Novo laboratório da Unicamp cria demanda por especialistas em tecnologia sísmica
Entenda como a tecnologia está mudando a produção de petróleo, detecção de terremotos e captura de carbono
Brasil terá, no Centro de Estudos de Petróleo e Energia (Cepetro) da Unicamp, um de seus primeiros laboratórios de pesquisa com alta especialização em sísmica 4D, tecnologia que vem ganhando importância estratégica para a indústria de óleo e gás, especialmente no monitoramento de reservatórios do pré-sal e em projetos de captura e armazenamento geológico de carbono (CCS).
Coordenado pela pesquisadora Alessandra Davolio Gomes, vice-coordenadora do grupo de pesquisa Unisim, o UNI4D formaliza uma linha de pesquisa desenvolvida há mais de uma década na Unicamp. Desde 2013, a equipe atua em projetos de sísmica 4D, acumulando experiência em pesquisas financiadas pela indústria e na formação de especialistas em uma área que combina geofísica, engenharia de reservatórios e computação aplicada. Além de Gomes, a iniciativa conta com a atuação dos pesquisadores Daiane Rossi Rosa Lessa e Masoud Maleki como lideranças do grupo.
A sísmica 4D pode ser comparada a uma sequência de exames de imagem realizados ao longo do tempo. Enquanto a sísmica convencional (3D) mostra como o reservatório é em determinado momento, a sísmica 4D revela como ele está mudando. Ao comparar imagens obtidas em diferentes períodos, os especialistas conseguem identificar mudanças no reservatório que passariam despercebidas em análises convencionais.
“É uma ferramenta que permite entender como o reservatório está envelhecendo. Conseguimos identificar mudanças que não eram previstas pelos modelos e fornecer informações que ajudam os operadores a tomar decisões mais eficientes”, explica a pesquisadora.

Nos campos do pré-sal, onde cada poço representa investimentos de centenas de milhões de dólares, essas informações podem significar ganhos expressivos de produtividade. Ao identificar com antecedência a aproximação da água aos poços produtores (water breakthrough), por exemplo, os operadores podem tomar medidas para retardar esse processo, otimizar a produção e aumentar a quantidade de petróleo recuperada ao longo da vida útil do campo.
Segundo Gomes, a importância da tecnologia levou a Petrobras a ampliar significativamente sua utilização nos últimos anos. A estatal anunciou a adoção da sísmica 4D em diversos campos do pré-sal, movimento que também mobilizou outras empresas que atuam na região. O resultado é um aumento expressivo da demanda por especialistas capazes de interpretar os dados e desenvolver novas metodologias para extrair informações mais precisas dos reservatórios.
O avanço da sísmica 4D também acompanha o crescimento dos projetos de captura e armazenamento geológico de carbono (CCS). Nesses projetos, a tecnologia é utilizada para acompanhar o comportamento do CO₂ após sua injeção em formações geológicas profundas, permitindo verificar se o gás permanece confinado nas regiões previstas e detectar eventuais desvios em sua trajetória.
“Em projetos de CCS, a sísmica 4D é uma das principais ferramentas para demonstrar que o CO₂ está permanecendo no local planejado e para identificar possíveis surpresas geológicas que não haviam sido detectadas anteriormente”, afirma a pesquisadora.
Geofísica, engenharia e IA
Um dos diferenciais do UNI4D será aproximar áreas que tradicionalmente trabalham de forma separada. O grupo reúne especialistas em geofísica, engenharia de reservatórios e ciência computacional para desenvolver tecnologias capazes de transformar grandes volumes de dados em informações úteis para a tomada de decisões na produção de petróleo e no armazenamento geológico de carbono.
Entre as linhas de pesquisa estão o desenvolvimento de softwares especializados, a aplicação de inteligência artificial para reduzir subjetividades na interpretação de imagens sísmicas e a exploração de novos tipos de dados ainda pouco utilizados pela indústria.
O UNI4D nasce apoiado em uma rede de mais de 20 pesquisadores e estudantes que já atuam nos projetos de sísmica 4D desenvolvidos no âmbito do Unisim. Ao longo de sua trajetória, o grupo de pesquisa produziu dezenas de artigos científicos e participou de projetos reconhecidos nacionalmente, incluindo uma pesquisa premiada pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), em 2018.
Para Gomes, o UNI4D representa a consolidação de uma competência construída ao longo de mais de 15 anos dentro do Cepetro. Ao longo dessa trajetória, a integração entre engenharia de reservatórios e sísmica 4D contou com a colaboração do professor Denis Schiozer, coordenador do UNISIM, parceria que será mantida com o novo laboratório.
“Não estamos começando agora. O que estamos fazendo é consolidar uma expertise que vem sendo desenvolvida há muitos anos e que hoje encontra uma demanda crescente da indústria. O UNI4D nasce para ser uma referência nessa área e contribuir para os desafios tanto da produção de petróleo quanto do armazenamento geológico de carbono”, conclui.
Pesquisadora coordenará frente responsável por acompanhar o comportamento do CO₂ no subsolo, etapa essencial para a segurança e a viabilidade da tecnologia
O Cepetro também terá papel estratégico no Centro de Tecnologias para Captura e Armazenamento de Carbono Biogênico (CTCCSBio), iniciativa liderada pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP) e coordenada pelo professor Bruno Souza Carmo. O projeto pretende viabilizar a primeira usina do estado de São Paulo dedicada à captura e ao armazenamento geológico do dióxido de carbono (CO₂) gerado na produção de etanol de cana-de-açúcar. A iniciativa reúne universidades, governo e setor produtivo para desenvolver uma solução capaz de transformar o etanol paulista em um combustível potencialmente carbono negativo.
A contribuição do Cepetro estará concentrada em uma das etapas mais críticas do processo: o monitoramento do CO₂ após sua injeção em formações geológicas profundas. A atividade será coordenada por Gomes.
A participação do Cepetro no CTCCSBio está diretamente relacionada à experiência acumulada pela equipe do UNI4D. “Em projetos de CCS, a sísmica 4D é uma das principais ferramentas para demonstrar que o CO₂ está permanecendo no local planejado e para identificar possíveis surpresas geológicas que não haviam sido detectadas anteriormente”, afirma Gomes.
O novo centro terá duração prevista de cinco anos e investimento estimado em R$ 30 milhões. A primeira fase será dedicada à identificação de áreas adequadas para instalação da usina e do reservatório geológico, considerando aspectos técnicos, econômicos, ambientais e sociais. Em seguida, o projeto deverá avançar para a implantação e a operação da estrutura. Além da Unicamp e da USP, participam da iniciativa pesquisadores do ITA, da Unesp e de outras instituições.
Para Gomes, o projeto representa uma oportunidade de aplicar competências desenvolvidas ao longo de anos de pesquisa em um dos temas mais relevantes da transição energética. “O monitoramento é uma etapa fundamental para que a tecnologia seja aceita em larga escala. É ele que permite demonstrar, com base em evidências científicas, que o CO₂ permanece armazenado de forma segura e permanente”, destaca.
Fonte: Jornal da Unicamp.




