
O Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí, é conhecido por abrigar macacos-prego com a maior diversidade de uso de ferramentas entre primatas não humanos. Estes animais já foram observados utilizando pedras para quebrar frutos duros ou para cavar, e até varetas para realizar tarefas como desentocar presas. Já se sabia que os animais são capazes de avaliar as ferramentas de acordo com características físicas dos materiais. Agora, os pesquisadores propuseram um experimento para identificar quais fatores influenciam a escolha das ferramentas de pedras entre os grupos.
O estudo acompanhou duas populações de macacos-prego, nativas do Parque Nacional da Serra da Capivara e do Parque Ecológico do Tietê, em São Paulo, e concluiu que sinais sociais de uso influenciam o processo de seleção das ferramentas de pedra utilizadas por esses primatas para se alimentar. De acordo com o trabalho, publicado na revista científica Proceedings of the Royal Society B: Biological Sciences, quando os macacos-prego foram expostos a pedras não utilizadas, ambas as populações selecionaram as ferramentas com base nas propriedades dos materiais. No entanto, os macacos deram preferência às pedras que apresentavam sinais de uso anterior, independentemente de sua composição.
Além de trazer mais informações sobre hábitos específicos das populações observadas, o estudo pode servir como modelo para entender a evolução do uso dessas ferramentas, tanto na linhagem dos primatas em geral quanto entre os seres humanos, especificamente.
“As ferramentas de pedra são as mais antigas que identificamos na linhagem humana, mas essa prática já não é observada hoje”, comenta Tiago Falótico, um dos autores do estudo. “Por isso, utilizamos outros primatas como modelo para comparar e entender os fatores que levam a essa evolução.”
Falótico aponta que somente quatro grupos de primatas utilizam esse material como utensílio em suas atividades cotidianas: macacos-prego, chimpanzés, Macaca fascicularis – uma espécie asiática popularmente conhecida como macaco-caranguejeiro, macaco-de-cauda-longa ou macaco-cinomolgo – e os Homo sapiens.
Sinais sociais de uso
Estudos prévios já haviam mostrado que, apesar de observar uns aos outros, os macacos-prego não necessariamente reproduzem os movimentos de outros indivíduos para formar hábitos próprios. Com base nessa premissa, os pesquisadores buscaram compreender de que maneira informações deixadas por outros animais poderiam influenciar a escolha de ferramentas e contribuir para a aprendizagem de comportamentos. O trabalho foi realizado com duas populações de macacos em vida livre, já acompanhadas diariamente pelos pesquisadores, e dividido em três etapas. Em cada uma delas, os cientistas distribuíram pedras e alimentos no ambiente com o objetivo de propor tarefas aos animais e analisar a interação deles com cada material.
“Nós ficamos andando com as pedrinhas e uma sacola com alimentos típicos das populações. Uma pessoa sempre ia um pouco à frente de onde os macacos estavam, montava a configuração do experimento e esperava algum deles se aproximar”, conta Falótico. “Era um processo totalmente voluntário: algum animal tinha que chegar e usar aquilo. Quando ele usava, a gente recolhia tudo, montava mais uma vez e esperava outro macaco vir.”
Na primeira etapa, os pesquisadores investigaram se os animais reconheciam pedras com características diferentes e analisaram para qual fim cada uma foi utilizada. Foram oferecidos castanha de caju para os macacos da Serra da Capivara e coquinho de Syagrus para o grupo do Parque Ecológico do Tietê, além de pedras artificiais de tamanhos semelhantes, mas com diferentes densidades.
Na maior parte dos casos, as pedras mais duras foram utilizadas como martelo para quebrar os itens, enquanto as pedras menos densas foram usadas como bigorna – ou seja, a superfície onde o alimento é apoiado durante a quebra.
Já na segunda tarefa proposta, os cientistas analisaram se a identificação de pistas sociais poderia contribuir para a escolha das ferramentas. Para isso, montaram sítios de quebra – locais que reuniam alimentos e ferramentas.
