Medalha, medalha, medalha
Mutley me ensinou a entender o mundo moderno mais do que toda a teoria crítica do curso de Jornalismo da Unimep

“Quer tornar um homem desinteressante? Dê uma medalha a ele”. Esta frase não existe como exemplo de ideia brilhante, eu sei. Napoleão não disse nada a respeito, nem Joseph Goebbels. Pesquisei no Google.
Não sei também o motivo de ela vir formuladinha assim para mim, como se fosse a matriz de um pensamento genial.
Resolvi adotá-la, porque não dispenso ideia para artigos, principalmente quando esconde algum mistério. Procuro desvendá-lo.
Eu estava aqui falando sobre João Chiarini, meu velho professor no tempo de Jaçanã Altair Pereira Guerrini, na Vila Independência, e seu gosto por medalhas. Era o nosso Muttley.
Sempre ignorei esse gosto por condecorações. De vez em quando sou citado para receber isso ou aquilo e meu estomago embrulha. Talvez seja a forte influência que recebi de Millor Fernandes, que não perdia oportunidade para fazer um trocadilho.
“Quer tornar um homem interessante: Júlio Medalhia nele”. Mas aí fujo do foco, como Gilmar Mendes da verdade. Inclusive, esta frase é invencionice minha. Meu foco é Mutley, sim, aquele cachorro de Hanna & Barbera.
Quando Dick Vigarista, o vilão da Corrida Maluca, precisava de ajuda, pedia para Mutley. E o cachorro vinha com sua clássica: “medalha, medalha, medalha”.
Para mim, ele queria dizer que precisava ser reconhecido primeiro, depois tomaria alguma providência. Sua risada cínica era um exemplo cruel de sinceridade e sinalizador de um novo tempo. De uma nova moral.
Ele me ensinou a entender o mundo moderno mais do que toda a teoria crítica do professor Berlarmino no curso de Jornalismo da Unimep.
Percebo agora, depois dessas reflexões, que a Penélope Charmosa seria protegida por todos os participantes da Corrida Maluca. Ela era a síntese do politicamente correto daquela época (machismo, claro), que se resumia a certos cavalheirismos, muito influenciados pela sua beleza. Ela era atrativa para a “homarada”.
Tanto é que Penélope Charmosa raramente ganhava uma corrida. Se não me engano, de 36, ela ganhou apenas 4. Afinal, estamos falando em campeonato. Eram disputas entre mastodontes. Por isso o programa chegou ao fim rápido. As famílias começavam a achar aquilo agressivo demais para seus filhos. É o nascimento do politicamente correto como o conhecemos.
O Dick Vigarista, por sua vez, era a antítese da fêmea fatal. Um trapaceiro inveterado. Estigmatizado como a maldade encarnada, mesmo em um ambiente carregado de gente (competidores) sem caráter.
O impostor tinha um Muttley ao seu lado, uma espécie de oportunista, que não se negava a ajudar seu mestre, pelo que me lembro. Antes, porém, queria a sua parte em dinheiro, ou melhor, em medalhas, não dando tempo de ajudar o mestre. Estrategista.
Corrida Maluca foi cancelada pelo seu excesso de realismo. Muttley sabia que estava em campo minado e pensava sempre em si próprio. Já viram um mundo assim? João Chiarini não era diferente. Antes da sua obra seminal, daquela produção intelectual que o colocaria como referência, digno de nota para a história local, pensava sempre em: “Medalha, medalha, medalha”.


