Deixando a luz do sol entrar
Fachada baseada no design biomórfico favorece a iluminação natural
O consumo de energia elétrica nos lares brasileiros cresceu 8% em janeiro de 2026 em comparação ao mesmo período anterior, segundo dados do Ministério de Minas e Energia, e a iluminação doméstica responde por grande parte desse uso. Buscando ampliar a incidência de luz solar no interior de edifícios populares e reduzir a dependência da energia elétrica, a arquiteta Carolina Regly se voltou para a natureza. Em seu mestrado, ela fez do cogumelo Neofavolus subpurpurascens, encontrado na região de Campinas, a inspiração para criar uma fachada sustentável para edifícios. Em simulações computacionais, seu protótipo se mostrou eficaz em melhorar os níveis de iluminação natural em todos os cenários projetados. A pesquisa foi realizada no Programa Arquitetura, Tecnologia e Cidade da Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo (Fecfau) da Unicamp e teve como orientador o professor Felipe Corres Melachos.
Regly definiu o tema após realizar um levantamento bibliográfico que apontou a baixa incidência de luz solar como um problema estrutural em prédios construídos por programas habitacionais. Daí sua estrutura ter como foco um prédio-modelo do programa Minha Casa Minha Vida. Além de desenvolver uma fachada que promove maior luminosidade interna, a elaboração da estrutura arquitetônica teve o objetivo de gerar bem-estar visual. “Diversos estudos mostram que a arquitetura foca em ser sustentável, em ter melhor eficiência energética, e se esquece dos usuários”, observa Regly. “Mas a arquitetura não se resume à parte técnica. Existem estratégias que tratam do impacto nos usuários.”
Para conciliar os dois propósitos, ela optou por combinar metodologias. A inspiração nas formas de um cogumelo, por exemplo, seguiu o conceito de biomorfismo, apontado por Regly como um dos pilares do design biofílico, segundo o qual a presença de materiais naturais, ou mesmo de referências à natureza em construções arquitetônicas, produz um efeito benéfico sobre a saúde física e mental das pessoas.
“Os estudos sobre biofilia têm mostrado que precisamos nos reconectar com nosso passado ancestral, quando o homem vivia na natureza, pois há nisso um benefício para nossa saúde. A biomorfia, que é um dos pilares da biofilia, trata do uso de elementos naturais como inspiração visual para criar formas geométricas, sem qualquer relação com a função que esses elementos desempenham na natureza. É uma alusão, não necessariamente de uma cópia perfeita”, esclarece a arquiteta.
Como a ideia foi produzir uma fachada vazada, a pesquisadora buscou referências naturais que possuíssem uma forma geométrica com orifícios. Segundo Melachos, esse tipo de padrão permite a absorção de luz e, portanto, serve à problemática da ausência de luz natural. As formas do cogumelo Neofavolus subpurpurascens foram encontradas durante uma pesquisa em bancos de imagens e despertaram o interesse da arquiteta por apresentarem um padrão geométrico fractal escondido debaixo do seu chapéu, semelhante à forma de um favo de mel, que poderia ser convertido em desenhos. “Era importante que a fonte de inspiração fosse do Brasil, por isso escolhemos um organismo que temos no estado de São Paulo”, justifica a arquiteta.

A escolha por uma geometria fractal com padrão de autossimilaridade — que se caracteriza pela repetição da mesma forma, em diferentes tamanhos — ajudou a solucionar um dos principais desafios da pesquisa: projetar uma fachada de modo que cada ponto do edifício recebesse a quantidade de luz necessária. O uso de algoritmos de modelagem paramétrica e das técnicas de form-finding e shape-finding — que, em tradução livre, referem-se à modelagem pela forma —, na avaliação dos pesquisadores, teve papel fundamental para aferir os locais e as proporções das aberturas na fachada.
O resultado foi uma fachada biomórfica cujo desenho lembra uma rede de pesca. O tamanho das aberturas e a quantidade de orifícios distribuídos sobre sua superfície variam de acordo com seu posicionamento na edificação. Isso porque a quantidade de luz necessária para clarear os andares mais baixos não é a mesma que a dos pisos superiores. Segundo Melachos, a preocupação com o uso de tecnologias acessíveis — como softwares de baixo custo ou mesmo gratuitos — resultou no desenvolvimento de uma edificação sustentável não apenas do ponto de vista energético, mas também econômico.
Para analisar os efeitos da aplicação da fachada utilizando programas de simulação computacional, a pesquisadora projetou diferentes cenários, baseados em quatro bairros de Campinas. A avaliação foi feita no que seria o térreo do edifício e o 5º, 10º e 15º andares. Regly simulou, ainda, diferentes entornos. “Era importante considerar o sombreamento gerado”, justifica. Inicialmente, a fachada foi pensada como um envelope a ser colocado sobre a superfície do edifício. Mas, nesse cenário, as janelas acabavam cobertas, criando mais sombras ao invés de ampliar a luminosidade. “Isso ocorreu porque não houve modificação nas aberturas existentes na edificação. Ao acrescentar um envelope por cima de janelas que já não contribuíam para a iluminação natural do prédio, o resultado acabou não sendo o ideal”, observa Regly.
Diante dos resultados insatisfatórios, uma nova rodada de simulações foi realizada, desta vez com a fachada não mais sobre a superfície do prédio, mas na própria alvenaria, como uma pele. “O envelope é um embrulho, decorativo. A pele é a própria construção”, compara o professor. Desta vez, os resultados das simulações foram bastante positivos, em todos os apartamentos, andares e entornos, sublinha Melachos. A fachada projetada permitiu uma maior entrada de luz nos cômodos — a chamada iluminância — e, consequentemente, reduziu a necessidade de iluminação artificial. “Isso significa conseguir usar seu apartamento sem ter que ligar o interruptor durante o dia”, descreve.
Matéria: Mariana Garcia | Jornal da Unicamp.



