Lourival Sant’Anna, colunista do Estadão, disse que a disputa pelo Parlamento americano não foi uma vitória da esquerda, como costuma ser tratado o Partido Democrata, mas, sim, uma derrota de Donald Trump. Considero sua análise correta, tendo em vista a política do governo americano, que jogou os EUA em uma onda de endividamento familiar sem precedentes nas últimas décadas.
A guerra contra o Irã, por exemplo, serviu apenas para elevar o preço dos combustíveis e trazer insegurança ao dia a dia das pessoas. Há os juros elevados, que atingem o financiamento de moradias e o pagamento do cartão de crédito. Não precisa de mais nada para destruir a confiança em um governo. Nos EUA, a insegurança financeira tornou-se uma arma feroz nas mãos dos eleitores.
No Brasil, também se caminhava para um quadro com tais dimensões. Tanto é que as famílias de classe média, que votaram em Flávio, estão extremamente receosas com o que Lula pode fazer na economia. Os sinais desconcertantes de que o reeleito seguiria as orientações do economista André Lara Resende abalaram os mercados.
Não necessariamente pelas teses pouco ortodoxas de Lara Resende, mas devido à abertura tremenda que a proposta ofereceria ao governo, estimulando ainda mais o uso inadequado de dinheiro público. A proposta em si poderia até ser discutida em uma ocasião de lucidez administrativa. Mas não por alguém que deixou claro que não gosta sequer de falar em equilíbrio fiscal.
Mesmo sem uma guerra para chamar de sua, Lula tem dificuldades para pacificar os espíritos incendiados durante o período eleitoral. Como nos EUA, a oposição no Parlamento brasileiro cresceu expressivamente e tem todas as condições de agir e conter os impulsos populistas do presidente. Para isso, precisa apenas se organizar. Esta ordem é difícil, porque o governo tenta de tudo para desarticular a união.
A diferença gritante é que os Democratas agem em bloco e podem travar as aventuras trumpistas, seguindo uma estratégia política unificada. No Brasil, vale a máxima de que todo homem tem um preço, e o governo estuda o quanto poderá desembolsar para liquidar essa fatura e controlar o Congresso Nacional. É uma questão de caráter e de fazer um bom negócio no mercado dos interesses pessoais. No Brasil, a falta de espírito público costuma passear livremente pelos bastidores do poder.





