Lipedema pode atingir até 12% da população feminina adulta no Brasil
Não se trata de um quadro relacionado com uma deposição usual de excesso de gordura, mas de uma deposição anormal de gordura

A campanha Junho Roxo é voltada à conscientização sobre o lipedema, uma doença crônica e inflamatória que causa o acúmulo desproporcional de gordura nas pernas e nos braços. Muitas vezes, a doença é confundida com obesidade, retenção de líquidos ou com linfedema, podendo atingir 12,3% da população feminina adulta no Brasil, de acordo com o Consenso Brasileiro de Lipedema. Maria Elisabeth Rossi, professora da Faculdade de Medicina da USP, explica em detalhes o que é o lipedema.
“O lipedema é uma alteração crônica progressiva, ela é caracterizada por um acúmulo desproporcional de gordura na região de quadris, coxas e pernas, também pode acometer os braços em casos raros e afeta principalmente as mulheres. Essa presença de gordura excessiva nesses membros leva a uma alteração estética, que é importante, mas também a uma certa alteração na sensibilidade, formam como se fossem bolsões de gordura em uma proporção que não é usual na população; mesmo nas pessoas que ganham muito peso, normalmente a distribuição de gordura é homogênea. No lipedema, são alterações mais regionais, formando esses nódulos que muitas vezes são confundidos com o quadro de flacidez ou de celulite. Não é um quadro relacionado com uma deposição usual de excesso de gordura, mas uma deposição anormal de gordura.”
Como o diagnóstico e tratamento do lipedema é feito?
Maria Elisabeth explica como o tratamento do lipedema é feito e formas de prevenção da doença. “O lipedema tem uma história recente na medicina, ele foi considerado doença há quatro anos, tem uma relação muito prevalente no sexo feminino e está associada às alterações hormonais importantes, como puberdade, gravidez e menopausa. É importante lembrar para o diagnóstico que o lipedema é uma gordura que se localiza nas pernas, mas não acomete nem mãos nem pés, isso ajuda no diagnóstico diferencial. Outro ponto é que você não pode dizer que o lipedema está associado obrigatoriamente com obesidade. Costuma vir associado, mas não é obrigatório que o paciente seja obeso. É necessário fazer um diagnóstico diferencial em relação ao linfedema, que é uma alteração estrutural do tecido linfático que impede o retorno de líquido dos membros inferiores, formando um edema de característica linfática, que é diferente do lipedema. É importante diferenciar porque os tratamentos são diferentes.”
“Como se trata de uma alteração genética, eu tenho alterações hormonais que a gente não sabe muito bem ainda qual é o motivo inicial dessas alterações, é muito difícil você prevenir totalmente o quadro, mas você pode fazer um quadro de prevenção. A prevenção consiste principalmente no diagnóstico inicial para diferenciar ou introduzir uma propedêutica que possa auxiliar na prevenção ou que, pelo menos, desacelere o seu aparecimento ou faça com que ele seja menos grave. É basicamente manutenção de peso, porque quando eu tenho excesso de peso, eu aumento a sobrecarga nos membros, interfiro com a circulação e isso é um fator que pode agravar ou propiciar também a progressão do lipedema. Há também tratamentos que diminuem o processo tanto inflamatório quanto do excesso de líquido que isso acarreta, se eu diminuir o excesso de peso, eu vou auxiliar nesse sentido”, comenta a professora.
Maria Elisabeth reforça a importância dos hábitos saudáveis na alimentação e da atividade física para a redução dos impactos da doença. “Outros tratamentos incluem a meia elástica, que ajuda na contenção da expansão do líquido e do tecido adiposo, uma alimentação mais adequada, evitando alimentos que favorecem a inflamação, como os gordurosos, ultraprocessados ou com excesso de carboidratos e buscando mais alimentos in natura, como frutas, verduras e leguminosas. É importante que a gente consiga, com alimentação mais adequada, auxiliar na progressão do quadro. O exercício também tem um aspecto importante, porque o exercício diminui o quadro inflamatório, melhora a circulação local e ajuda na prevenção do edema. São esses pilares importantes para a gente minimizar o quadro.”
A importância da campanha Junho Roxo
A professora comenta da importância da campanha de conscientização sobre o lipedema não só entre os pacientes, mas entre os profissionais da saúde. “É importante não só na conscientização da população, mas entre os médicos. É uma doença que foi considerada uma alteração recente, tem muitos profissionais que ainda confundem lipedema com linfedema, ou com quadro de obesidade, devemos conscientizar os profissionais, não só os médicos, mas também nutricionistas, fisioterapeutas, pessoas ligadas com atividade física. É importante que eles reconheçam e possam orientar o paciente e a população geral nesse sentido. Como existe essa perspectiva de diminuir a progressão e existe o tratamento cirúrgico para quando o tratamento clínico não for suficientemente adequado, é importante esse diagnóstico, para que você possa intervir e melhorar a qualidade de vida das pessoas.
“O lipedema interfere muito na vida dos pacientes, ele pode trazer alterações funcionais muito importantes, dificultando muito ou até mesmo impedindo a caminhada, levando ao quadro de dor, de formação de equimoses e hematomas. Nas mulheres jovens, ele pode ser um fator que pode interferir com a qualidade de vida, com o aspecto emocional. O diagnóstico é fundamental e a campanha vem nesse sentido, de uma forma muito positiva. É preciso trazer luz para esse problema, que ainda está ficando em segundo plano”, finaliza.
Matéria: Gabriel Albuquerque | Jornal da USP.





