Lula pensa que acreditar em Deus é um exercício retórico, quiçá lógico. Digo, “quiçá lógico”, porque Lula sabe o que é lógica, apenas não a usa. Prefere brincar permanentemente com a linguagem falastrona, que ele chama de narrativas.
A narrativa, para Lula, é um discurso capaz de convencer o público, mesmo que seus argumentos não estejam corretos. Sua função não é falar o que considera verdade, mas sim, destruir o inimigo, o adversário, aquele que se opõe à sua intenção de vencer qualquer tipo de debate e se sobressair. Ele mesmo já afirmou que é assim seu procedimento.
A verdade não tem qualquer importância para Lula. O que vale é o efeito do seu discurso sobre o espectador. É o que faziam os velhos sofistas gregos, combatidos por Sócrates. O pensador sabia que aquele tipo de conduta fake teria o poder de destruir a ordem social e levar a cidade à ruína, uma vez que ela ficaria à mercê dos mais espertos, e não dos homens íntegros e honestos.
Lula é esperto, e vivemos em uma sociedade em que impera a esperteza. Só que não temos nenhum Sócrates no horizonte. Há quem seja mais radical e prefira um adjetivo menos ingênuo para classificar a postura do líder petista e dessa gente que se alia a ele para levar vantagens junto a um governo sem referências éticas. Este é hoje o cenário da política nacional.
A escola de Lula é ateia. Até mesmo seu vínculo com a Igreja Católica se deu no período da Teologia da Libertação, período em que Leonardo Boff e Frei Betto defendiam que ser cristão era ser devoto de um Cristo militante, marxista, que defendia apenas os pobres e o que eles chamavam de trabalhadores. Havia nessa tese a vontade de cooptar o pensamento religioso católico, dando a Cristo uma roupagem petista que excluía parte expressiva da sociedade (eu contra eles).
Por certo, essa formação ateia jamais imperou, e Lula nunca conseguiu marcar presença de forma convincente junto aos religiosos sem deixar evidente sua postura de quem desconhece a força-motriz da fé. Mas ele nunca desistiu de querer brincar com a linguagem religiosa, colocando-se, inclusive, no lugar de Jesus Cristo. Vale destacar que, para parte da filosofia, a essência de uma conversão se dá no limiar da lógica, do racional, quando se adentra o campo do sagrado e se desperta para uma nova forma de sentir e de pensar a vida.
São Tomás de Aquino dizia que a fé ilumina a razão e, com isso, os homens tornam-se mais propensos a perceber a grandeza da vida. A ciência, nesse sentido, seria um exercício para conhecer o campo sagrado do Criador. Mas não vamos muito além nessas questões conceituais, porque há especialistas no assunto, e é bom manter-se seguro até a linha que estabelece a menor controvérsia.
Lula já se comparou a Cristo várias vezes. E, em todas elas, claro, ele estava no palanque. Em ordem cronológica: primeiro ele disse, na campanha presidencial de 2002, que havia semelhanças entre a sua história e a de Jesus. Segundo, que ambos sofreram preconceito e perseguição. Tanto é que as derrotas eleitorais do PT nas eleições anteriores foram uma espécie de crucificação para Lula. Ou seja, em todas elas, Lula foi crucificado. Vejam só.
Chegamos a 2008, e Lula está em um comício em Guarulhos: “Me acusavam porque eu tinha barba, mas não lembravam que Jesus Cristo tinha barba”. A Folha de São Paulo registrou a fala, e fica evidente a comparação que ele fazia com Cristo. Depois que a Lava Jato descobriu sua ligação com o crime, em que as empreiteiras agiam nos bastidores do poder distribuindo dinheiro, inclusive para ele, Lula, para fechar contratos mirabolantes, ele soltou a máxima de que foi preso só porque seria invencível nas urnas. “Acho que só ganha de mim aqui no Brasil Jesus Cristo. Só!”. A analogia não parava por aí, pois afirmava também que ele estava sendo “perseguido”, como Jesus Cristo.
Em 2021, estava lá “O Barba”, novamente em palanque, se contrapondo a Ciro Gomes. Lula evocou Jesus na cruz e soltou mais essa: “Pai, perdoai os ignorantes, eles não sabem o que fazem”. Em uma busca rápida na internet, com ajuda da IA, é possível encontrar uma lista de analogias que Lula gostava de fazer com personagens históricos, como Jesus, Tiradentes e Getúlio Vargas, entre outras figuras marcantes..
Está evidente, portanto, que precisei da IA para encontrar esses momentos em que Lula se acha e fala bobagens sem limite. Há a turma que considera tudo isso engraçado e coloca Lula na conta do folclore. Há a turma que simplesmente ignora tais blasfêmias. E há a turma que coloca Lula na categoria de gênio, por se dar bem com essas bobagens. Nesta eleição de 2026, há o eleitor de Bolsonaro, preferência de parcela expressiva dos evangélicos e todos aqueles que acham o momento oportuno para apear o sabujo do poder. Uma turma que também se apropria da religião para se projetar.
Estamos no limiar de duas vertentes, ambas problemáticas. Ambas retóricas. Ambas exercitando discursos como se não houvesse VAR na política. Mas existe. O VAR é o eleitor, uma vez que os tribunais de Justiça não se posicionam à beira do gramado para analisar as irregularidades ocorridas em campo, ou seja, nos palanques. O Brasil tornou-se uma febre de bandidos tentando se esconder atrás do voto e de discursos religiosos. Sofistas. Falam o que bem entendem. Neste momento, é muito importante um pouco de fé e supor que haverá um juízo final para tantos hereges.



