
Elis Regina Carvalho Costa, conhecida artisticamente como Elis Regina, nunca foi torturada, nem presa, pela ditadura militar. Mas foi obrigada a fazer um show que “manchou sua reputação”, pelo menos para alguns intelectuais da “esquerda festiva”, como a chamou o humorista Carlos Leonam, de “O Pasquim”.
Depois de seu sucesso fulminante com o programa de TV “O Fino da Bossa”, com Jair Rodrigues, que ficou no ar durante três anos (de 1965 a 1967). Um dos discos originados desta parceria, “Dois na Bossa”, foi o primeiro LP brasileiro a vender 1 milhão de cópias. E com a sua interpretação da música “Arrastão”, de Edu Lobo e Vinícius de Moraes, que venceu o I Festival de Música Popular Brasileira na TV Excelsior, Elis conseguiu o maior contrato de uma artista de música brasileira na televisão: seis milhões de cruzeiros mensais na TV Record para fazer “O Fino da Bossa” (executivos da emissora chegaram a reclamar que uma cantora iria ganhar mais que alguns deles).
A “Pimentinha”, em seus momentos intensos no palco.
Popularíssima no Brasil, alçou voo a ter carreira internacional entre o final dos anos 1960 e começo dos 70.
Numa dessas turnês internacionais, Elis declarou, numa entrevista para a revista holandesa “Tros-Nederland”, que o governo brasileiro da época (1969) era composto por “gorilas”. Voltando ao Brasil, em novembro de 1971 os militares a constrangeram com interrogatórios e ameaças. Numa declaração de próprio punho, negou tudo o que dissera na entrevista.
O governo militar realizou uma grande comemoração, em 1972, dos 150 anos da Independência do Brasil, o chamado Sesquicentenário da Independência, promovendo vários eventos em todo o país. Par um deles, o Encontro Cívico Nacional, que aconteceu em 21 de abril (feriado de Tiradentes), Elis foi obrigada, nas propagandas do evento, a convocar todos a cantar o Hino Nacional.
Além destas propagandas cívicas, ela também foi coagida a fazer um show no evento “III Olimpíadas do Exército", em 02 de maio de 1972, no Ginásio do Grêmio de Porto Alegre.
Foi o mote para o encarniçado cartunista Henfil, no jornal “O Pasquim”, fazer que o personagem Cabôco Mamadô a “enterrasse” simbolicamente no “Cemitério dos Mortos-Vivos”, coluna que pretendia denunciar e difamar artistas e celebridades, que o artista considerava como omissos, alienados, isentões, ou mesmo colaboradores do regime militar. Já falei desta coluna e seus estragos em outros artigos, mas se você não leu, saiba que Henfil difamou, Elis Regina, Dom e Ravel, Hebe Camargo, Bibi Ferreira, Flávio Cavalcanti, Pelé, Zagallo, Wilson Simonal, Clarice Lispector, Carlos Drummond de Andrade, Nelson Rodrigues, Gilberto Freyre, dentre muitos outros.
O poder de influenciador de Henfil, assim como dos colunistas de “O Pasquim”, era enorme, comparável, senão maior, ao dos “influencers” da nossa época. Se ele não destruiu sozinho, ao menos, ajudou muito no processo de demolição de reputações, sendo a de Wilson Simonal o caso mais forte (como já contado aqui, neste artigo; clique aqui e leia).
Elis chegou a ser comparada, pelo cartunista, a Maurice Chevalier, cantor que fez um show na Alemanha a convite de Hitler, em 1945.
A indisposição que se formou em torno do nome de Elis explica a frieza, indisposição, e por fim, vaias do público estudantil no Festival Phono 73 a ela. Mesmo tendo apresentado duas músicas em parceria eletrizante com Gilberto Gil (“Ladeira da Preguiça” e “É com esse que eu vou”), quando ia começar sozinha a cantar a música “Cabaré”, de João Bosco e Aldir Blanc, começou uma forte vaia. Caetano Veloso levantou-se para defender Elis, gritando: “Respeitem a maior cantora do Brasil”. No final, depois de sua interpretação emocionante, o mesmo público que a havia vaiado, a ovacionou.
VOLTA POR CIMA
Mas somente o público estudantil e de esquerda mais radical odiava Elis Regina, como odiava Dom & Ravel, Wilson Simonal e outros cantores tidos como “colaboracionistas do regime”.
O grande público nunca a abandonou: no mesmo ano da apresentação na Olímpiada do Exército, emplacou sucessos como “Casa no Campo”, “Águas de Março” e “Atrás da Porta”. Em 1974, gravou com Tom Jobim o LP “Elis & Tom”, em Los Angeles, considerado pela crítica como um dos maiores álbuns da música brasileira, e de 1975 a 1977, foi sucesso absoluto com o show “Falso Brilhante”, que ficou em cartaz por mais de um ano sem interrupções, teve mais de 200 apresentações e ainda levou à gravação do disco de 1976, que eternizou sua interpretação de canções de Belchior “Velha Roupa Colorida” e “Como Nossos Pais”.
Em 1976, ela ajudou Rita Lee, que estava presa pelos militares, e que necessitava de cuidados por estar grávida. Ficou ao seu lado, na prisão, até que Rita recebesse os cuidados médicos de que precisava.
Finalmente, em 1979, com a campanha nacional pela Anistia dos perseguidos, presos e exilados pela ditadura militar, Elis se redime com a esquerda ao gravar o que seria considerado o “Hino da Anistia”, a música “O Bêbado e a Equilibrista”. Na letra, faz-se várias referências às vítimas do regime, inclusive à viúva de Vladimir Herzog, mas também a Herbert José de Sousa, o Betinho, o “irmão do Henfil”.
Foi a senha para Henfil retirar sua pecha de “traidora” e “colaboradora do regime” sobre Elis. Mesmo assim, ele nunca pediu desculpas (nem a Elis, nem a qualquer um dos difamados pelos seus cartuns), tendo publicado na sua coluna da revista “Isto É”, em março de 1982, dizendo-se arrependido, meses depois da morte da cantora.
Em entrevista para a pesquisadora Regina Echeverria, para o livro “Furacão Elis”, publicado em 1985, Henfil declarou o seguinte:
Eu só me arrependo de ter enterrado duas pessoas — Clarice Lispector e Elis Regina. (…) Eu não percebi o peso da minha mão. Eu sei que tinha uma mão muito pesada, mas eu não percebia que o tipo de crítica que eu fazia era realmente enfiar o dedo no câncer.
A cantora, em sua última entrevista, na TV Cultura, no programa “Jogo da Verdade”, em 5 de janeiro de 1982, declarou, a respeito do cancelamento, que na época era chamado de “patrulha ideológica”:
Eu fiz o que pude. Se desagradei alguém, lamento. Talvez eu esteja vendo o mundo por um prisma errado.
Elis Regina faleceu 14 dias depois, no dia 19 de janeiro de 1982, aos 36 anos.






