Ao contrário de artistas perseguidos pelo regime militar, como Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil, que foram detidos, e sob medo de perseguição, viveram durante um tempo no estrangeiro, em exílio forçado, e outros que além disso, foram torturados, como Gonzaguinha, Raul Seixas, Paulo Coelho, Augusto Boal e José Celso Martinez Correa - todos estes, apesar da perseguição política, seguiram sua carreira artística e hoje são lembrados.
Taiguara nunca foi preso por longos períodos ou torturado, e mesmo tendo forçado a viver no exílio, ao voltar ao Brasil, foi perseguido pela censura. Teve sua carreira destruída de uma maneira como nenhum outro artista da MPB. E por fim, foi esquecido.
Taiguara em 1970. Imagem do Fundo Correio da Manhã
Taiguara Chalar da Silva, o Taiguara, detém o infeliz recorde de ter sido o artista mais censurado pela ditadura militar - 68 de suas músicas foram proibidas de serem executadas nas rádios, vendidas em discos e interpretadas em shows.
O músico foi um grande campeão de festivais da canção, na década de 1960. Tanto que um de seus LPs se chama, justamente, “O Vencedor de Festivais” (1968). Eis algumas músicas ganhadoras de prêmios nesses concursos: "Helena, Helena, Helena", “Geração 70”, “Viagem”, "Modinha", “Universo no teu corpo”.
Foi com a canção "A Ilha" (do álbum Carne e Osso, de 1971), que iniciou-se a longa lista de músicas censuradas do artista. “A ilha” era uma referência a Cuba; são apenas três estrofes, mas os militares não gostaram:
Meu pai, já não posso mais / Viver nesse mundo em chamas, em chamas, chamas / Meu bem, eu te quero bem / Mas vou onde o amor me chama, me chama, chama
Livre só embaixo vou viver na ilha, na ilha / Onde meus iguais serão minha família, na ilha / Tentei, ser como vocês / Viver nesse mundo errado, errado, errado
Adeus, vou deixar vocês / Chega de viver guardado, guardado, guardado / Hoje o meu adeus corta o meu destino, destino / Que o amor faz meu e eu volto a ser menino, menino
Teve a “honra” de ter tido também dois álbuns inteiros censurados, proibidos: Let the Children Hear the Music, de 1973, gravado em Londres, com lançamento proibido no Brasil; e Imyra, Tayra, Ipy Taiguara, gravado no Brasil, em 1975.
O primeiro teve as matrizes originais perdidas e até hoje não localizadas; o segundo foi relançado sem autorização em 2004 no Japão, e oficialmente, em 2013, no Brasil.
O álbum Fotografias (1973) teve 11 das suas 12 músicas vetadas pela censura. Neste álbum, Taiguara escreveu a canção "Nova York". Originalmente, um dos versos mais potentes dizia: "E você paga o pão, o pó, a pedra, a polícia e a poluição". Os censores vetaram imediatamente a linha por causa da menção direta à força policial. Taiguara argumentou que não estava criticando os militares brasileiros, mas sim a realidade norte-americana da cidade que dava título à música. Para fechar o acordo, ele ofereceu uma solução irônica: trocar a palavra em português por "police", em inglês. A censura aceitou e a faixa foi liberada.
Chegou ao ponto em que bastava ter o seu nome datilografado como autor numa letra submetida à censura, que quase se pode dizer que a letra era vetada sem que os censores a lessem. Um dos “atalhos” que o músico passou a usar foi assinar as músicas com um pseudônimo, Gheisa Gomes Chalar da Silva - o nome completo de sua mãe. Graças a esse recurso, Taiguara conseguiu liberar algumas músicas para gravação, provando que a marcação era com ele, e não só com o conteúdo das composições.
Não suportando tanta pressão e falta de espaço para se movimentar, ele se autoexilou em Londres a partir de 1973.
Ao retornar ao Brasil em 1975, ele gravou o ambicioso LP Imyra, Tayra, Ipy Taiguara. Participaram do álbum Hermeto Paschoal, Wagner Tiso, Toninho Horta, Nivaldo Ornelas, Jacques Morelenbaum, Novelli, Zé Eduardo Nazário, Ubirajara Silva (pai de Taiguara), e uma orquestra sinfônica de 80 músicos.
O show de lançamento, marcado para 1º de maio de 1976 nas ruínas de São Miguel das Missões/RS, foi proibido sob ameaça de prisão.
O disco foi liberado para venda, mas permaneceu nas lojas por apenas três dias (72 horas) antes de ser confiscado e recolhido pela polícia, o que o levou a um novo período fora do país.
Taiguara voltou ao Brasil somente em meados dos anos 1980. Não era mais lembrado, nem as gravadoras nem as mídias queriam investir em artistas politizados. Suas músicas vencedoras dos festivais, anteriores a 1970, tinham uma “embalagem” que fez com que, naquela época, caíssem no gosto popular.
Depois das perseguições e a adoção de um tom político muito elevado em suas letras, nunca mais fez o grande sucesso dos festivais, e praticamente foi esquecido.
O que é uma injustiça. Independente de suas posições políticas, Taiguara possui músicas belíssimas. O álbum Imyra, Tayra, Ipy Taiguara possui arranjos muito criativos (a maioria de Hermeto Paschoal) e letras de grande qualidade. Para os que gostam de política nas letras ou para que os procuram lirismo, poesia forte e bela, terão em Taiguara amostras eloquentes dos dois tipos.
O músico gravou somente mais dois discos entre o retorno ao país e seu falecimento em 1996.




