Sempre houve disputa entre direita e esquerda no mundo democrático, e ela é salutar. Com a redemocratização do Brasil, foi um processo natural o aparecimento de representantes de ambas as alas políticas no processo eleitoral.
O fato é que Lula nasceu do sindicalismo burguês, como diria algum sociólogo que tenha analisado o assunto. Na Alemanha, já havia ocorrido o mesmo processo algum tempo antes, por isso não houve revolução proletária alguma na terra de Nietzsche, nem na terra de Debussy ou de William Waterhouse.
Os sindicalistas, seja na Alemanha ou, posteriormente, no Brasil, sabiam que estavam protegidos legalmente, com bons salários e condições de vida muito acima da média nacional. Fazer revolução para quê? Correr riscos para quê? Ou melhor, a revolução já estava feita para eles.
O chanceler Otto von Bismarck (1815–1898) foi um gênio. Ainda durante o Império Alemão, ele implantou um conjunto de medidas que garantiam seguros sociais. Tais medidas ganharam o peso de Estado de bem-estar social como o conhecemos e foram reproduzidas em praticamente todos os países europeus. A razão? Tentar conter o avanço do movimento socialista no continente. E funcionou.
Lula, quando entrou de forma triunfal para o sindicalismo, já levava uma vida boa. Para quê fazer revolução? Sem contar que Lula nunca foi revolucionário. Quem o conhece sabe o que ele pensa sobre o assunto. No fundo, no fundo, Lula não é nem um conservador no sentido histórico do termo. Ele é mesmo um baita reacionário.
Não fiquem bravos por eu conhecer um bocado de clichês inúteis, mas é verdade. O público que melhor entende a linguagem de Lula é aquele que ainda não ingressou no mundo moderno, além dos lulistas, o que é quase a mesma coisa.
Veja, por exemplo, a dificuldade de Lula para entender o peso dos aplicativos na vida de um trabalhador que busca ampliar a receita doméstica. Todos eles queriam ter um salário igual ao do Lula e uma vida boa com uma Janja imaginária. Mas não é assim que o mundo gira.
É preciso se virar. Se a economia não vai bem e os empregos fixos, com carteira assinada, pagam mal, o que fazer? Os aplicativos entram como bote salva-vidas em um primeiro momento. Além de ampliar a receita doméstica, eles acabam sendo o embrião para que o trabalhador comece a pensar como um empreendedor. Ou, melhor ainda, como aquele que consegue cuidar da própria vida.
Os vícios e as loucuras do coração acabam sendo aplacados pela igreja e não pelo sindicato. Sem cachaça, cigarro e putaria, o trabalhador começa a ver sua receita crescer, e com uma vantagem enorme. Numa dessas, Lula some do horizonte. Pior, passa a ser um governante a ser evitado. Há novas sociologias sobre o tema que aprofundam muito a questão. O problema é que Lula não lê.
Mas seus assessores deveriam ler. Agora já é um pouco tarde. Quando o apedeuta se encontra em uma situação-limite, de final de ciclo, começa a inventar coisas que desconhece. O trabalhador moderno sabe disso e não se deixa enganar. Vota até em Flávio Bolsonaro para tirar Lula do seu calcanhar. Abre-se aqui uma infinidade de linhas de raciocínio. Mas nenhuma permite o retrocesso e a submissão dos trabalhadores esperados por Lulas e lulistas.




