Leio na imprensa que Ronaldo Caiado (PSD) terá pouco espaço para avançar nas eleições presidenciais, porque seu discurso não o diferencia como terceira via entre Lula e Flávio Bolsonaro. Apenas o caracteriza como uma alternativa à direita, composta por um eleitorado que tende a votar em Flávio.
Ou seja, para avançar ao segundo turno, Caiado teria que disputar voto com aquele que é considerado seu aliado. Se conseguir desidratar Flávio e se fortalecer, iria, então, ao embate com Lula. O atual presidente, por sua vez, estaria tranquilo, aguardando apenas a notícia de qual seria seu verdadeiro adversário na próxima etapa da disputa.
Neste cenário, Lula assistiria de camarote à briga no campo adversário, colhendo informações e torcendo para que o mais fraco vença a refrega. A maioria dos lulistas tem tanta certeza de que este nome será o de Flávio que já prepara o ‘kit difamação’ para o momento certo.
Por que Caiado não teria chances de avançar? Segundo seus críticos, ele entra na briga com mais do mesmo ou ainda com um discurso extremista, alguns tons acima ao de Flávio, o que faria o filho de Bolsonaro parecer um homem do centro. Será? Por que ele não estaria de olho no eleitor de centro?
Depois que Tarcísio de Freitas resolveu tentar a reeleição por São Paulo; após Ratinho Júnior resolver trabalhar por um sucessor em seu Estado; depois que Kassab achou melhor não apostar em Eduardo Leite, por considerá-lo muito próximo do espectro petista, sobrou Caiado, governador de Goiás e o último nome do balaio conservador.
No entanto, a fama de Caiado está relacionada à segurança e à educação, além do rigor na gestão dos recursos públicos. É visto também como um político experiente, que sabe se comportar em campanhas competitivas. Se isso tudo for verdade, ele já parte com uma vantagem e tanto. Porque Flávio não tem nada para mostrar, além do fato de que é o ungido pelo seu pai.
Por outro lado, Flávio tem trabalhado bem em uma articulação sem barulho e conquistando adesão ao seu nome dos grandes partidos de direita. Mas nem sempre esse tipo de articulação é suficiente para fazer um nome ser bem aceito pelo eleitorado. As pesquisas feitas até aqui, no entanto, afirmam que ele está no caminho certo.
Há analistas políticos afirmando que Caiado parte apenas com o voto do eleitor ligado ao agronegócio. Não seria suficiente? Com um bom governo para mostrar e com um discurso menos ideológico, o governador seria um nome forte por excelência e se projetaria bem em todo o país. Não se sabe se, com força suficiente para ultrapassar Flávio, claro.
Flávio, não se deve esquecer, é um Bolsonaro. Sua família, especialmente seu irmãozinho Eduardo, é um expert em arrumar encrenca e não desperdiça oportunidade para isso. Ele está na mira do STF e não para de falar bobagem. Resta saber se qualquer coisa que acontecer com integrantes da família Bolsonaro vai impactar na campanha de Flávio.
O fato de Caiado não ter palanque organizado em estados importantes, como São Paulo e na maioria do Nordeste, por exemplo, é visto como fator decisivo para seu nome empacar, dizem outros tantos analistas. Mas ele tem os caminhos dos municípios, ou não? Mas ele tem o caminho das redes sociais, ou não? Mas ele tem a imprensa, ou não?
Há um outro fator surpresa nessa campanha que se chama Renan Santos, do Missão, que corre por fora e, segundo se afirma entre especialistas, ele tem conseguido a adesão em massa de jovens frustrados com a política brasileira. Jovens que apostam no diferente, no inusitado, da ruptura do sistema convencional, disputado por Lula, Flávio e Caiado, Zema, Aldo Rebelo etc.
Se Renan souber trabalhar sua linguagem e for além desse nicho específico, poderá trazer problemas adicionais ao esperado, roubando votos valiosos, desequilibrando o jogo linear e atraindo o voto de protesto. Evidentemente que não teria força para ir ao segundo turno. O futuro tem sido uma caixinha vazia de surpresas.
Vale lembra que Lula só tem mesmo cerca de 22% do eleitorado fiel a ele. Vale lembrar que Bolsonaro não tem mais do que 22% do eleitorado fiel a ele. O resto está em aberto.
Com estas observações, quero dizer que não dá ainda para saber o que vai acontecer nessas eleições, por mais que os especialistas cravem isso ou aquilo. Muita papagaiada corre solta. Pode acontecer coisas inusitadas. Pode não acontecer coisa nenhuma. É preciso estar aberto para surpresas.
Ontem mesmo, Lula pensava em ganhar a eleição no primeiro turno. Ontem mesmo, Flávio pensava em ganhar no primeiro turno. Ambos estão bem cautelosos quanto a essa possibilidade. As redes sociais podem trazer elementos novos para complicar a vida dos pensadores padronizados.
Caiado, Zema, Renan e Rebelo ainda não deixaram claro a que vieram. Kassab não é nenhum idiota, quando o assunto é poder e Caiado tem uma missão em seu jogo de cartas. Em que direção a nau das ilusões vai seguir? Um especialista me disse que o mar não está para peixe. Só Lula tem a certeza de que vai para o segundo turno. Mas nem sempre essa certeza é tão certa assim.




