Livro apresenta o passado e o presente da viola caipira
Lançada pela Editora da USP (Edusp), obra conta a história de um instrumento ancestral que ainda hoje mantém o vigor e serve a novas experiências musicais

Compreender o fascínio, a longevidade e a pluralidade de um instrumento musical surgido na Idade Média, contando para isso com o repertório científico da sociologia e o conhecimento acumulado de dezenas de músicos, entre celebridades e desconhecidos. Essa é a missão a que se propôs o sociólogo Luiz Antonio Guerra no livro Uma Sociologia da Viola Caipira: os Mestres de Ontem e de Hoje, que chega agora às livrarias pela Editora da USP (Edusp).
A publicação tem origem na tese de doutorado elaborada por Guerra na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, entre 2017 e 2021. Durante esse período, o interesse do autor foi entender a formação da identidade cultural e social da viola caipira, instrumento que carrega tradições, histórias e paixões. “O objeto deste livro é conjugar música e sociedade, apoiado na sociologia rural e da cultura, a partir do pressuposto de que a identidade cultural da viola caipira está intimamente ligada a suas técnicas musicais”, escreve Guerra na introdução da obra.
Mais do que o instrumento ou a música, são os violeiros e violeiras que ganham destaque nas páginas do livro. Conforme indica o autor, o foco está nos usos que esses músicos fazem da viola caipira, na relação entre suas músicas e os contextos em que elas são produzidas e circulam. Por isso, para entender esse universo, além de pesquisas bibliográficas e fonográficas, Guerra esteve em rodas de viola, encontros de violeiros, gravações de programa de televisão, giros de folias e festivais de cultura popular.
Não que ele fosse um estrangeiro nesses ambientes. Guerra é ele mesmo um tocador de viola, tendo participado da Orquestra de Viola Caipira da Fundação Cultural Cassiano Ricardo, em São José dos Campos (SP), e da Orquestra de Violeiros de Anápolis (GO). Dessa forma, é a própria convivência com os violeiros que está na origem do livro, construído também a partir de uma série de entrevistas realizadas com 66 músicos. Aparecem nas páginas do volume desde celebridades como Almir Sater, Léo Canhoto e Gusttavo Lima até nomes desconhecidos do grande público, passando por violeiros de destaque como o professor da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP Ivan Vilela, Roberto Corrêa, Tavinho Moura, Pereira da Viola, Paulo Freire e Zé Mulato, entre outros.
Para dar conta do trabalho, Guerra organiza o livro em duas partes. Na primeira, o que está em cena é a perspectiva histórica da viola. O autor inicia o relato a partir das origens do instrumento, na Península Ibérica, e descreve sua chegada ao Brasil no período colonial. Segue então para sua acolhida no meio rural e apresenta a entrada da viola na indústria fonográfica com a música caipira, a partir das gravações pioneiras patrocinadas por Cornélio Pires em 1929.
Guerra vai até os desdobramentos vividos pela música sertaneja ao longo do século 20, com a incorporação de estilos estrangeiros e o declínio do uso da viola entre as duplas do gênero. Nessa narrativa, passa ainda pelas utilizações pontuais da viola na MPB, como em Disparada, de Geraldo Vandré, e Ponteio, de Edu Lobo, que animaram os festivais dos anos 1960 e 1970. Central entre os pioneiros da música caipira, a viola foi sendo deixada de lado a partir dos anos 1950, conta o autor, chegando à década de 1980 rodeada de preconceitos e carregando uma aura de rusticidade e amadorismo.
Nesse trajeto, Guerra aborda também a formação econômica e social do meio rural do Centro-Sul do Brasil, a área geográfica em que a viola caipira se estabeleceu a ponto de se tornar um de seus símbolos. Como revela o autor, não é possível falar do instrumento e de seus desdobramentos sem entender as transformações vividas pelo campo brasileiro.

“A evolução na prática artística do instrumento foi sempre condicionada pela relação campo-cidade”, escreve Guerra. “Na viola secularmente usada no cotidiano de trabalho, lazer e devoção dos bairros rurais caipiras; nos violeiros levados aos discos por Cornélio Pires, com o surgimento da indústria fonográfica e radiofônica; na popularização das duplas caipiras, mais um elemento a alimentar o sonho do migrante na cidade grande; no declínio da sua prática justamente no período de maior intensificação do êxodo rural, urbanização e modernização da sociedade brasileira; na recente expansão do uso do instrumento e valorização simbólica da viola e sua identidade caipira.”
Atualidade do instrumento
A segunda parte do volume, por sua vez, trata da atualidade e aposta em uma abordagem etnográfica, amparada no farto material das entrevistas realizadas pelo autor. Guerra escreve sobre a persistência das manifestações populares nos dias de hoje, como as folias de reis e a catira, apresenta os violeiros urbanos que propõem novas experiências com o instrumento e aponta as duplas que mantiveram a viola em evidência no mercado fonográfico.
