Transformação digital na medicina reduz desigualdades e melhora o acesso à saúde
Giovanni Guido Cerri aponta como outra das vantagens a redução de custos e afirma que o Brasil é muito favorecido por essa transformação

O campo da medicina jamais será o mesmo do que já foi um dia nestes tempos de alta tecnologia e da descoberta de novas terapias, tratamentos e medicamentos a todo momento mais eficazes. Os impactos da transformação digital na medicina são o tema central do livro Saúde 4.0, que reúne mais de 70 autores, entre pesquisadores, gestores e profissionais de saúde, um trabalho de esforço coletivo.
“Um dos legados positivos da grande tragédia que foi a pandemia de Covid foi justamente a transformação digital”, afirma o professor Giovanni Guido Cerri, da Faculdade de Medicina da USP e presidente do InovaHC, Núcleo de Inovação Tecnológica do Hospital das Clínicas. “Nós tivemos oportunidade de introduzir novas tecnologias pela necessidade que os profissionais de saúde tinham de se comunicar com os pacientes e daí houve a lei que regulamentou a telemedicina, mas a transformação digital vai muito além da teleconsulta”, arremata ele, com isso querendo dizer que ela implica a introdução de diversas inovações tecnológicas, “que mudam em grande parte a assistência da saúde no Brasil e no mundo”.
Ainda segundo Cerri, o Brasil, por ser um país de dimensões continentais, é muito favorecido por essa transformação, “porque passa a incluir regiões remotas, que tinham difícil acesso aos profissionais de saúde, e também ajuda a reduzir as desigualdades regionais, porque áreas que não tinham especialistas passam a ter acesso a especialistas de forma remota. E o impacto de tecnologias como a inteligência artificial aumenta a eficiência do sistema, reduzindo o custo da saúde, ou seja, para o Brasil, eu diria que a transformação digital reduz a desigualdade, melhora o acesso e pode impactar também numa redução de custos”.
O projeto de saúde digital desenvolvido para o Hospital das Clínicas, por meio do InovaHC, teve uma abrangência nacional e hoje está sendo implantado no Estado de São Paulo, em parceria com o governo do Estado e a Secretaria de Estado da Saúde. Um exemplo é um programa que está em desenvolvimento e que prevê o atendimento à população carcerária, “mostrando como a saúde digital é inclusiva, visa a atender as populações que não são adequadamente assistidas”.
Tecnologia responsável
A introdução de novas tecnologias tem sempre como sujeito principal o paciente, como Cerri gosta de frisar. “Na verdade, a saúde 4.0 visa também a empoderar o paciente, ou seja, o paciente no centro da atenção. Ele pode ser atendido a distância, pode ser monitorado a distância […] porque hoje nós temos uma grande riqueza de dados, mas esses dados muitas vezes não são aproveitados. A saúde 4.0 avalia esses dados, ajuda a criar políticas públicas e coloca o paciente como o centro de atenção em saúde”. Em relação a isso, ele chama a atenção para o fato de que a proteção dos dados do paciente “é um pilar fundamental de toda a saúde digital, de toda essa transformação”.
Desafios, contudo, sempre existem e, nesse caso específico, vêm na forma de uma mudança de cultura e, como tal, exige capacitação dos profissionais de saúde e até dos pacientes nessa utilização de novas tecnologias. “O processo realmente é gradual, mas o projeto que desenvolvemos em parceria com a Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo é um projeto que inclui pesquisa, desenvolvimento e inovação”, diz ele, para quem existe a consciência da necessidade da transformação digital para a sustentabilidade, em particular econômica, da saúde no País e pelos fatores inclusivos, ou seja, a possibilidade de trazer pacientes hoje distantes do sistema de saúde em regiões remotas. “É uma forma realmente de nós fazermos a transformação, que traz benefícios de sustentabilidade, mas também traz a inclusão e a redução de desigualdades, que são tão necessárias num país como o nosso”.




