Marcola e a sorte de ter uma amiga como Roberta
Se você está enrolado em dívida, o banco é o último lugar para se entrar
Nenhum dos meus amigos teria hoje R$ 249 mil para me emprestar. Mesmo que eu pagasse a exorbitante taxa e juros que o sistema financeiro cobra hoje em dia. A única saída para mim seria mesmo encarar o gerente de um banco convencional e sair de lá com um pacote de boletos impagáveis.
Suponho que, considerando todas as taxas adicionais, meu compromisso com o banco subiria de R$ 249 mil para algo em torno de R$ 325 mil. Não existe almoço grátis.
Coloco 30% ao ano na conta para não errar muito. Mas pode ser mais, muito mais. Porque esta semana conversei com um representante do agronegócio e ele me disse que até para o setor, com bons lastros, não há facilidades. O juro é escorchante mesmo.
É evidente que, para se fazer um empréstimo desta natureza, a pessoa deva ter um bom salário.
Quando falo em bom salário, penso logo em salário de juiz e seus penduricalhos, o que não deve ser o caso do ex-assessor de Lula, Marco Aurélio Santana Ribeiro, vulgo “Marcola”.
Empréstimo
Tenho um amigo professor de economia que me disse uma vez: “Se você está enrolado em dívida, o banco é o último lugar para se entrar. Ele vai te enrolar ainda mais. O ideal é emprestar de familiares e amigos. Assim você escapa das taxas e juros e tem mais flexibilidade para pagar o empréstimo. Irmã e tia são para esses momentos difíceis”.
É aí que entra o perigo. Emprestar de familiares, tudo bem. Você vai ser questionado sobre os motivos do seu endividamento, mas a grana chega. Há sempre alguém em casa com uma sobrinha para te ajudar. Mas não nesse volume de R$ 249 mil, evidentemente. Bem menos, Batista, bem menos. Os amigos, sabe como é... Vão dizer na maior tranquilidade: “Se eu tivesse esse dinheiro, com certeza emprestaria. Mas ando também numa fase difícil... Se fossem uns R$ 2 mil, eu poderia te dar uma força”.
Marcola
O ex-assessor de Lula, Marco Aurélio Santana Ribeiro, vulgo “Marcola”, poderia muito bem pegar com Lula um empréstimo. Foi noticiado recentemente, coisa de dois meses, por aí, que o seu filho Lulinha precisou de R$ 700 mil para fechar um negócio fenomenal e o presidente fez imediatamente um PIX no valor. Agora, por que não emprestou de alguém tão próximo e resolveu o problema? Afinal, estamos falando de amigos e de assessoria de gabinete.
Precisou aparecer na frente de Marcola uma pessoa que precisava de acessos fáceis ao governo para... Afinal, ela é lobista. Esse alguém lobista deve ter tentado uma, duas e até três vezes, mas sentiu dificuldades para passar pela catraca. Até que o Lulinha deve ter ligado para o Marcola e dado um esporro. “Ela é minha amiga, porra. Facilita aí!” Marcola cedeu. Com filho de presidente não se brinca.
Até que ficaram amigos. Roberta Luchsinger deve ter dado um presentinho, dois presentinhos, três... e ele percebeu que a coisa era mais fácil do que ele imaginava: “Se quer mesmo me agradar, me tira desse sufoco”, disse à moça na primeira oportunidade. “Preciso quitar umas dívidas e uns R$ 250 mil resolveriam tudo”.
Roberta olhou para cá, Roberta olhou para lá, quando fixou seu olhar no Zé Buchecha, foi dura e certeira: “A grana estará na sua conta hoje mesmo. Mas vamos trabalhar em parceria, pode ser? A partir de hoje, sem burocracias...”
Assim ficou o acordo. Uma mão lava a outra e as duas carregam a grana. O Zé Buchecha, quero dizer, Marcola nem pestanejou. A amizade entre eles se fortaleceu imensamente, até que a PF teve acesso à informação e ele resolveu ser franco: “Roberta me emprestou R$ 249 mil (faltou R$ 1 mil para os R$ 250 mil iniciais) e eu já paguei tudo certinho. Coisa normal entre amigos”.
Pagou?
Não sei se vem ao caso, mas seria importante saber se Marcola honrou o seu compromisso com a moça. Amizade assim não se encontra todos os dias, não é mesmo? Mas pagar uma dívida dessa natureza é coisa fácil de fazer com caixa 2. Aqui apresento apenas uma especulação. Tudo pode ter ocorrido na maior transparência, acreditamos. Mas tudo pode ter ocorrido de forma ainda mais nebulosa. No Brasil, é assim. Ser ingênuo é uma qualidade de quem não entende do assunto. Vai ver a moça, de tão legal que é, deve estar dando uma força para o moço até hoje. É bom ter amigos instantâneos e leais.
Roberta
Depois do acordo com Marcola, Roberta deve ter ligado para Lulinha. “Meu amigo, foi mamão com açúcar. Simpático o moço lá. Ele entendeu os nossos propósitos e vai colaborar”. E Lulinha disse: “Mas você teve que dar algum dinheiro para ele”.
Ela: “Claro que não. Nem podemos chamar isso de dinheiro”. Lulinha continuou: “Meu pai ficou sabendo de alguma coisa”. A resposta foi rápida: “Você acha que seu pai desconfia de algo ou tem tempo para isso? Ele sabe como funciona o mundo dos negócios em Brasília, desde as caravelas”. Lulinha só arrumou um detalhe. “Não fale assim, Brasília foi fundada na década de 1960”. E ela: “Vai querer me dar aula de história agora? O importante é que temos pente, santinho e espelho para todo mundo que entrar no nosso caminho. Vamos trabalhar!”



