A casquinha da ferida
A defesa dos penduricalhos por uma juíza aposentada do Trabalho virou meme: “não tem café”

A ferida
No Brasil, a gente coloca o dedo na ferida. Ela machuca, ela cicatriza, e ainda dá tempo de formar casquinha. Aí reclamam quando a gente cutuca a casquinha. Porque, se não abrimos a ferida de novo, os males vão se acumular, e como diziam nossas avós, vai formar um grosseiro. Quem sabe surge até uma infecção, daquelas que tem de amputar o membro vitimado. Tudo por causa de uma ferida mal-cicatrizada.
E a casca de ferida
Em questão, a sra. Cláudia Márcia de Carvalho Soares, juíza aposentada da Justiça do Trabalho. Que em depoimento ao STF, reclamou de seu patrão, o governo federal, que não paga o cafezinho dos seus colegas. Deu a entender que é uma humilhação ter que tirar do próprio bolso o dinheiro para pagar seu café Pilão, Caboclo ou Três Corações. Ou pensando no seu nível altíssimo de nobreza, exija logo alguma marca colombiana ou até javanesa.
Ô, coitada!
Confiram o que a, em depoimento no STF, declarou sobre a triste condição de milhares de togados da primeira instância em todo o Brasil, que chamou de “juízes chão de fábrica”:
“O juiz de primeiro grau não tem carro, paga do seu próprio bolso o combustível, o carro financiado. Não tem apartamento funcional, não tem plano de saúde, não tem refeitório, não tem água e não tem café”.
Resta saber se, mesmo tendo sido juíza do Trabalho, a meritíssima esteve alguma vez em alguma fábrica. No chão da dita cuja.
Mas ela defende o direito dos trabalhadores
Não se trata de uma trabalhadora que ganha R$ 1.621,00 por mês (sem os descontos). Não se trata de uma pessoa com registro de MEI, que muitas vezes não alcança nem esse valor no mês. A juíza Soares recebeu, só no mês de dezembro, um salário de R$ 113 mil, por conta dos penduricalhos pagos a juízes, desembargadores e ministros, além de funcionários dos outros dois poderes da União. Que ela afirmou, no dito depoimento, “não ser penduricalho porque não tem nada pendurado”.

Direto à fonte – 1
É digno de nota sublinhar que a juíza aposentada estava reclamando ao ministro Flávio Dino, em processo que determinou a suspensão do pagamentos das verbas indevidas – os tais penduricalhos - para procuradores do estado de São Paulo. Recentemente, o ministro suspendeu os penduricalhos não só em São Paulo, mas em todo o país, nos três Poderes da União.
Direto à fonte – 2
E também é digno de notar lembrar que ela contrastava a sua “falta de direitos” ou “injustiça”, por considerar que havia falta de equanimidade entre juízes de primeira instância e os da instância mais alta – por sinal, do Supremo Tribunal Federal (STF). Ou seja, Flavio Dino estaria cortando uma compensação dos juízes da instância mais baixa, por não terem direito ao que ele, Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes têm.
Direto à fonte – 3
Alguns desses benefícios: carro privativo com combustível à vontade pago pelo governo, passagens aéreas para retorno aos seus estados quando quiserem, verbas para promover festivais no Exterior, com hospedagem, comida, acompanhantes e passagens aéreas pagas pelo poder judiciário, auxílio-alimentação de cerca de R$ 1 milhão por ano para cada ministro (são apenas 11 no total). Sem precisar tirar nada do bolso, tudo pago pelo poder judiciário. Ou seja, com o nosso dinheiro dos impostos.
Direto à fonte – 4
Os tais penduricalhos podem elevar o salário-base dos ministros do STF, de cerca de R$ 43 mil, para perto de R$100 mil. Ou em alguns meses específicos, até R$ 300 mil, por conta de benefícios acumulados.
Que peninha
Confiram mais uma pérola da senhora Meritíssima: “Os juízes não têm segurança jurídica. Um mês não sabe o que vai receber, outro mês não sabe se vai ‘cair’, vem uma liminar, vem outra. Os últimos tempos não foram de tanta glória, mas de preocupação para a magistratura. Cortaram a nossa própria carne.” Coitados, não tem certeza se conseguirão pagar as prestações da Ferrari, ou do Lamborghini. Quem sabe, vão precisar trocar o carro por uma simples T-Cross, ou um Creta. Zero km, é claro.
À míngua
Que dizer então do plano de saúde, do refeitório, da falta de água e do café, claro que bancados pelo governo? Quem seria tão desumano a ponto de negar tudo isso para um pobre juiz, que ganha somente R$ 40 mil por mês? Ter de pagar sua própria conta no Hospital Sírio-Libanês, ou no Albert Einstein, ou passagem aérea para se tratar no Exterior? Que dó.
Méritos dos meritíssimos – 1
Em nota divulgada à imprensa, a juíza continua sua subida nas tamancas. Diz, entre outras coisas, o seguinte: “Registro que minha relação com o serviço público começou muito antes da magistratura, como professora do Estado do Rio de Janeiro. Venho de uma família simples de Nova Iguaçu (RJ). A educação dos meus irmãos e a minha foi possível graças às bolsas de estudo conquistadas por meus pais e ao trabalho que assumi ainda na adolescência para seguir estudando sem ampliar as dificuldades da família”.
Méritos dos meritíssimos – 2
E ainda, relata que fez duas graduações, mestrado, doutorado e pós-doutorado, todos os cursos realizados “...com intenso esforço físico, mental e financeiro. É o percurso clássico de quem encontrou na educação o caminho da ascensão republicana”.
Ou seja, o esforço justifica o privilégio. Como acontece com todos os trabalhadores brasileiros, que estudam para melhorar sua posição na carreira, pagando os seus cursos e se arrebentando no dia a dia para conciliar trabalho e estudo, e no fim são recompensados por tudo isso, não é mesmo?

Não é à toa…
…que o depoimento da Meritíssima gerou uma onda de indignação nas redes sociais. Desde pedidos de “Adote um Juiz, faça um Pix” até campanhas para arrecadar café para juízes. Tudo com muita ironia e bom-humor, como os brasileiros sabem fazer bem. As imagens que ilustram este texto são alguns frutos dessa reação.
A régua moral do “Espírito da Época”
O discurso da juíza parece-se com o dos militantes de um certo partido, que há tempos encontra-se no poder federal, de que a origem humilde de um certo presidente justificaria ganhar muito dinheiro, de maneira lícita ou ilícita, porque ele teria “estudado muito” entre as derrotas nas várias eleições que disputou, e feito muito bem ao Brasil, quando chegou ao poder. No caso dos juízes defendidos em seus supostos direitos pela magistrada, a isonomia moral, compensatória de pobreza, perigos e trabalhos esforçados, vem na forma de benefícios salariais indevidos, exagerados, descabidos, antiéticos, totalmente imorais.


