Porque as modinhas vão e vem
Ouvimos o prof. Raymonde Channel, cientista social e consultor de tendências, para saber porque ninguém mais fala dos bebês Reborn, do YoYo Russel Coca-Cola e do Tamagochi
Na tarde de sexta-feira (27), fiquei intrigado ao presenciar um grupo em frente a uma escola, apontando para uma mulher e dizendo: “Aquilo que está no colo da moça é um bebê de verdade ou é um boneco?”. Pensei: “Ué, é um bebê reborn, todo mundo sabe disso.

Na qualidade de repórter, interpelei o grupo e perguntei se elas realmente não sabiam que ser era aquele no colo da moça, que a esta altura já ia longe. Uma das pessoas, que usava um óculos escuros Chilli Beans (que para nós, sempre soou como nome de comida mexicana), respondeu-me que não sabia, mas achava que era um boneco.
Ou seja, eu pensei que todo mundo sabia de certos fatos da vida, como por exemplo, diferenciar um ser humano recém-nascido, que por mais bonito que seja, sempre se mostra com uma bolha de leite, um ranho saindo do narizinho, alguma bereba ou sapinho. O bebê reborn, como sabemos, é uma mistura do look de nenês em propagandas de papinhas da Nestlé da década de 1960 e a encarnação, em plástico moldado, do Mundo das Ideias de Platão, versão California Summer 1968.
Resolvi, então, procurar um especialista que me explicasse, e aos leitores do Viletim, porque cargas d’água as modinhas “pop” são tão velozes, tão fugazes. Já conhecia o prof. Raymonde Channel, e por feliz acaso encontrei-o na rua, enquanto quebrava a minha cabeça pensando se haveria alguém que pudesse solucionar minhas dúvidas mortais sobre assunto tão relevante. O professor estava meio aflito, pego desprevenido nesta onda de calor, procurando uma sorveteria que oferecesse paletas mexicanas, mas não encontrava nem umazinha, em pleno outono (com cara de verão brabo) piracicabano. Teve de se contentar com um açaí, que detesta.
Seguem alguns trechos da entrevista, gravada em meu Motorola Razr V3, modelo flip, que um dia foi uma coqueluche, mas hoje é só uma sucata que perambula no meu bolso, sucata que ainda insisto em manter viva.
VILETIM: Anteontem, discutíamos o direito de “mães de bebês reborn” amamentarem seus “filhos” em praça pública, assim como o direito delas à creche e babá pagas por bolsas do governo federal. Hoje, os homens da Machosfera estão escandalizados com a Erika Hilton e as mulheres trans estão escandalizadas com a reação desses homens. Eu corro o risco de ser enquadrado na Lei contra a Misoginia, aprovada esta semana, só por estar fazendo estas perguntas e ainda por cima as publicando.
PROF. CHANNEL: Pois é, das duas uma: ou você é muito corajoso, ou não tem noção nenhuma de nada. É um completo boco-moco!
VILETIM: Não ouvia essa expressão desde que parei de assistir ao Video Show, em 1995. Não vivi a época, mas parece que era de um comercial de guaraná da década de 70...
PROF. CHANNEL: Não vamos fugir do assunto. Sobre os bebês reborn, acho que a sociedade ainda vai pagar caro por deixar tanta gente psicologicamente desguarnecida quanto à necessidade que todos temos de manifestar afeto, carinho, amor. Se uma moça, mulher ou idosa quer manifestar isso tudo voltado para um boneco, que na verdade é mais que um boneco, é praticamente um avatar, quase da mesma categoria que a dos venerados pelos hindus, qual é o problema?
Mas o núcleo da sua pergunta, o hardcore da questão, é que estamos tão carentes da presença humana, por termos sido educados primeiro com telas de TV de tubo Telefunken, depois por ouvirmos a jogos de futebol em radinhos transistorizados mesmo estando presentes no estádio, depois ao começarmos a navegar na internet, passando para os smartphones, onde passamos a nossa vida deitados eternamente em redes sociais, berços esplêndidos... na verdade, os bebês somos nós, cuidando de bebês reais, reborns ou não.
VILETIM: Parece que o senhor é contra as modas. Pensei que fosse consultor de tendências, e ajudasse empresas a se encaixarem nestes fluxos sociais, para beneficiar a si e seus colaboradores.
