Forma de se locomover pela cidade impacta diretamente as mulheres
Paula Freire Santoro e Paula Regina da Cruz Noia comentam problemas da inserção das mulheres no espaço urbano e formas de incluí-las

Entre janeiro e março de 2026, a Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo registrou 910 denúncias de estupro na capital paulista. O estupro não acontece somente com mulheres, mas elas são as que mais sofrem com esse tipo de violência. O cenário demonstra como a cidade de São Paulo afeta as mulheres e que o município não foi pensado com elas nem para elas. Segundo Paula Freire Santoro, coordenadora do Laboratório Espaço Público e Direito à Cidade (LabCidade) e professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design da USP, as mulheres sofrem três tipos de violência ao longo da sua trajetória pela cidade de São Paulo e dos grandes centros urbanos.
A primeira está associada ao trajeto até o transporte público, na rua. “Um assédio que é no caminho do ponto de ônibus, por exemplo, e no ponto, que é um assédio verbal, mas que está corporalmente constante, mas é um assédio que, muitas vezes, a gente não considera assédio.”
O outro é o assédio físico que ocorre dentro do transporte público, que, como diz a professora “é um assédio corporal, que é dentro do ônibus, dentro do vagão do Metrô, dentro do vagão do trem, que está muito cheio, ou seja, a condição do nosso serviço de lotação implica num assédio que é corporal. É um homem se esfregando na mulher, colocando-a em situações que tem o constrangimento de descrever. Mas a gente sabe que elas se dão”.
A terceira forma é o estupro, que acontece tanto em locais abertos quanto em locais fechados. Paula Santoro explica que, dependendo do caminho a ser percorrido, o trajeto pode facilitar momentos de abuso sexual. “Isso também acontece nesses espaços confinados, mas também acontece no caminho. Quando esse caminho é muito ermo, por exemplo, quando eu tenho uma série de arbustos e verdes, ou seja, na hora que eu penso a vegetação, pensar em uma vegetação que visualmente eu possa ver a pessoa caminhando é importante.”
Uma cidade inclusiva
Um espaço público urbano pensado para as mulheres é o que a professora chama de “espaço vivido”. Nele, existe a movimentação de pessoas que garantem que a mulher seja vista e protegida. “Diferentemente dos homens, elas estão preocupadas com um assédio corporal, um assédio que invade o seu corpo, não apenas um roubo da carteira, de um bem patrimonial.”
Uma forma de incluir as mulheres pela mobilidade é olhar para as rotas de cuidado. Para a arquiteta urbanista Paula Regina da Cruz Noia, também da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design da USP, “uma cidade do cuidado tem, basicamente, uma questão humanista no seu olhar. Então, uma cidade que você tenha ali, a cada 15 minutos, espaços de tranquilidade, espaços de convivência, de convívio, de encontro, que pense na questão do acesso, acessibilidade. A gente está pensando em mulheres. Muitas vezes a gente está pensando em mulheres com carrinhos de bebê, sabe? Então, ter espaços acessíveis, pensar nas rotas dos pedestres, realmente pensar em quem está mais fraco ali, no elo”.
A relação das mulheres com o trabalho não é somente com a remuneração, mas também com o trabalho de cuidado. Levar os filhos para escola ou acompanhar idosos até unidades de saúde são tarefas comuns no cotidiano geral feminino, afetado pelo machismo. Além do modo a pé, a professora Paula Santoro destaca o uso de transporte público pelas mulheres. “São múltiplas viagens pequenas, de menor deslocamento, o que faz com que, por exemplo, o bilhete único seja um ponto, uma política muito interessante para as mulheres, que elas podem sair, descer do ônibus no mesmo período de tempo sem pagar novamente a passagem.”
Como criar uma cidade que inclua as mulheres?
Pensar no dinamismo e na forma das cidades para as mulheres exige uma escuta ativa desse grupo. Uma forma é o Plano Diretor, uma lei municipal obrigatória instituída pelo Estatuto da Cidade, que orienta o crescimento urbano de cidades com mais de 20 mil habitantes. Segundo Paula Noia, o Plano Diretor permite “entender quais são as principais propostas que devem ser elaboradas, assim, o plano diretor é uma ferramenta muito importante de legitimação, das intenções espaciais de um coletivo. É importante ter essa escuta ativa, esse processo participativo, que é uma ferramenta superdemocrática. E, lógico, ele não vai resolver tudo também. É um espaço que, muitas vezes, a representatividade acaba ficando diferente do que a gente imagina”.
Paula Santoro complementa: “A gente tem que olhar de um modo interseccional, que entenda as diferenças nas relações de poder entre esses grupos e acesso à cidade, permanência à cidade, garantias de direitos na cidade, sair desse urbanismo generalista é um primeiro passo. Isso exige métodos de planejamento completamente diversos”.
O crescimento urbano faz com que grupos de empreiteiras e relacionados ao capital imobiliário ganhem força e excluam cada vez mais comunidades e grupos historicamente excluídos, como pessoas negras, pobres e mulheres. “Eu tenho uma produção imobiliária formal que está produzindo uma cidade, em tese, com usos mistos apenas nas áreas mais valorizadas e próximas de Metrô. Então, acaba que o planejamento desenha uma cidade de uso misto que, em tese, seria mais inclusiva para as mulheres, mas só para mulheres com mais recursos, porque elas estão morando nesses lugares mais valorizados”, afirma Paula Santoro.
A agenda dos espaços reservados
O projeto de lei número 187, de 2026, foi apresentado na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. O projeto torna obrigatória a destinação de, no mínimo, um vagão em cada composição de trem ou Metrô para uso exclusivo de mulheres no Estado. As visões sobre esses locais são diversas, como explica Paula Santoro. “Essa agenda da reserva de espaços, na mobilidade, é muito polêmica, ela tem dois lados ali muito claramente desenhados. É claro que as feministas, todas, eu acho, não gostariam de ter que reservar um espaço. A gente quer que a sociedade mude como um todo e deixe de ser patriarcal. E a gente não tem essas diferenças no uso do espaço público e na sensação de segurança e de pertencimento mesmo das mulheres nesses lugares. O fato de a cidade ser uma cidade patriarcal faz com que as mulheres tenham limitações na sua autonomia”, detalha.
“Claro que a outra pauta é dividir com todo mundo, com a sociedade, essas responsabilidades. Então, a gente tem pautas que queriam que a cidade não fosse patriarcal em muitos aspectos, tanto no compartilhamento do cuidado, em uma cidade cuidadora, quanto em uma cidade que veja a mulher como alguém que tem pertencimento e consegue autonomia na cidade, dentro do urbano”, adiciona.
Paula Noia acrescenta ainda que, “por um lado, você defende e tenta proteger essas pessoas de uma situação de vulnerabilidade, mas, por outro, você também reforça um pouco que essa situação é normalizada. Então eu entendo isso como um processo de transição. Que a gente tem a sociedade que a gente vive, a sociedade que a gente quer viver, mas que isso não pode ser naturalizado e não pode ser permanente”.
Matéria: Fernando Silvestre | Jornal da USP.




