
A redução do trânsito de veículos durante a pandemia de covid-19 deixou marcas nas árvores de São Paulo. Pesquisadores do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena), da USP e de outras instituições brasileiras e chilenas identificaram alterações na composição química e na densidade da madeira de árvores localizadas em uma das avenidas mais movimentadas da capital paulista. Os resultados mostraram que os aneis de crescimento, formados no tronco ao longo da vida das plantas, são capazes de registrar mudanças na composição da atmosfera mesmo quando ocorrem durante períodos de poucas semanas.
O estudo analisou exemplares de tipuana (Tipuana Tipo) da Avenida 23 de maio e do Parque Ibirapuera, utilizando técnicas que permitem reconstruir as condições ambientais às quais as árvores foram expostas. Além de identificar sinais de redução das emissões de dióxido de carbono (CO₂) provenientes da queima de combustíveis fósseis, os pesquisadores observaram um aumento na densidade da madeira das árvores da avenida durante o lockdown. Essa alteração pode estar relacionada a mecanismos de adaptação ao estresse hídrico, que contribuem para tornar as árvores mais resistentes à falta de água.
Publicado no periódico Environmental Pollution, a pesquisa foi liderada por Augusto Miyahara, pesquisador de pós-doutorado no Cena, e orientada por Giuliano Locosselli, docente da mesma instituição.
Um diário na madeira
Assim como um diário, os anéis de crescimento guardam informações sobre as condições ambientais ao longo do tempo. Em espécies como a tipuana, analisada na pesquisa, cada anel corresponde, em geral, a um ano de crescimento. “Quando as árvores param e voltam a crescer em determinados períodos do ano, formam essas delimitações na madeira que a gente consegue ver”, explica Miyahara.

Segundo Giuliano Locosselli, na região de São Paulo, as tipuanas crescem durante a estação chuvosa, entre setembro e abril do ano seguinte. Com a retomada do crescimento a cada ciclo, novos anéis são formados, permitindo aos cientistas identificar períodos específicos e reconstruir as condições ambientais do passado. “A gente consegue interpretar tanto as condições ambientais como as condições fisiológicas das árvores nos anéis de crescimento”, aponta Miyahara.
O desafio do estudo foi identificar os efeitos do lockdown, já que a sua duração foi curta demais para corresponder a um anel inteiro. “A gente teve que dividir o anel de crescimento em várias partes. Conseguimos amostras que representam semanas de vida da planta”, relata Locosseli.
Os pesquisadores examinaram as tipuanas da Avenida 23 de Maio, que possui um intenso fluxo de veículos, e do Parque Ibirapuera, utilizado como área de comparação por apresentar menor exposição direta às emissões veiculares.
Cada anel foi dividido em 15 segmentos distribuídos ao longo de seu crescimento. O recorte do estudo incluiu um período anterior à pandemia e dois anos durante a crise sanitária, com foco nos anéis formados entre 2020 e 2021.
A marca da poluição na madeira
As árvores absorvem o gás carbônico (CO₂) da atmosfera durante a fotossíntese e utilizam o carbono para produzir os açúcares que formam a madeira. Parte dessa composição fica preservada nos anéis de crescimento, fornecendo pistas sobre a composição da atmosfera no período em que foram formados.

Com a redução das emissões veiculares, as árvores precisaram abrir mais os estômatos, que são os poros nas folhas pelos quais absorvem CO₂, para captar o gás carbônico em quantidade suficiente. Mas também aumenta a perda de água pela transpiração, o que pode elevar o risco de estresse hídrico, quando uma planta não tem acesso à quantidade de água necessária para garantir as suas funções vitais.
Matéria: Amanda Yoshizaki | Jornal da USP.





