Quando o light não é a melhor opção
Alegações nutricionais contidas em rótulos de alimentos podem induzir consumidores ao erro

Para muitas pessoas, andar pelos corredores dos supermercados é como atravessar um vale de tentações. Mas em meio a tantas opções, uma seção surge como uma luz no fim do túnel, com produtos que prometem aliviar o peso de nossos pecados alimentares. Em seus rótulos de suaves tons pastel, veem-se modelos longilíneas e felizes, ou homens de porte atlético treinando pesado, e o mais importante: as palavras mágicas “light”, “funcional”, “rico em fibras” e “proteico”, entre outras. Por entre as prateleiras, sua aura é como a de anjos e santos, brilhando à luz de seus benefícios.
O efeito dessas alegações nutricionais sobre as escolhas dos consumidores foi justamente o que intrigou pesquisadores da Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA) da Unicamp. Em sua pesquisa de doutorado, orientada pelo professor Diogo Thimoteo da Cunha, a nutricionista Camila de Mello Marsola avaliou os fatores que interferem nas escolhas dos consumidores entre os produtos em versão tradicional ou com alegações nutricionais — por exemplo, quando precisam decidir entre chocolates ou iogurtes convencionais, suas versões sem açúcar ou aquelas ricas em proteínas.
Os resultados da pesquisa, publicados na revista Journal of the American Nutrition Association, revelam que as alegações contidas nesses produtos geram um chamado “efeito halo” — em referência aos anéis luminosos usados em iconografias religiosas — por chamarem a atenção para um efeito benéfico e ofuscar outros, que podem ser negativos, levando a escolhas alimentares equivocadas.
Nem todos são santos
O interesse por analisar os fatores que interferem na escolha dos consumidores surgiu das observações que Marsola fez em seu cotidiano, ao perceber que as pessoas tendiam a fazer essas trocas quando buscavam uma alimentação mais saudável, principalmente em dietas de emagrecimento, e que essas escolhas também poderiam ser pautadas por modismos. “Muitas vezes, as pessoas trocam o alimento por sua versão light. Agora há o boom da proteína, então trocam por um iogurte high protein”, conta a nutricionista. Segundo ela, o desejo de substituir determinado alimento por uma versão que promete trazer benefícios é legítimo, mas o desconhecimento da composição integral dos produtos pode levar os consumidores a resultados indesejados. “A pessoa acaba se permitindo consumir mais desses alimentos, achando que são mais saudáveis ou menos calóricos.”
Um exemplo disso são as barras enriquecidas com proteínas, que atraem consumidores em dietas de emagrecimento ou hipertrofia muscular. Por terem também altos teores de gordura, é comum que várias marcas ultrapassem o patamar de 300 calorias por porção. “As pessoas que estão em processo de emagrecimento acham que essa é uma excelente escolha para um lanche da tarde, enquanto ficam com medo de comer uma banana por conta de seus carboidratos”, exemplifica Cunha. Eis aí o “efeito halo”: um produto com alguma alegação nutricional específica, anunciada como benéfica, mas que ofusca todo o resto das informações. “Muitas vezes são alimentos ultraprocessados, com altos teores de açúcar e gorduras, mas com sua composição alterada para serem também ricos em proteínas ou fibras”, afirma o professor.
A pesquisa envolveu 412 voluntários adultos, que responderam a dois questionários. Um avaliou as motivações para a escolha de alimentos, enquanto o outro mensurou os aspectos psicológicos envolvidos nos hábitos de consumo, para identificar tanto as restrições alimentares conscientes quanto os episódios de consumo motivados por emoções ou descontrole. Depois, os voluntários foram apresentados a sete alimentos em suas versões convencional e com alegações nutricionais: chocolate com e sem açúcar; pão tradicional e sem glúten; paçoca com e sem açúcar; iogurte tradicional e enriquecido com proteínas; requeijão normal e light; biscoitos normais e enriquecidos com fibras; e leite com e sem lactose. Os participantes deveriam classificá-los em uma escala que ia de “muito ruim para a saúde” a “muito bom para a saúde”. A escolha dos itens foi baseada nos produtos mais comuns em anúncios de supermercados e buscou envolver alimentos focados em emagrecimento, considerados funcionais e voltados para dietas específicas.
Foi possível enquadrar os voluntários em cinco grupos, conforme suas motivações para escolha geral de alimentos em sua rotina: os hedonistas, mais preocupados com o prazer e o sabor dos alimentos; os que valorizam o que gostam e comem esses itens de forma habitual, com atenção à saúde, mas sem se importar com as opiniões externas; os despreocupados com fatores nutricionais; os mais preocupados com saúde e controle de peso; e os que não demonstram ter prioridades na escolha. Para surpresa dos pesquisadores, apesar das motivações distintas, todos os grupos se mostraram suscetíveis aos rótulos com alegações nutricionais, classificando esses alimentos como mais saudáveis. “Tínhamos a expectativa de que os mais preocupados com a saúde e controle de peso se comportariam de forma diferente ao avaliar se os alimentos são saudáveis ou não”, comenta Cunha.

Depende do contexto
Os resultados também mostram o quanto o contexto de cada pessoa importa na percepção de quais produtos são mais saudáveis. As pessoas do grupo dos mais preocupados com a saúde relataram mais episódios de perda de controle sobre as refeições, por exemplo, do que os despreocupados. Para os pesquisadores, isso é um reflexo de uma pressão menor que os últimos sofrem, tanto ao escolher os alimentos quanto ao fazer uma autoavaliação após um comportamento errático.
Outro reflexo das pressões sociais está na comparação entre homens e mulheres: elas têm uma tendência maior a estabelecer diferenças entre as versões e escolher os produtos com alegações nutricionais. “É muito mais comum termos mulheres buscando dietas e controlando a alimentação, principalmente agora, quando vemos um retorno da moda da magreza extrema”, analisa Marsola. “O problema é o quanto se colocam esses alimentos em um pedestal, achando que eles são a solução dos problemas. Isso faz com que as pessoas percam a noção de onde podem encontrar os nutrientes para uma alimentação saudável.”
Matéria: Felipe Mateus | Fotos: Antonio Scarpinetti | Jornal da Unicamp



