia subindo. Depois, quem estava no comando apertava a chave de despressurização e o jacaré descia, rápido.
Era uma alegria ingênua, simples.
Quando eu era já adolescente, meu pai faliu de novo, vendeu a maior parte das ferramentas, foi trabalhar de empregado em outras oficinas.
Nunca mais cheguei perto de um jacaré. Minto: no brevíssimo tempo que tive o único automóvel da vida, sim. Vi o tal na oficina de um amigo do meu pai, do tempo antigo. Levei o meu Golzinho quadrado, com o motor ferrado, a primeira vez entrando numa oficina que não era paterna. Quase um ritual de passagem. Ali, cheguei novamente perto de um jacaré. Os olhos do menino de oito anos, dentro de mim, que subia e descia naquele troço, brilharam e se encheram de lágrimas. Gritava, infantilmente, que queria brincar no jacaré de novo.
O adulto venceu. Despedi-me da oficina com o rosto molhado, escorrendo lágrimas, muito cafona. Enquanto esperava o orçamento, não só o jacaré, mas o cheiro de graxa, estopa e gasolina me assaltaram o nariz e me trouxeram as recordações de um tempo perdido.
O seu Nico, na idade de trinta anos, foi invocado por aquela visão: eu, ou melhor, o seu Nico dentro de mim, viu os painéis de ferramentas bagunçados, chaves fixas fora da ordem de numeração, chaves de parafuso, alicates de pressão ou não, chaves de roda, largados sobre a bancada ou até espalhados pelo chão e quis passar um sabão no antigo colega de profissão.
Ao menos na minha cabeça, o seu Nico passou o sabão e ficou satisfeito. Ao ouvir a história, quando a contei a ele, o Nico real, hoje com quase oitenta anos, olhou de um lado ao outro, balançou a cabeça, e sabiamente, silenciou.
Não sei o que o meu pai pensa do que escrevo. Sei que ele não lê nada do que faço, e para falar a verdade, não tenho coragem de lhe impor estas histórias. Menciono, às vezes, que escrevo sobre coisas da minha infância. Acho que ele não tem coragem também de perguntar, pois há coisas menos engraçadas e menos bonitas de se lembrar da minha infância, lembranças ruins as quais ele participou e que, talvez, tenha medo de que eu esteja revolvendo aqui.
Pode ser coisa da minha cabeça. Caso chegue, de alguma maneira, esse texto a ele, quero que saiba que não vou remexer nessa más recordações. Escolhi falar somente dos pedaços bons, não vou ficar fazendo terapia em público - mesmo que seja um punhadinho de gente lendo estas recordações rastaqueras.
O que quis contar, mesmo, é que parte da minha emoção se formou ali, naquele chão de graxa, estopa e gasolina, nos jacarés e nos capôs abertos de Fuscas, Kombis e Brasílias. Nas bancadas, as morsas e os blocos de motor onde eu via, espantado, os pistões, os cilindros, um carburador desmontado. Nas noites de sexta-feira, meu pai e amigos cantavam música sertaneja, meu pai ao violão e o colega Brair soltando o vozeirão em músicas de Nelson Gonçalves, Milionário e José Rico, Belmonte e Amaraí. O happy hour se estendia demais e a bebedeira passava do ponto, voltávamos para casa, nós três – meu pai, meu irmão e eu – e as brigas com a minha mãe.
Emoções boas, emoções ruins, o importante, para quem cresceu nos anos 80, é citar Roberto Carlos: emoções, eu vivi.



