Lula aposta em política anti-diplomática
Zelensky, por sua vez, tem um aguçado senso de... diplomacia
Quem acompanha questões internacionais sabe que a Ucrânia tem avançado gradativamente nas negociações para a obtenção de garantias de segurança ao país – que enfrenta o desvario de um governo sanguinário e agressor –, com apoio da União Europeia e, vejam só, dos EUA.
Isso demonstra que nem mesmo a tremenda adversidade da guerra de invasão, operada pelo líder russo, Vladimir Putin, tirou o senso de realidade e responsabilidade de Volodymyr Zelensky (presidente da Ucrânia), que negocia pacienciosamente com o conturbado presidente dos EUA, Donald Trump, para obtenção do seu apoio à garantia de segurança do território invadido.
Não se trata exatamente de um acordo de mesa de bar, propalado pelo presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, ao analisar a guerra entre a Rússia e a Ucrânia. Segundo Lula, um acordo entre Zelensky e Putin seria facilmente alcançado após uma rodada de cerveja, ou várias, entre ambos. O que acabou colocando Lula na lista de governos no mínimo obtusos, para não dizer insignificantes, em termos de geopolítica.
Zelensky, por sua vez, demonstrou um profundo senso de responsabilidade e grandeza de espírito diante de um presidente anacrônico e dissimulado, superado o impasse da primeira reunião entre ambos no Salão Oval da Casa Branca. Nada o fez esticar a corda. Ele foi aos poucos ganhando a confiança de Trump, que parece ter entendido o que de fato acontece na região e o que precisa ser feito. Diplomacia de alto nível.
Até onde a vista alcança, tudo indica que o termo de segurança à Ucrânia sairá na semana que vem, dificultando ainda mais a pretensão de Putin de invadir e dominar o território de um país soberano e democrático.
Enquanto isso, o presidente brasileiro, que deveria acionar seu senso de diplomacia para entrar em um acordo com Trump referente ao tarifaço, vê suas fichas se esvaírem em um jogo que seria relativamente fácil para quem se dizia capaz de parar uma guerra com um copo de cerveja. Não é isso que estamos vendo.
Lula corre o risco de ter um revés de popularidade, em alta, devidamente ao fato de ter se posicionado de forma radical contra Trump, sem criar mecanismos de negociações em tempo hábil. A população brasileira começa a sentir o peso da sua falta de tato. Soberania, autonomia, independência, são palavras bonitas, mas têm limite se não vierem acompanhadas de inteligência e de um bom trabalho de diplomacia.
Falta ao governo brasileiro o que se chama realpolitik, segundo a qual, é bem possível uma performance para o eleitorado interno, enquanto se negocia com frieza junto ao agressor externo. O impacto do tarifaço vai se tornando evidente conforme for atingindo o bolso do brasileiro.
A aposta de Lula na tese de que o cenário será facilmente contornável com recursos financeiros do BNDES, injetado no bolso dos empresários exportadores, é frágil. Claro que existe a possibilidade nesse meio tempo, de o governo americano agir para reduzir o impacto do tarifaço na economia americana. O que pode incluir novos setores afetados na lista dos isentos do tarifaço. Mas não dá para aposta nisso sem se atentar à possibilidade de não acontecer.
O fato é que se brinca com a corda no pescoço do trabalhador brasileiro. Conforme o nó for subindo se saberá realmente qual é o peso político de uma decisão econômica anti-diplomática e que pode, inclusive, mudar a relação do eleitorado ao discurso oficial, tornado a noção de soberania apenas uma palavra inócua em um ambiente carente de inteligência diplomática. É importante levar em consideração que 2026 está logo aí.