Sempre que tento laçar um assunto da memória para contar casos antigos aos leitores da Revista de Domingo, me vêm à lembrança coisas boas. O cérebro da gente é mesmo seletivo. As coisas ruins chegam suavizadas. Tudo sempre carregado de muito humor.
Até hoje encontro pessoas que se lembram do tempo em que eu tinha um sebo de livros, em uma sala do primeiro andar do velho shopping Ziliatti, na Governador. Não existe mais nem o sebo nem o shopping. Nesse período, vivi mergulhado em livros, lendo de tudo e vendendo o que era possível. Até que me cansei.
Meu amigo Magno Brasil se lembra de um dia em que eu empacotava tudo para fechar a loja. Ele chegou ao sebo e me perguntou: “O que você está fazendo?” Respondi: “Fechando a loja”. “Mas por que você vai fazer isso? Um sebo tão bom”.
Segundo ele, eu respondi de bate-pronto: “Por causa de pessoas como você, que vêm aqui só para folhear meus livros e não compram nada. Como vou pagar as contas do mês assim?”
Eu sempre fui bocudo e devo ter respondido dessa forma mesmo, com agressividade. Mas pelo humor de Magno me contando esta passagem, ele deve ter tirado de letra e até riu, para suavizar o momento. Me recordo apenas que o sebo desapareceu do meu horizonte. Depois disso, começaram os projetos jornalísticos.
No entanto, vale registrar que de fato se tratava de um sebo especial. Comprei e ganhei várias bibliotecas importantes da cidade, como a do professor de direito Paulo Afonso Leme Machado. Paguei bagatela por livros muito bons da área de direito, da área ambiental e de linguística, revendidos rapidamente.
Mas a biblioteca que vale este registro foi a do médico dr. Cláudio Mann. Se não me engano ele era especialista em ossos. Atuou na empresa Dedini por décadas. Era conhecidíssimo na cidade. O que mais me surpreendeu nesse episódio foi como ele chegou até ao sebo.
Eu estava na porta de saída para a rua Governador. Ele me abordou perguntando de onde vinha aquele som. Até que compreendi que ele queria saber sobre o disco de Chopin que deixei na agulha da velha eletrola, lá no sebo.
“A música vem do meu sebo”, falei descontraído. “Ah, então você tem um sebo? E gosta de Chopin?”, me perguntou. “Se o senhor quiser conhecer o acervo de discos clássicos, podemos subir”, eu falei. Não recordo exatamente se ele subiu o não, mas foi enfático ao dizer:
“Eu procurava uma pessoa como você para doar uma biblioteca. Tenho mais ou menos 600 livros da Editora Biblioteca do Exército e preciso me desfazer deles. Não gostaria de doar para qualquer um. Mas pela sua cultura, acho que você é a pessoa adequada para recebê-los”.
Fiquei mais do que feliz e segui até à casa dele naquele mesmo momento, a seu convite, claro, para conhecer o acervo. Muitos livros de sociologia e de antropologia, além de muita história do Brasil e da diplomacia brasileira, como sobre Barão do Rio Branco e Ruy Barbosa. Fiquei babando.
Mais do que rapidamente, arrumei uma forma de tomar posse daqueles livros, analisá-los melhor e colocá-los à venda. Tudo parecia ir muito bem em meus negócios. Mas nunca podemos nos esquecer que estamos no Brasil e de vez em quando somos violentados por planos econômicos.
Deve ter sido um desses planos que me derrubou enquanto empreendedor do ramo de livros usados. Mas as memórias boas permanecem e até hoje agradeço a Chopin por ele estar rodando na minha velha eletrola. São coisas mágicas da vida.