PROF. CHANNEL: De fato, minha função, além de dar aulas, é prestar consultoria sobre as “trends” do momento. Não são todas as modinhas, no entanto, que compensam, e algumas são tão rápidas, que não dá tempo nem de vender cursos sobre elas. Ao fim e ao cabo, compensa mesmo dar aulas, para segurar o orçamento. Mas como diz um amigo querido: pare com esta mania de dar aulas, você vai ficar pobre. Venda suas aulas, e não as dê. Você é filho do universo, e ele conspira ao seu favor!
VILETIM: Dizem que a moda mais superestimada do momento é a IA, a Inteligência Artificial. Procede?
PROF. CHANNEL: Se a IA realmente for uma modinha, estamos todos ferrados. No caso do Brasil, com uma especificidade: estaremos ferrados de verde e amarelo. Porque o que a IA mais consome é água: ela tem uma sede imensa. Precisa dela, mais e mais, para resfriar a temperatura dos servidores, que já se contam às centenas, ligados em série. E como o Brasil é o país que mais tem agua potável do mundo, é aqui que as Big Techs vão aportar, para saciar a sede dos seus datacenters. Mas o Brasil é craque em acalmar servidores, dando mais e mais, já temos expertise para essa tarefa, que vai garantir nossa sobrevivência no futuro. Cumprindo o que Raul Seixas profetizou: “a solução é alugar o Brasil”.
VILETIM: Tinham vários doces antigamente, que me intrigam até hoje. Por exemplo, o Pirulito Zorro, o pirulito Girocóptero, o Dip’n’link (que dizem, causava câncer); o chocolate Surpresa com figurinhas de bichos brasileiros e o chiclete Ping Pong com figurinhas da Copa. Outras modas são incompreensíveis, como o sorvete feito com maria-mole e uma bexiga dentro, e o Ki-Suco dentro de plásticos no formato de revolvinho (esse, tenho certeza, dava câncer).
PROF. CHANNEL: Isso é uma pergunta, ou um suspiro de nostalgia?
VILETIM: Chame do que quiser. O que eu quero saber é: muita gente cresceu com brinquedos do Paraguai, tamagochis de 2 bits e videogames fabricados com uma tecnologia um pouco mais avançada que juntar tudo com durex, arame e cola de farinha de trigo. O “must”, a coqueluche, a febre dos anos 80 eram jogos como Pitfall, Enduro e River Raid. A Geração X, Y, Z vai olhar para a sua infância e dizer: “nossa, como eu conseguia jogar Call of Duty num computador tão ruim como o que eu tinha nos anos 2020?”
PROF. CHANNEL: Não sou futurologista, mas basta ter lido a revista “Seleções” de antigamente, para saber que os sábios da Biblioteca de Alexandria já tinham um debate entre “Tradicionalistas x Modernos”. Isso no ano 200 antes de Cristo!!! Por isso, acho que a sua pergunta é um tanto ingênua, para não dizer, boba.
VILETIM: Tenho que perguntar, para isso sou pago. O senhor deveria responder com mais educação. Ou ela não está mais na moda?
PROF. CHANNEL: Em filosofia, chamamos isso de “pergunta tautológica”. Ela contém em si a resposta e não vale a pena nem considerá-la. Passe para a próxima, por favor, e vamos terminando, porque esse açaí estava horrível, e neste lugar pavoroso não tem nem uma pia para eu lavar a boca.
VILETIM: A pergunta mais importante desta entrevista: a moda dos ioiôs vai e volta. Voltará?
PROF. CHANNEL: Acredito que os ioiôs são uma metáfora da condição humana. Uma hora estamos em cima, outra em baixo, às vezes à esquerda ou à direita. E você tem que saber enrolar direito, senão não funciona. O truque de fazê-lo “dormir”, rodando em falso, o que seria um defeito, na verdade é uma manobra básica, da qual dependem todas as outras. Muitas vezes temos que aprender a “dormir”, rodando em falso, para não entrar em confusões. O ioiô, em suma, se comporta como muita gente, uma hora vai para um lado, em outra hora, para a direção oposta, balançando entre dois fogos. Bem, na verdade, retifico: o ioiô é uma imagem não da condição humana, mas da condição de ser brasileiro.


