A preocupação com o futuro do clima global tem ultrapassado o debate ambiental e alcançado a saúde mental de adolescentes e jovens adultos. Diante de notícias sobre ondas de calor, queimadas, enchentes e perda da biodiversidade, parte dessa geração passa a lidar com sentimentos de medo, angústia e insegurança em relação aos próximos anos. Esse sofrimento, associado à percepção das mudanças climáticas e de suas consequências, é conhecido como “ecoansiedade” ou “ansiedade climática”.
Além das preocupações ambientais, questões como a escolha de profissão, construção de uma família e as condições de vida nas próximas décadas estão ganhando novos contornos diante da incerteza sobre a capacidade da sociedade de enfrentar esse obstáculo.
A psicóloga Andréia De Conto Garbin, docente do Departamento de Saúde Ambiental da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP explica o que é a ecoansiedade e como ela afeta a vida das pessoas que convivem com o problema. “A ecoansiedade é compreendida como medo crônico, angústia e culpa diante das mudanças climáticas e da degradação ambiental. Essa ansiedade engloba o sofrimento diante de perdas ambientais e das transformações que acontecem nos territórios diversos.”
Medo do futuro e sensacionalismo
A juventude é uma fase marcada pela construção de projetos de vida e pela expectativa de oportunidades futuras. Nesse contexto, a possibilidade de enfrentar eventos climáticos cada vez mais intensos pode tornar mais difícil imaginar como serão as próximas décadas. “Os jovens não veem perspectivas de mudanças na sociedade favoráveis ao desenvolvimento de projetos de vida diante dos eventos climáticos e das tímidas ações governamentais. Isso gera um sentimento de não pertencimento, de angústia e sensação de impotência”, relata Andréia.
A experiência direta de desastres ambientais também pode intensificar esse sofrimento. Enchentes, incêndios florestais, secas e ondas de calor não provocam apenas prejuízos materiais e riscos à saúde física: podem gerar insegurança, medo de novos episódios e preocupação com a própria família e comunidade. “Podemos constatar o uso abusivo de álcool e outras substâncias psicoativas, tentativas de suicídio e processos de luto decorrentes de perdas humanas, profissionais ou financeiras associadas a eventos climáticos extremos, como secas severas, bem como o sofrimento relacionado ao desaparecimento real ou iminente de paisagens naturais e à perda de bens materiais e referências simbólicas em decorrência das mudanças climáticas”, afirma.
A forma como as mudanças climáticas são divulgadas pela mídia também pode influenciar a maneira como os jovens lidam com o problema. Notícias com abordagens sensacionalistas, que enfatizam cenários catastróficos e consequências irreversíveis sem contextualizar as informações ou apresentar perspectivas de enfrentamento, são uma delas. “A exposição frequente às notícias pode aumentar o medo e desamparo, desse modo é possível sentir dores, tensões, fadigas, alterações no sono e apetite. Também irritabilidade, agressividade e reações emocionais intensas, isolamento social, dificuldades de concentração, esquecimentos, isolamento, dentre outros”. Nesse contexto, a professora complementa que a divulgação responsável de informações, com base em evidências científicas e acompanhada de explicações sobre medidas de prevenção e possibilidades de ação coletiva, é fundamental para informar os jovens sem ampliar o sofrimento emocional.
Apoio psicológico
De acordo com a docente, o acompanhamento psicológico que visa a evitar o agravamento de quadro é um elemento importante para manter a qualidade de vida e o bem-estar de quem vive com a ecoansiedade. “Se a pessoa apresenta ansiedade ou sofrimento que interfere nas suas atividades, um atendimento de saúde especializado é viável para que seja oferecida a atenção psicossocial indicada”. Andréia complementa, que é importante avaliar a história particular de quem sofre do problema e observar se ela não foi afetada por algum desastre, para que os profissionais da saúde façam o indicativo de qual o melhor acompanhamento para aquele indivíduo. Salienta ainda. que diante das mudanças climáticas e dos eventos extremos é esperado que as pessoas apresentem sintomas relacionados à ansiedade e angústia, por isso é necessário reconhecer que sinais e sintomas serão manifestados.
Para a psicóloga, a participação em iniciativas coletivas, como projetos ambientais, organizações juvenis e ações comunitárias, pode contribuir para transformar a sensação de impotência dos jovens em engajamento social e ações concretas. “A ação coletiva, a participação social e o envolvimento nas questões ambientais mobiliza a reflexão e a ação sobre os rumos da sociedade em torno da proteção à vida, à saúde e ao ambiente. É possível que os jovens vislumbrem formas de interferir no cenário atual, de resistir frente ao avanço da destruição ambiental e encontre laços de solidariedade e apoio comunitário para enfrentar situações adversas. Essas medidas podem diminuir a ecoansiedade promover saúde mental”.
Matéria: Maby Ferreira | Jornal da USP.