No percurso, o autor descreve o processo de revalorização da viola caipira pelos artistas sertanejos e apresenta o que chama de “nova viola brasileira”, movimento inovador responsável por utilizar o instrumento em variadas vertentes musicais. Dedica algumas páginas também aos fenômenos das orquestras de violeiros e ao aumento de sua escolarização, inclusive com o auxílio dos meios digitais. Não deixa de lado ainda a importância do crescimento do número de violeiras na cena.
Além de construir esse panorama, Guerra traça um mapa do que é o mundo rural hoje e suas novas relações com a cidade, incluindo as consequentes representações da cultura caipira, manifestadas também a partir da viola. Ele explica que o cenário contemporâneo registra um “giro conceitual” na noção do que é ser caipira. Se antes o caipira representava um tipo humano específico, objeto de estudo da sociologia rural, hoje o caipira se tornou uma categoria cultural.
Conforme detalha o autor, a viola surgiu em um contexto no qual a civilização caipira consistia de sitiantes pobres que viviam do trabalho familiar, habitando comunidades rurais relativamente isoladas. Seu modo de produção e suas relações sociais eram essencialmente não capitalistas, baseados nos mínimos vitais. Colonizando boa parte do Centro-Sul do Brasil, essa civilização se desenvolveu desde o século 16 até meados do século 20. A partir daí, contudo, com a urbanização e o êxodo rural, ela começou a se desintegrar. Mas deixou como legado uma importante matriz cultural, presente tanto em zonas rurais quanto em espaços urbanos do Centro-Sul do País.
“Estamos diante, portanto, de um mundo rural multifacetado e integrado ao urbano”, escreve Guerra. “Nesse contexto, a própria compreensão do que é ‘ser caipira’ é completamente ressignificada. Hoje, caipira é um termo usado sobretudo em sua dimensão cultural. Por certo, trata-se de um uso que reconhece e valoriza suas origens em uma antiga sociedade rústica, mas que atualmente serve de guarda-chuva identitário para maneiras muito distintas de se viver, calcadas em diferentes relações entre campo e cidade.”
É dentro desse quadro que Guerra procura compreender a valorização recente da viola caipira, com o surgimento de novas tendências no instrumento, a manutenção de práticas folclóricas e do estilo das duplas caipiras e iniciativas que levaram à sua expansão, como o aumento da escolarização e das orquestras de violeiros. O livro mostra como o instrumento está hoje inserido em uma variedade de espaços e é utilizado de maneiras diversas: passa pela vertente instrumental, o sertanejo raiz, romântico e universitário e participa de outros gêneros da música popular brasileira.
Universo dos violeiros
Guerra identifica e analisa ainda as tensões atuais no universo dos violeiros, suas disputas por autenticidade e a defesa da tradição ou da modernização. Sua investigação destaca como as diferentes visões de mundo a respeito do que é ser caipira e do que é o mundo rural hoje implicam a prática da viola e sua diversidade.
Ele mostra, por exemplo, como violeiros que se identificam com a produção agropecuária moderna costumam entender a cultura caipira atualizada nas festas de peão, nas cavalgadas e comitivas, nas exposições agropecuárias e nos rodeios, fazendo do caipira sinônimo de caubói. Nesses cenários, a viola surge inserida na tradição da música sertaneja. Violeiros afastados dessa tradição, por sua vez, costumam pensar em outras formas de relação com o campo e a natureza, indica Guerra. Demonstram preocupação com a sustentabilidade ambiental e com as culturas populares afastadas da indústria cultural, por exemplo. Para eles, o camponês de verdade é aquele que vive relações opostas ao do agronegócio.
Seja como for, o que o autor deixa claro é que falar de viola caipira é falar do campo. Isso porque, segundo Guerra, sua magia está, acima de tudo, na memória coletiva de um mundo rural antigo. É esse mundo, indica, que alimenta as práticas dos violeiros de hoje. “A maior das características da viola caipira, ela carrega no nome”, escreve o autor. “Diferente da maioria dos instrumentos musicais, a viola de que tratamos está vinculada a uma cultura específica – a cultura caipira, suas tradições e imaginários, ainda que hoje tocada majoritariamente nas cidades. O que este livro se propôs foi justamente promover uma ampla análise sociológica acerca de como se expressa, nas mãos dos violeiros e violeiras, essa íntima ligação, por meio de variadas representações acerca do significado de caipira”, resume Guerra.
Serviço: Uma Sociologia da Viola Caipira: os Mestres de Ontem e de Hoje, de Luiz Antonio Guerra, Editora da USP (Edusp), 320 páginas, R$ 66,00.
Matéria: Luiz Prado | Jornal da USP.