“Projetamos dois sítios de quebra para cada animal, ambos com pedras de diferentes densidades”, explica Tiago Falótico. “Porém, um dos sítios continha restos de coco espalhados e pedras já manchadas ou com marcas de uso.” Durante essa intervenção, os sítios com sinais sociais foram significativamente mais utilizados pelos macacos.
Na etapa final, o grupo misturou pedras com e sem sinais de uso – mas eliminaram restos de coco partidos – e observaram quais seriam escolhidas pelos animais. Apesar de não demonstrarem preferência por pedras gastas para o uso como martelo, os materiais já usados foram os mais escolhidos entre as opções para bigorna.

Com base nos resultados, o estudo confirmou que o padrão de comportamento desses animais se desenvolve por meio de um modelo de aprendizagem social conhecido como “realce de local” ou “realce de estímulo”. Nesse processo, a atenção dos macacos-prego é direcionada para locais ou objetos que têm presença de outros animais da mesma espécie.
A atração leva os indivíduos a interagir com materiais que foram previamente utilizados e entender suas características por conta própria. Assim, a sequência de aprendizados individuais faz com que um comportamento comum gradativamente se espalhe entre os membros de uma mesma população.
Proteção da cultura animal
Falótico conta que seu trabalho com o grupo de macacos-prego na Serra da Capivara teve início em 2007, durante o doutorado realizado no Instituto de Psicologia (IP) da USP. O primeiro estudo teve o objetivo de descrever seu repertório de uso de ferramentas e constatou que o conjunto de hábitos locais era mais amplo do que o de outros grupos observados. Quase 20 anos depois, a população ainda é conhecida por ter o comportamento mais diverso já documentado entre a espécie.
Além de utilizar pedras para quebrar alimentos e cavar o solo em busca de recursos — como raízes, tubérculos e pequenos animais que se escondem em buracos —, esses macacos também demonstram um comportamento raro do uso de ferramentas para comunicação: a população local é a única conhecida em que as fêmeas arremessam pedras nos machos para sinalizar o período de cio.

O pesquisador explica que essa diferença de comportamento entre populações de regiões distintas depende de um conjunto de fatores ecológicos e culturais. “A parte ecológica é representada pelas características ambientais que influenciam esses costumes ao determinar a disponibilidade de recursos para os macacos”, aponta. “Um exemplo que observamos em macacos-prego e em outros primatas é que tem que haver um certo grau de terrestrialidade. Animais que quase não descem para o solo não utilizam ferramentas de pedra, porque as pedras normalmente estão no chão.”
Além da interferência do ambiente, os detalhes sobre os materiais utilizados e as técnicas adotadas também dependem de questões culturais próprias de cada grupo. Quanto mais um indivíduo usa uma ferramenta, maiores são as chances de que ele gradativamente aprenda a funcionalidade daquele material, desenvolva novos comportamentos e influencie indiretamente outros indivíduos. “Quando essa diferenciação de costumes ocorre, geralmente é porque um comportamento foi inventado por algum indivíduo, se espalhou dentro de seu grupo e ficou restrito ali”, aponta Falótico.
Para o pesquisador, estudar essas populações também é importante para registrar e preservar a diversidade de comportamentos existente entre os grupos da espécie. Embora os macacos-prego não estejam ameaçados de extinção, comportamentos particulares de determinadas populações podem desaparecer se esses grupos forem reduzidos ou extintos.
“Se essas populações sumirem, a espécie vai continuar existindo, mas parte de sua diversidade comportamental será perdida para sempre” – Tiago Falótico
Liderado por membros do Instituto Max Planck e do grupo de pesquisa Neoprego, o trabalho reuniu pesquisadores da USP e de instituições do Brasil, da Alemanha, dos Estados Unidos e de Portugal.
O artigo Social cues on stone tools outweigh raw material properties in wild primates está disponível on-line e foi financiado pela Max Planck Society e pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).
Matéria: Hellen Indrigo | Jornal da USP.



